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sábado, 26 de setembro de 2015

Aconteceu você: 8º Capítulo

CAPÍTULO 8: DE VOLTA À ESCRITA
Definitivamente escrever era para mim uma terapia, e há muito tempo eu não me permitia tal atitude por obrigações profissionais, talvez por acomodação e até quem sabe por trauma de tanto ouvir da Cuca, minha antiga chefe Isabel, que eu não tinha o menor talento para escrita.
Entretida com minha volta à escrita, nem vi o tempo passar, já era noite, quando meu celular tocou, era ela: Marisa.
- Oi Mah! Então, ainda no hospital?
- Na verdade não...
- E eu posso saber onde você está?
- Acho que sim, estou aqui na sua porta, você poderia, por favor, abri-la?
Desci as escadas correndo, e abri a porta ansiosa, Marisa estava de pé, com uma pizza na mão:
- Entrega para senhorita Alexandra.
Puxei-a para dentro de casa arrancando-lhe um beijo intenso, sem deixar chance de escapatória.
- Você sempre recebe assim os entregadores de pizza?
- Só os mais gostosos...
- Minha nossa! O que você tem hoje? Não provocou nenhum acidente, e está fazendo cada coisa comigo...
- Nem vem ta! Hoje me comportei direitinho... Quer dizer...
- O que foi? Algo que eu não saiba?
- É que... Bem, saí toda molhada do banheiro...
Só contei o início da história e isso foi o suficiente para Marisa deduzir o resto e cair na gargalhada.
- Então por isso você estava com a jaqueta de Elaine?
- Ahan...
Contei os detalhes da história me divertindo com as caras e bocas de Marisa, enquanto colocava a mesa para nós. Minha vontade de estar perto dela era tão grande, que puxei-a para meu colo e assim comemos a pizza que ela trouxe. Visivelmente cansada, Marisa bocejava depois de jantarmos, levei-a para meu quarto, deitei sua cabeça no meu colo acariciando seus cabelos e em pouco tempo ela cochilou sob meu olhar de encantamento.
Inspiração maior eu não podia ter. Com cuidado deixei-a na cama dormindo e voltei para meu notebook escrevendo a perfeição da minha personagem no romance que se tornara a representação do meu presente real e imaginário depois de conhecer Marisa.
Envolvida na escrita, descrevendo a médica de sucesso e apaixonante que transformara a vida de uma jornalista atrapalhada, não percebi a chegada de Marisa por trás da minha poltrona, abraçou-me delicadamente recostando seu queixo no meu ombro para ler o que eu digitava.
- “Seu semblante sereno quase angelical repousando no meu colo, na minha cama, me dava a sensação de paz, bem-estar a qual eu nem sonhava que existisse, o mundo poderia acabar naquele momento e eu permaneceria imóvel para não desfazer aquele instante.”
Marisa leu o trecho em voz alta me surpreendendo, em seguida perguntou-me:
- Você pode me explicar o que é isso afinal Alexandra? Você está me usando para escrever um livro?
O tom da voz de Marisa ao me dizer isso, assustou-me. Imaginei que ela pudesse estar ofendida por eu de certa forma estar usando-a como recurso literário.
- Não... Quer dizer...
- Posso ler?
Muito constrangida e temendo sua reação, balancei a cabeça autorizando, e ela colocou o notebook no seu colo apertando os olhos para ler. Prestei atenção em cada gesto dela, mas as suas expressões eram enigmáticas para mim, despertando em mim uma curiosidade angustiante.
A leitura demorou quase uma hora, eu andava de um lado para o outro no quarto e apesar do meu gesto impaciente, Marisa não se distraiu, e quando não suportei mais a espera gritei:
- Ai Marisa! Fala alguma coisa!
Marisa colocou a mão no queixo, com uma expressão séria, fez suspense, e enfim disse:
- Alex, você escreve muito bem! Fique totalmente presa a leitura e estou ansiosa para saber mais dessa estória...
Respirei aliviada e abri um sorriso tímido.
- Você tem que publicar isso...
- Publicar?
- Claro! Tem qualidade pra isso, você tem que publicar.
- Mas esse tipo de literatura? Será que vai ser bem aceito?
- Tenho certeza que sim... Mas só pra te convencer que estou certa, faz o seguinte, começa a publicar por capítulos em sites especializados, você vai ver a aceitação do público.
Achei a idéia de Marisa viável, e prometi pensar no assunto.
- Mas me diga... Essa tal médica aí é tudo isso que você escreveu?
- O personagem é sim...
- Ah... O personagem...
Marisa falava isso enquanto se aproximava de mim, envolvendo minha cintura, e eu a encarava com desejo, até mergulhar meus lábios nos seus num beijo descrito no meu romance: excitante e apaixonado.
- Então vamos fazer a vida imitar a arte...
Marisa me jogou na cama, e facilmente me despiu, sugou meus seios com volúpia, enquanto descia suas mãos entre minhas coxas, meu corpo arrepiava e ansiava para ter Marisa dentro de mim. Meu sexo encharcado anunciava o meu desejo, até Marisa enfim brincar com seus dedos por cima do meu clitóris instigando meu pedido:
- Quero você dentro de mim Mah...
Marisa não tardou em me atender, penetrou dois dedos enquanto outro dedo continuava a massagear meu clitóris, descia sua língua quente pelo meu pescoço, orelha, para meu delírio. As estocadas de Marisa no meu sexo tinham um ritmo alucinante, quando eu achava que não havia possibilidade de prazer maior, Marisa impôs o peso de seu corpo sobre seus dedos dentro de mim, intensificando os movimentos e meus gemidos. O gozo se derramou entre os dedos de Marisa, que esboçava um sorriso de satisfação.
Abracei Marisa que estava ofegante, nossos corações batendo rápido deram lugar a uma troca de carícias que poderia ser inocente se não fosse na pele quente de Marisa que se eriçava quando o dorso de minha mão deslizava por seus braços. Seguindo o que eu entendia do corpo dela, despi-a com calma, mesmo me enrolando com os botões da sua blusa, deixei-a nua na minha cama e continuei com o percurso de minhas mãos sobre a pele de Marisa que mexia seu corpo tomado de prazer.
Senti a umidade de seu sexo e isso me excitou ainda mais, penetrei meus dedos que deslizaram naquele líquido dando-me toda liberdade para movimentá-los de acordo com as reações do corpo de Marisa, e sentir seu gozo provocou novo orgasmo em mim.
Não lembro ao certo quando dormimos, mas acordei da melhor forma que poderia acordar: com as mãos de Marisa pelo meu corpo, apertando-o contra o seu acendendo meu desejo que se confundia com meus sonhos. Sem que eu percebesse, Marisa já estava com sua perna encaixada entre minhas coxas, me acordando definitivamente.
Tomamos banho juntas, trocando carinhos sensuais e sorrisos maliciosos, na cozinha o café-da-manhã virou farra, aliás, mais que isso, se tornou uma vingança, minha cozinha se tornou uma praça de guerra de farinha, em pouco tempo, as panquecas saíram, mas nós estávamos precisando de outro banho... E minha cozinha... Bem, ficou bem a altura do que eu fiz na dela.
Apesar de passar o dia afastadas, cada uma em seu trabalho, nos mantivemos “juntas”, trocando mensagens de texto, telefonemas em um clima de romance incontestável. Tudo me parecia mais leve, até o trabalho fluiu mais tranquilamente, estava me apaixonando por Marisa, isso era um fato.
Não me esqueci do que Marisa me sugeriu sobre publicar meu romance na internet, testando a aceitação da minha estória, minha dúvida, era se eu queria ficar conhecida como escritora de contos lésbicos. Mas como na internet você pode ser qualquer personagem, usar o subterfúgio de um pseudonome, ou como se fala no Orkut, um fake cairia como uma luva.
A nova edição do jornal já tinha pauta pronta e encaminhada, e a sequência de reportagens sobre saúde continuaria nesse número. Artur, nosso fotógrafo, surgiu com a idéia de uma iniciar uma investigação sobre a extração de madeira na região, já que era conhecida pela sua riqueza natural e pelo grande número de empresas madeireiras. Pedi que me apresentasse algo que fosse notícia, e adverti acerca de sua segurança e que esta reportagem não poderia interferir nas pautas semanais.
Minha ansiedade em rever Marisa só aumentava, e pra minha frustração, a noite não poderia vê-la, já que ela me avisar sobre seu plantão na urgência do hospital. Voltei para casa e mergulhei mais uma vez na vida dos meus personagens, e criei o tal perfil fake no Orkut, e sem muita expectativa, publiquei o primeiro capítulo do romance em uma comunidade especializada em contos. Confesso que temia rejeição, e aquela comunidade serviria de termômetro para publicação no site que me apresentou esse tipo de literatura.
E assim o fiz, antes de dormir, não podia deixar de contar a novidade a Marisa, que mesmo ocupada, atendeu minha ligação, vibrando com a novidade, aquele incentivo me enchia de confiança e otimismo, o suficiente para eu continuar escrevendo, até o sono me vencer.
Antes de sair para o trabalho, precisava conferir se meu conto havia conquistado alguma leitora no primeiro capítulo, e para minha surpresa, haviam duas páginas de comentários das leitoras ansiosas pela continuidade da estória, aquela motivação foi mais que fundamental para nutrir minha inspiração.
Contive toda minha necessidade de compartilhar isso com Marisa, imaginando que depois do plantão ela precisava dormir e não ser interrompida, no fim do dia daria um jeito de encontrá-la. Nenhum telefonema ou mensagem o dia todo, isso me angustiava de uma forma esquisita. No fim da tarde, resolvi ligar, o celular só caía em caixa postal, pensei que não haveria mal em ir pessoalmente em sua casa, e assim o fiz.
Parei numa delicatess e comprei guloseimas para um chá na varanda da aconchegante casa de Marisa, ao chegar enfim, estacionei com cuidado, e bati à porta com a cesta de itens nas mãos e um sorriso exuberante aguardando que ela abrisse a porta. Para minha total decepção, a morena fatal abriu a porta.
- Pois não?
Aquilo me parecia um pesadelo, aquelas situações que você deseja que o chão se abra de vez lhe tirando daquele constrangimento imediatamente. Não consegui falar uma só palavra, e a morena deduziu:
- Você veio fazer alguma entrega? Marisa você pediu alguma coisa? – A morena gritou para dentro da casa.
Eu fiz menção de dar meia volta quando a morena me chamou:
- Ei mocinha... Não vai entregar?
Ela puxou a cesta e perguntou:
- Tenho que assinar algo? Já está pago?
Sentia que algum ser sobrenatural prendeu minha voz em algum feitiço, não conseguia falar, até Marisa se aproximar da porta:
- Alex? O que você está fazendo aqui?
Continuei sem falar nada, enquanto a morena perguntou:
- Você a conhece?
- Claro! É a Alexandra, editora-chefe do jornal da cidade, te falei dela.
A intimidade delas me machucava, e me doeu ainda mais como Marisa se referiu a mim. Isso me desnorteou, joguei a cesta no chão, e saí correndo em direção ao carro sendo seguida por Marisa que gritava:
- Alex! Aonde você vai? Espera!
Não parei, andei rápido com aquela cesta na mão me sentindo a mais idiota das criaturas, deduzindo o motivo pelo qual Marisa não me ligou nem me procurou o dia todo. Nervosa como estava demorou para minhas mãos furadas atuarem, e permitir que a cesta com as guloseimas se espatifassem pelo terraço da casa.
- Alex, espera aí!
Agachei-me para recolher as coisas, e só então Marisa me alcançou e me ajudou a recolher o que estava espalhado pela terra.
- Quanta coisa! Tudo pra mim?
Marisa disse um pouco constrangida enquanto eu lutava para minhas lagrimas de raiva e decepção não entregarem meu estado apaixonado.
- Era tudo pra você sim, faça bom proveito junto com a morena fatal!
Levantei-me indignada, jogando o que estava em minhas mãos dentro da cesta, e correndo em direção ao carro ignorando o chamado de Marisa. Dirigi pela estrada amargando um sentimento estranho de traição. Ignorei também as chamadas de Marisa no meu celular, e m refugiei na casa do Dan que obviamente se surpreendeu com minha visita repentina.
- Sardenta! Aconteceu alguma coisa?
Entrei na casa de Daniel sem conseguir expressar o que estava sentindo, sensível como ele era segurou-me pela mão, me conduziu até a cozinha, puxou a cadeira para que eu sentasse e disse:
- Estou preparando um café, tome comigo e vamos conversar, acho que você está precisando.
Aceitei o convite e desabafei com meu amigo o que se passava na minha cabeça e no meu coração. Dan ouviu tudo atentamente, deixou que eu falasse sem me interromper. Em seguida me perguntou:
- Você está apaixonada por ela Alex?
Eu sinceramente não sabia o que responder, e foi isso que o confessei ao Dan:
- Não sei Dandan, mas o que tenho sentido esses dias com ela é muito intenso, diferente de tudo que já vivi.
- Você já disse isso a ela?
- Não né Dan! Não há necessidade disso, não quero ficar nas mãos dela, você mesmo falou que ela não se prende a ninguém e ainda tem essa morena fatal...
- Então acho bom você ir com calma tendo cuidado com seus próprios sentimentos, deixe que ela dê os passos nesse relacionamento deixando claro o que ela quer com você, até lá, se preserve, não vá atrás dela, deixe que ela te procure, se imponha...
- E se ela achar que eu perdi o interesse nela?
- Minha querida, é bom que ela pense isso... Assim vai se perguntar onde foi que ela errou...
Mais calma, voltei para casa com o celular desligado, não queria falar com Marisa, e imbuída desse sentimento escrevi mais alguns capítulos do meu romance e dormi experimentando a decepção de esperar em vão que Marisa me procurasse naquela noite.
Os dias se passaram e Marisa não me procurou, e como isso me doeu. Daniel e Diego me ajudaram muito a me controlar e não procurá-la também, até que o próprio Diego, trouxe-me notícias acerca do sumiço dela o que talvez justificasse o porquê de não ter me procurado. Marisa havia viajado a trabalho no mesmo dia que encontrei a tal morena em sua casa.
Os dias de exílio sem notícias de Marisa foram uma tortura, a fertilidade de minha imaginação agora estava contra mim, especulando e fantasiando sobre o destino dela, o intuito e com quem ela estaria. Durante esses dias, mal consegui escrever, apesar de animada com a aceitação do público que se mostrava completamente envolvido na estória, dando ao romance o caráter de web novela na medida em que diariamente novos trechos eram publicados.
A nova edição do jornal foi lançada, outro sucesso. Meus pais finalmente deram notícias, estavam voltando ao Brasil em breve. Minhas amigas me cobravam uma visita no fim de semana à capital. Daniel e meus novos amigos ocupavam meu tempo livre com programas divertidos e mesmo assim eu não conseguia desvencilhar meu pensamento de Marisa.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Aconteceu Você : Sétimo capítulo

Capítulo 7: Que mulher é essa?


Marisa saiu da sala antes que eu pudesse me desculpar ou relutar qualquer coisa. Percebi o quão mal educada e desagradável eu estava sendo, ao voltar para o ambulatório, não encontrei Marisa me esperando, outro médico me informou que os exames não revelaram qualquer fratura, orientou que eu mantivesse repouso, prescreveu um analgésico e me liberou.

-- Então vamos sardenta! Hoje nós dormimos com você, vamos cuidar dessa paciente. – Disse Daniel.

-- Não é necessário Dan...

-- Claro que é! Você vai ficar sob nossa observação. – Afirmou Diego.

Ainda frustrada por não rever Marisa, saí do ambulatório procurando entre as pessoas transitando no hospital, a médica que me atendeu, em vão, Marisa parecia ter evaporado dali. Beto e Luisa nos acompanharam até minha casa, o Leandro já estava nos esperando, sempre divertido, preparou um cartaz de boas vindas todo enfeitado com a foto de um cavalo e o colou na porta do meu quarto.

Meus novos amigos foram super atenciosos e fofos comigo, Leandro preparou o jantar e comemos todos juntos no meu quarto. Diego e Dan ficaram para dormir comigo depois que os outros foram embora, demorei a pegar no sono lembrando o meu reencontro com Marisa, não só pelo meu comportamento infantil, mas também por que a imagem dela linda, cuidando de mim, a lembrança do seu cheiro, da sua voz, tiravam minha paz de uma maneira inexplicável e inédita para mim.

A noite foi longa, meu corpo doía sofrendo os efeitos da queda acordei com o café na cama trazido por Diego, e com um convite do Dan:

-- Está se sentindo bem?

-- Sim meu amigo, estou bem, vocês dois são enfermeiros maravilhosos!

-- Então ótimo, vamos sair um pouco e aproveitar o sol que abriu hoje. – Convidou Dan

-- Mas vamos pra onde Dandan?

-- A minha sala está promovendo um churrasco no clube da cidade, para arrecadar uma graninha para nossa festa de formatura, vai ter uma banda de pop rock, outra de pagode, enfim, vai ser legal. – Esclareceu Diego.

Não havia como recusar o convite do meu casal de amigos. Pouco antes do almoço, saímos com destino ao clube da cidade.

O clube estava lotado, a banda de pagode já animava os convidados. Diego muito popular me apresentou a vários colegas, a maioria não era de Nova Esperança, a cidade universitária, atraía gente de todos os estados. Estava tudo muito tranqüilo para mim, apesar de ainda experimentar dores no meu corpo conseqüentes da queda no dia anterior. Para sacudir minha auto-estima, ouvi boas cantadas dos acadêmicos de medicina, entretanto, eu sequer dei importância, eles inexplicavelmente não despertavam meu interesse.

Duas horas depois de chegar à festa, fui até o banheiro, cheio de acadêmicas de medicina retocando a maquiagem, algumas já bem animadas pelo álcool, trocavam suas impressões sobre a festa e os meninos de lá. O chão escorregadio contribuía para esbarrões na saída dos boxes, em um desses incidentes a porta do box veio direto na minha cara e junto com ela uma mulher tropeçando caindo nos meus braços.

Nem pude acreditar quem estava ali mais uma vez face a face comigo, os mesmos olhos hipnotizantes, o perfume cítrico: Marisa.

-- Quem é mesmo que tem um ímã para mim?

Eu disse arrancando um sorriso tímido de Marisa. Os segundos de troca de olhares foram interrompidos por uma garota indagando:

-- Dra. Marisa desculpe-me escorreguei e empurrei a porta, machuquei a senhora?

-- Não machucou não graças a cobertura da imprensa...

Sorri com a brincadeira de Marisa, enquanto observava o olhar cheio de volúpia da tal garota para Marisa. Não sei por que aquele olhar da garota me incomodou, a tal ponto que dessa vez fui eu a interromper:

-- … melhor você ter mais cuidado, poderia ter causado um acidente desagradável.

-- Claro, mais uma vez, desculpe-me professora.

A garota saiu do banheiro deixando a sós eu e Marisa:

-- Então doutora, será que nossos papéis estão se invertendo e agora sou eu a lhe salvar de quedas?

-- Se você não estiver montando um cavalo...

Fiz careta para ela o que despertou um sorriso descontraído, deixando-a ainda mais linda.

-- Então, como você está se sentindo? Alguma dor?

-- Sinto dor no corpo, especialmente nas costas, mas nada insuportável.

-- Então você foi bem tratada suponho.

-- … os médicos de Nova Esperança parecem ser competentes...

Marisa sorriu balançando a cabeça positivamente, mais meninas foram entrando no banheiro quebrando aquele clima, disfarcei indo até a pia lavando minhas mãos sob o olhar atento da médica.

Pelo espelho continuei fitando o olhar de Marisa, notando a popularidade dela entre as meninas que entravam no banheiro, algumas a cumprimentavam até com um grau de intimidade maior, mas todas demonstravam respeito com ela.

-- Eu sei que você gosta dos banheiros de Nova Esperança, mas você ainda vai passar muito tempo por aqui? – perguntou Marisa.

-- Se a medicina não der certo, definitivamente você deveria tentar a carreira de humorista.

-- Você nem imagina quantos talentos uma boa médica tem que ter...

Fui me afastando em direção à porta de saída, enquanto Marisa me seguia:

-- Vou voltar para festa, meus amigos devem estar preocupados, achando que caí de novo.

-- Posso acompanhar você? Cuidados médicos... Só uma precaução, no caso de algum cavalo ou amontoado de ração aparecer pelo caminho...

-- Tudo bem doutora, só por isso...

Saímos do banheiro e caminhamos pelo clube, meio tímidas, pelo percurso Marisa parou diversas vezes para cumprimentar alunos, até encontrarmos Diego e Dan:

-- Dra. Marisa! Sabia que a madrinha de nossa turma ia aparecer! – Exclamou Diego.

-- Claro Diego faz parte das minhas obrigações.

-- Viu que cuidamos direitinho da Alex? Do jeito que a senhora pediu! – Diego disse inocente.

Estranhei a colocação do Diego, especialmente quando notei o Dan apertando a mão do namorado enquanto Marisa arregalava os olhos. Fingi nada ter percebido, deixando que eles se confiassem na minha famosa distração.

-- Então doutora há algum problema se eu beber uma cervejinha? – Perguntei.

-- Claro que não Alexandra. Mas não exagere...

-- Então eu vou pegar pra você sardenta! Vamos Diego. – Disse Dan.

Fiquei na companhia de Marisa, enquanto o casal se afastava, e o assédio das alunas dela me incomodava de uma maneira insana. Minha cara de poucos amigos foi notada pela própria Marisa:

-- Aconteceu alguma coisa Alexandra?

-- Não, por quê?

-- Esse bico aí... Roubaram seu doce?

Não sabia sequer o que responder a Marisa, ainda bem que Diego e Daniel apareceram de volta com as cervejas me salvando daquela saia justa. Manter-me perto de Marisa o resto do dia foi difícil, ela era requisitada constantemente nas rodinhas dos alunos, até mesmo para dançar com alguns deles. Meu humor ficou tão alterado que no meio da tarde pedi ao Dan que me deixasse em casa.

-- Mas sardenta, por quê?

-- Estou com dor no corpo Dan, quero descansar.

-- Tudo bem então... Vou avisar ao Diego que estou indo te deixar, vai pro carro e me espera lá.

Sai do clube em direção ao estacionamento, buscando no olhar a localização de Marisa, para minha tristeza não a encontrei. Encostei-me no carro do Dan aguardando-o, quando o meu celular tocou, era a Renatinha. Fofocamos por um tempo colocando os assuntos em dia, naturalmente não deixei de contar minha aventura eqüina, distraí-me no papo e nem notei o tempo passar, nem muito menos estranhei a demora do Daniel, ao desligar o telefone ouvi a voz tão familiar nos últimos dias:

-- Fugindo moça?

Era Marisa, me surpreendendo ao meu lado, com um sorriso diferente, igualmente lindo, mas seu olhar tinha um brilho incomum, ao notar a aproximação dela percebi o forte hálito de álcool, logo deduzi que a respeitada médica já tinha bebido demais.

-- Não estou fugindo não doutora, estou indo para casa descansar, esse churrasco está me deixando exausta.

-- Mas a festa está apenas começando Alexandra...

O brilho do olhar de Marisa tinha um quê de malícia, me dando a certeza que a abordagem dela era um flerte descarado o que provocou em mim reações confusas de medo e satisfação.

-- Para você está mesmo animada a festa... Mas para mim, não estou vendo nada muito interessante.

-- Jura que não está vendo nada interessante?

Inesperadamente, Marisa colocou-se de frente para mim, encostando suas mãos no carro, envolvendo-me entre seus braços. Nervosa com a proximidade do corpo de Marisa, eu gaguejei para responder:

-- Eu... Eu quis dizer que... Que... Não estou me divertindo tanto quanto você.

Marisa não se intimidou com meu sarcasmo atrapalhado, manteve-se perto de mim deixando-me com a respiração ofegante e o coração acelerado. Minhas pernas tremiam, e não conseguia desviar meu olhar do dela.

-- Acho que podemos deixar as coisas mais justas e você se divertir um pouco mais, você está precisando... Vem comigo?

Ela fez um movimento com a cabeça e puxou minha mão gelada:

-- Eu não posso, o Dan vai ficar preocupado, ele vai me deixar em casa.

-- Não se preocupe, já avisei ao Daniel que eu te levaria em casa.

Não contestei em segui-la, exceto quando notei Marisa cambalear ao andar:

-- Tenho uma exigência doutora...

-- Estava demorando... Pois não donzela!

-- As chaves do carro! Eu dirijo você não está em condições de dirigir.

-- Mas você não sabe o caminho!

-- O caminho você pode ensinar...

-- Adoro ensinar...

A malícia na voz suave de Marisa, agora tinha um teor absurdamente sensual que me arrepiava inteira. Entramos no carro, trocando olhares, o meu tímido, o de Marisa era quase indecente.

-- Siga a estrada principal, na primeira bifurcação dobre a esquerda. – orientou Marisa.

Apenas balancei a cabeça positivamente e segui a orientação de Marisa que me olhava fixamente, me deixando mais nervosa:

-- O que foi Marisa?

-- O que foi o que?

-- Está me olhando assim... Está com medo de que eu bata seu carro?

-- A minha menor preocupação nesse momento é com meu carro...

Nesse momento, Marisa tinha um sorriso arrebatador, com muito sacrifício mantive minha concentração no volante, mas quando ela roçou o dorso de sua mão macia no meu braço, senti meu corpo estremecer. Ruborizei, respirei fundo, que espécie de energia tinha aquela mulher que deixava minha sensibilidade tão evidente?

-- Está tudo bem Alexandra?

-- Han?

-- Perguntei se está tudo bem... Você parece nervosa...

-- … que... Sou fraca...

Marisa sorriu discretamente, como se saboreasse uma pequena vitória e avisou:

-- Dobre aí à esquerda e siga pela trilha da estrada de terra.

Dirigi por alguns minutos pela estrada de terra, até encontrar um portão de madeira.

-- Pare aqui, esta é minha casa.

Marisa desceu do carro e abriu o portão. Entrei com o carro avistando uma casa de campo requintada, com um alpendre espaçoso, à frente um jardim muito bem cuidado, e toda propriedade era cercada de árvores frondosas. Desci do carro encantada com a paisagem, ainda sem saber o que eu fazia ali.

-- Venha Alexandra, entre na minha humilde residência.

Tímida, coloquei minhas mãos nos bolsos de frente da calça e segui Marisa até o interior de sua casa. Contemplei a decoração rústica, mas elegante. Marisa convidou-me a sentar no sofá espaçoso e confortável e sentou-se ao meu lado.

Notei Marisa se aproximar de mim, e fiquei apavorada. Quando ela passou a mão pelo meu cabelo e deixou sua boca quase colada na minha, inventei de sentir sede... Se bem que minha boca estava mesmo seca, sedenta de algo que nunca desejei tanto: os lábios de uma mulher.

-- Quero água! Você pode me dar água?

Meio frustrada Marisa se afastou e respondeu:

-- Claro.


Marisa levantou, e eu a segui até a cozinha, bebi o copo d’água com uma voracidade desconcertante. A dona da casa não só me observava, ela me devorava com os olhos. Não tardou mais concretizar o desejo evidente. Marisa se aproximou de mim, pressionando-me contra o balcão da cozinha, acariciou meus cabelos, e tomou minha boca com sofreguidão, me deixando sem forças, sem qualquer defesa no beijo mais excitante que experimentei em toda minha vida.

Seus lábios eram os mais quentes que me beijaram até aquele dia. Um beijo perfeito, na intensidade, na velocidade... Nem muito molhado, nem seco, sua língua parecia massagear minha libido tamanha era a excitação despertada naquele momento.

Nossos lábios se afastaram lentamente, minhas pernas tremiam, e minhas mãos suavam, a respiração quente de Marisa na minha pele provocava em mim uma sensação indescritível de ansiedade misturada a um desejo incontrolável de me jogar nos braços dela e me perder outra vez na sua boca. E como se entendesse o que meu corpo clamava, Marisa segurou minha nuca puxando minha boca para perto da sua, beijando-me com volúpia.

O beijo não deixava espaço para qualquer reflexão, palavras, me entreguei como se fosse o último momento da minha vida. Marisa me conduziu pela casa sem cessar o beijo, me jogou no sofá, e sua língua roçou pelo meu pescoço, colo, despertando meu gemido. Minhas mãos pareciam cumprir a obrigação de explorar aquele corpo tão quente e delicioso. A maciez da pele de uma mulher para mim nunca me inspirou sensualidade, mas os movimentos de Marisa sobre mim roçando nossas peles era o momento mais prazeroso na minha vida até então.

As mãos de Marisa por baixo da minha roupa eriçavam cada pedaço do meu corpo, e nossos beijos eram cada vez mais intensos, e eu não podia acreditar que estava nos braços de uma mulher me derretendo de tesão.


Mas meu famoso talento para confusão deu seu ar de sua graça finalmente... O zíper da minha calça ficou preso no cinto da Marisa, e tentando me desvencilhar, acabei provocando nossa queda no chão.

-- …... Estava demorando... Nós duas juntas e nenhuma queda... – Disse Marisa esfregando a mão na cintura.

Sorri escondendo meu rosto entre minhas mãos:

-- Desculpa Marisa, eu sou muito desastrada mesmo...

Marisa abriu aquele sorriso que me desestruturava... Aproximou-se mais uma vez de meus lábios, beijando-me suavemente:

-- Onde foi mesmo que paramos?

A voz de Marisa bem perto do meu ouvido era suficiente para acender meu desejo, quando estava me entregando em outro beijo, senti minha perna tremer sem parar:

-- Alexandra... Está vibrando...

-- Está sim... Está tudo vibrando mesmo...

-- Alexandra estou falando do seu celular no bolso, está vibrando...

-- Ah!

Sorri sem jeito, pegando meu celular no bolso, era Daniel, tinha que atender.

-- Oi Dan.

-- Alex, onde você está?

-- …... Estou... Estou...

-- Você está com a Marisa?

-- Sim...

-- Amiga preciso dela, o Diego bebeu demais, passou mal, mas não posso levá-lo para o hospital, o pai dele está de plantão hoje.

-- Onde vocês estão?

-- Na minha casa, venham logo!

-- Estamos indo.

Expliquei a situação a Marisa, que se apressou em pegar sua maleta, e seguimos para a casa do Dan, a fim de atender seu namorado. No percurso não trocamos nenhuma palavra, mas meu corpo ainda queimava de desejo olhando para Marisa concentrada mexendo nos itens da sua maleta de médica.

Chegamos à casa do Dan, Diego estava desmaiado, depois de examiná-lo constatou que não era nada grave, Marisa administrou uma ampola de glicose, em minutos Diego já dava sinais de consciência, nos tranqüilizando.

Deixamos a casa do Dan, eu um pouco constrangida, pelo olhar do meu amigo para nós duas. Marisa me deixou em casa, e na porta me senti como uma adolescente que saía com um carinha pela primeira vez, em dúvida sobre como me despedir dela, na verdade, queria mesmo era convidá-la para entrar, e naquele silêncio dentro do carro, falamos ao mesmo tempo:

-- Boa noite.

Fiz menção de sair do carro, mas, minha vontade de beijá-la foi mais forte. Quando me aproximei dela, senti sua mão nos meus lábios:

-- Não faça isso...

Estranhei e não nego, me irritei com o gesto dela, deduzindo que ela poderia estar arrependida pelo que aconteceu mais cedo entre nós. Não esperei justificativas, desci do carro furiosa, batendo forte a porta, deixando Marisa com cara de interrogação.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Aconteceu Você : Sexto capítulo

CAPÍTULO 6: FESTA NO INTERIOR


A cidade estava linda. Decoração interiorana típica, palanque enfeitado na praça principal, povo alegre, bem vestido, a bandinha de música já animava o público, e perto da igreja várias barracas com comida regional foram armadas. Um parque de diversões também estava pronto atraindo centenas de crianças. O clima agradável da cidade contribuiu para o aspecto festivo e o humor de todos ali.

Daniel já estava na praça com alguns funcionários da secretaria de cultura quando cheguei. A Berta fez questão de me elogiar, o que claro levantou minha auto-estima, especialmente porque enfim as minhas calças 38 entraram no meu corpinho depois de meses de tentativas. Depois de alguns minutos de espera, a solenidade foi iniciada no final da manhã com a chegada do prefeito, discursos de autoridades até finalmente o Dan fazer seu pronunciamento, enfatizando o lançamento da Folha de Nova Esperança, nesse momento funcionários da secretaria de cultura além de mim e minha enorme equipe nos espalhamos entre a pequena multidão distribuindo os exemplares.

Não posso negar que me esforcei para ficar perto das pessoas que folheavam o jornal ansiosa pela reação delas. Insegura, não esquecia as palavras da minha ex-chefe ao me demitir, quando afirmou que eu não tinha vocação pro jornalismo. Meu editorial foi lido pelo Daniel no palco, o que me deixou particularmente nervosa, entretanto meu alívio se deu quando os aplausos tomaram de conta da praça.

Minha carreira como editora-chefe estava oficialmente lançada, a sensação de otimismo que me preencheu se tornou visível para minha equipe e especialmente para meu amigo Daniel que me abraçou, demonstrando todo seu orgulho. Diversas atrações da região se apresentaram no palco armado, enquanto as pessoas caminhavam pelas ruas em festa. Daniel me apresentou ao prefeito, a vereadores, todos me parabenizando pela qualidade do jornal.

-- Pronto amiga, agora começa nosso trabalho de fato! Correr atrás de notícias, e próxima semana lançar outro número, quero cobertura completa da festa heim! -- Disse Daniel animado.

-- Pode deixar amigo, minha equipe já está por aí trabalhando.

-- Vamos almoçar na casa do prefeito, depois encontramos o Diego e o resto da turma no Aconchego, para nossa festa de verdade.

-- Aconchego?

-- Sim, é um hotel fazenda, perto da serra, você vai gostar de lá.

E assim aconteceu, para cumprir o protocolo, almoçamos na casa do prefeito da cidade, homem muito simples, assim como sua família, extremamente popular, mas muito culto, nossa conversa sobre grandes escritores foi bastante agradável, especialmente por que o Sr. Joaquim Lopes não poupou elogios para o editorial que escrevi. Depois do almoço seguimos para a serra, para o tal hotel fazenda Aconchego, onde a turma de amigos do Dan estava reunida numa comemoração mais íntima.

O clima serrano do hotel fazenda era maravilhoso, perto de um lago, uma palhoça com uma grande área para churrasco abrigava a turma animada do Dan, todos que estavam na noite que os conheci, e mais alguns rostos conhecidos da secretaria de cultura, inclusive parte da minha equipe do jornal.

O Beto já estava com o violão na mão, tocando seu repertório de muito bom gosto, Leandro fez aquela festa ao me rever, parecia um amigo de longa data, e logo tratou de me deixar à vontade entre os que já estavam lá enquanto Daniel ia ao encontro de Diego que estava numa cachoeira perto dali.

Há muito tempo não me sentia tão leve, dei boas risadas com meus mais novos amigos, já nem me chocava mais com os selinhos trocados entre Clara e Isabelle. No final da tarde, o filho do dono do hotel, namorado do Beto, chegou oferecendo um passeio a cavalo pelos campos da fazenda. Não sei de onde me veio à inspiração de aceitar o convite, afinal há mais de 15 anos não montava. Talvez tenha sido o excesso de otimismo que aquele dia estava me proporcionando.



Eis que meu contato com o campo foi iniciado, montei no cavalo, e segui com Beto, Leandro, Tarcísio o namorado do Beto e a Luísa. Tudo estava muito tranqüilo, até que, excessivamente confiante com meu bom desempenho na montaria, acelerei o galope, e como era de se esperar dada minha destreza sempre “impecável”, perdi as rédeas do animal, quando enfim as tive de volta, puxei o arreio com força e fui lançada por cima do cavalo, caindo por cima de um amontoado de ração.

A última imagem que tenho lembrança foi à vista de cima enquanto eu era lançada pelo ar. Ao cair e bater a cabeça desmaiei imediatamente. Segundo o relato das testemunhas a queda teria sido cômica se não fosse à apreensão que todos sentiram ao me verem cair inconsciente. Chamaram Diego a fim de que ele como acadêmico de medicina, desse as orientações corretas diante do meu estado. Em pouco tempo, Daniel conseguiu que uma ambulância me removesse dali, a essa altura eu já esboçava alguma consciência, percebia que eu estava sendo conduzida numa maca para um veículo, mas não conseguia abrir os olhos, e mesmo ao conseguir, não via as coisas com nitidez.

Não sei exatamente em que momento, nem quanto tempo depois, mas minha consciência retornou aos poucos, e a primeira imagem embaçada que identifiquei diante de mim foi a do rosto de Marisa bem próximo do meu, sua voz que tanto mexeu comigo tinha um som incompreensível, deduzi que pudesse ser algum delírio meu, ou alucinação sei lá... O fato é que fui apertando os olhos e gradualmente minha visão ficava mais nítida, e tive a certeza, não era delírio, Marisa estava ali na minha frente.


Vestida num jaleco justo, cabelos presos, Marisa me perguntava:

-- Alexandra? Você está me ouvindo?

A voz parecia tão longe, e responder era difícil, mas Marisa insistiu:

-- Alexandra, você está no hospital, sofreu uma queda, se você estiver me entendendo, aperte minha mão.

Segui a orientação de Marisa mesmo não entendendo o porquê de ela estar ali, após apertar a mão dela, escutei alguns burburinhos de comemoração, e aos poucos eu começava a voltar a minha consciência, abri os olhos e vi claramente em volta de mim o Dan, Diego, Beto, Leandro e Luiza, além de Marisa ao meu lado.

-- Consegue falar Alexandra? – Perguntou Marisa.

-- Sim.

Notei o suspiro aliviado de todos na sala quando falei.

-- Vou fazer algumas perguntas a você. Qual o seu nome completo? – Perguntou Marisa.

-- Alexandra Alcântara Torres.

-- Que dia é hoje?

-- Não faço a menor idéia... Sei que hoje é sábado, e estamos no mês de maio, mas o dia não lembro.

-- Onde você mora?

-- Em Nova Esperança, interior do estado.

-- Você sabe quem é o presidente do Brasil?

-- Deeer, claro né, sou uma jornalista, não ia saber disso? Luiz Inácio Lula da Silva. O interrogatório terminou? O que mais você quer saber de mim Marisa?

Notei o espanto de todos quando me dirigi a Marisa pelo nome dela.

-- Calma Alexandra, essas perguntas fazem parte do exame neurológico, você sofreu um trauma na cabeça, esses testes são protocolo.

-- E quem é você pra fazer esses testes comigo?

-- Sua médica Alexandra, estou de plantão hoje aqui na urgência.

Que idiota eu sou! Claro que ela era médica! Chefe do departamento de ciências da saúde era isso que estava escrito na placa na porta da sala dela na universidade. Completamente constrangida pela minha estupidez, não consegui me desculpar, notei um sorriso de canto de boca em Marisa, e fui salva daquele momento mico pelo Dan que se aproximou de mim falando:

-- Sardenta você me mata do coração assim! O que deu em você pra sair galopando daquele jeito?

-- Dandan aquele cavalo era maluco! Tudo bem que me empolguei, e perdi as rédeas também... Mas que ele era maluco, isso ele era!


Todos riram do meu jeito desajeitado de me justificar, inclusive Marisa, e foi ela mesma que falou em seguida:

-- Bom você aparentemente está bem, mas para nos assegurarmos vamos fazer uma tomografia cerebral, e um raio x do seu tórax.


-- … preciso mesmo doutora? – Perguntou o Beto.

-- Sim é.

-- Não vai doer nada Alex, tira essa cara de espanto! – Diego disse apertando minha mão.

Diego e Dan ajudaram a me transferir para a maca, e Marisa fez questão dela mesma me levar até o setor de imagens do hospital. Meu comportamento beirava o ridículo, deitada olhava para cima observando Marisa empurrando aquela maca, e ao notar que ela desviava o olhar para mim eu fechava os olhos rapidamente, como se fingisse dormir.

Chegando enfim para fazer os tais exames, Marisa me deixou sozinha, o que claro me assustou, obrigando-me a falar:

-- Você vai me deixar sozinha aqui?

-- Ué, pensei que você estivesse dormindo. – Marisa falou sorrindo.

Fingi ignorar o comentário irônico de Marisa e insisti:

-- Você vai me deixar mesmo sozinha nessa sala branca e fria?

-- Nossa que dramática! Tem certeza que você é jornalista? Tem talento para atriz... Já para amazona...

-- E você tem certeza que é médica? Tem talento para humorista!

-- Eu que não vou ficar aqui nessa sala com uma criatura tão mal-humorada assim!

Marisa saiu da sala me deixando irritada. Entrei naquele tubo que era o tal tomógrafo, ansiosa, ouvi a voz de Marisa me pedindo:


-- Não se mova Alexandra, não vai demorar muito.

Em outro momento eu pensaria que era mais uma alucinação ou delírio meu, mas se assim o fosse, não era bem isso que eu ouviria... Os minutos ali naquela posição pareceram uma eternidade, até enfim a plataforma se mover e eu reencontrar Marisa do meu lado:

-- Você teve muita sorte, eu não estava lá para lhe salvar dessa queda, mas os sacos de ração protegeram essa cabeça dura que você tem, não há lesão no seu cérebro.

Mantive meu bico qual menina mimada fazendo birra. Recusei ajuda dela para me levantar, tonta acabei caindo mais uma vez nos braços de Marisa, por alguns segundos nossos olhos se encontraram, parecia que uma força me atraía para os lábios daquela mulher ainda mais linda tão de perto.

-- Estava me perguntando quanto tempo mais ia demorar até você cair nos meus braços de novo.

Nosso momento de intimidade foi interrompido pelo técnico de radiologia que já me aguardava no setor de raios-X, já trazia uma cadeira de rodas, não era mais necessária a maca. Marisa continuou me conduzindo, e pra contribuir para meu momento constrangimento total, fui obrigada a tirar a parte de cima da minha roupa para realizar o exame, na frente de Marisa.

-- Não precisa ficar tímida Alexandra, não há nada aí que eu não tenha visto antes.

-- Hã! Como assim?

-- Alexandra eu precisei examinar você, esqueceu?

-- Então você se aproveitou de mim enquanto eu estava inconsciente para tirar minha roupa?

-- Alexandra assim você me ofende! Sou médica! Vou chamar um colega para atender você. Célio quero um raio X de tórax posterior, anterior e de perfil, por favor, leve-a ao ambulatório depois que concluir o exame, o Dr. Marcos a atenderá.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Aconteceu Você : Quinto capítulo

CAPÍTULO 5: EU, EDITORA


Meu fim de semana foi inteiro curtindo minha nova casa, além de deixar as coisas mais parecidas comigo, do meu jeito. A Berta muito gentil, mas, muito bisbilhoteira, apareceu por lá com a típica política de boa vizinhança, trazendo uma torta feita por ela mesma, olhou a minha arrumação e deu pitaque em tudo.

Apesar de me manter ocupada, lembrei-me de ligar para meus pais e claro para minhas amigas inseparáveis que ficaram na capital, mas em todo instante minha memória trazia a tona o cheiro, a voz e a imagem de Marisa. Mas que coisa mais estranha, ter uma mulher ocupando meus pensamentos... Acho que a revelação do Dan me afetou mais do que eu pensava, e o ambiente alternativo contribuiu para meu suposto encantamento por Marisa, essa era a única explicação que eu inocentemente me enganava.

Logo na segunda-feira de manhã, minha equipe já me esperava no escritório improvisado dentro da secretaria de cultura. Minha grande equipe era animada, a mesa no centro da sala já estava repleta de guloseimas típicas do interior, e num clima bastante agradável rapidamente traçamos a pauta do que trabalharíamos na nossa primeira edição. Enviei nossa única repórter para fazer um levantamento das personalidades históricas da cidade junto com o Artur nosso fotógrafo, enquanto nosso estagiário, o Marcos, foi às escolas da cidade lançar o concurso de poesias proposto entre os alunos do nível fundamental.

Eu e Luiza fomos à universidade, lançar o desafio para os alunos de jornalismo, enviar uma crônica para nossa redação a fim de publicar na edição especial de estréia, registrando o centenário da cidade.

O campus da universidade era enorme, prédios diferentes para cada área, Nova Esperança tinha a característica de cidade universitária, talvez por isso fosse tão desenvolvida intelectualmente. Seguimos para o departamento de ciências humanas, Luiza já conhecia a maioria dos professores, uma vez que não fazia muito tempo que se formara ali, assim não foi difícil nossa proposta ser logo encaminhada aos últimos semestres dos cursos de jornalismo e comunicação social.

O coordenador do curso de jornalismo para meu constrangimento me reconheceu das revistas de fofoca, e foi colega de faculdade de meu ex-noivo Fernando, talvez por isso, se rendeu em gentilezas, estabanada como sempre fui, acabei derramando café na blusa, saí da sala em direção ao banheiro do andar para tentar minimizar o estrago em minha roupa.

Murphy sempre me perseguiu: fato! Escolhi justamente a pia com defeito, e a torneira liberou um potente jato d’água me banhando, piorando ainda mais a mancha que antes era só de café. Na minha luta corporal com o jato d’ água piorei minha situação, espalhando a água pela calça e pelo rosto, em meio a essa luta, de repente o jato foi cessado, enxuguei meus olhos com as mãos, e quando os abri diante de mim estava ela: Marisa.

Como se fosse possível, ela estava ainda mais linda. Com um sorriso enorme naquele rosto que não saiu da minha mente desde a noite de sexta, Marisa estendeu algumas folhas de papel toalha me dizendo:

-- Parece que estou mesmo conquistando meu papel de super heroína na sua vida... Sempre te livrando de apuros não é?

Peguei as folhas de papel e fui tentando me secar com elas, mas o estrago era grande. Sem graça eu sorri e sem pensar direito disse:

-- E nós precisamos parar de nos encontrar nos banheiros de Nova Esperança.

-- Concordo, quando podemos nos encontrar então?

Arregalei os olhos instintivamente, e quase escorrego na água derramada no chão pelo incidente da torneira, reação que despertou risos de Marisa:

-- Ei Alexandra, calma, foi só uma brincadeira... Não quero sair com você.

-- Não quer?

Minha expressão de decepção deve ter ficado evidente, tanto que Marisa calou-se por segundos sorriu discretamente afirmando:

-- Não. Minha função de super heroína não inclui esse tipo de encontro.

-- Ah... Ainda bem então, por que eu me sentiria obrigada a aceitar em agradecimento, e não quero sair com você também.

-- Então, estamos entendidas.

-- Claro.

Saí pela porta ainda ensopada, e atordoada com o fora que acabara de levar de Marisa, obviamente as pessoas olhavam para mim naquele estado, quando ouvi a voz suave que me marcara chamando meu nome no corredor:

-- Ei moça! Alexandra! Espere um pouco.

Parei irritada:

-- Pois não Marisa!

-- Você vai sair assim que nem um pinto molhado?

-- Acho que não tenho opção não é?

-- Pra que serve uma super heroína como eu se te deixasse assim nesse estado? Venha comigo, vou te emprestar pelo menos uma camiseta.

-- Não obrigada. Não quero mais incomodar você.

Eu estava irritada pela rejeição que meio sem querer recebi de Marisa, estava envergonhada por que supostamente dei a entender que queria me encontrar com ela em outra situação... Queria sumir da frente dela, Marisa me deixava insegura, nervosa, não sabia lidar com essas sensações diante de uma mulher.

-- Não vai me incomodar, vamos, minha sala é aqui no prédio de frente.

A contragosto, a segui, notando o ar de riso do seu rosto, certamente por causa de minha cara emburrada misturada a minha aparência de cachorro na chuva. Entramos no prédio de frente, ali funcionavam os cursos de saúde. No terceiro andar, na sala no fim do corredor, vi na porta: Dra. Marisa Becker – diretora do centro de ciências da saúde.

Seu escritório era elegante, um pequeno armário, uma estante com alguns livros, e na mesa seu notebook e poucos papéis. Um sofá de dois lugares com duas poltronas de couro com uma pequena mesa de centro, na parede clara um quadro com uma pintura de aspecto cubista acenava seu gosto requintado. Abriu o armário, retirou uma bolsa de academia, e me entregou uma camiseta justa de gola pólo.

-- Tome, está limpa e seca, ia usar para jogar tênis ao sair daqui, mas tenho outra guardada. Vista antes que você fique resfriada.

-- Obrigada, mas não quero incomodar, daqui a pouco minha roupa estará seca.

-- Não seja orgulhosa menina! Vista! Ali é um banheiro, pode se trocar lá.

Tímida, peguei a camiseta e fui até o banheiro, e vesti a peça que Marisa me deu, me deliciando o cheiro cítrico que a roupa tinha o cheiro dela... De volta à sala, agradeci a Marisa me comprometendo a devolver o quanto antes a tal camiseta.

-- Não há pressa, é só uma camiseta. Quer tomar alguma coisa? Café, água...

-- Nem café, nem água... Já tive o suficiente dos dois por hoje...

Sentei em uma das poltronas depois do convite de Marisa que me encantava ainda mais com seus gestos delicados.

-- Então, além de conhecer o banheiro da universidade de Nova Esperança, o que mais faz por aqui Alex?

-- Vim lançar uma espécie de concurso de crônicas sobre o centenário da cidade entre os alunos dos cursos de jornalismo e comunicação social para a edição de estréia do jornal de Nova Esperança.

-- Interessante... Você vai trabalhar nesse jornal?

-- Sim, fui convidada pelo secretário de cultura para ser a editora-chefe do jornal.

-- Então você deve ter chegado há pouco tempo na cidade não é?

-- E você é detetive, policial ou jornalista investigativa?
Disse demonstrando indignação.

-- Calma Alex, só estou tentando estabelecer um diálogo, conhecer mais de você.

-- Conhecer mais de mim? Estou me sentindo interrogada desde que entrei aqui.
Marisa balançou a cabeça negativamente e disse:

-- Você reage sempre assim na defensiva?

-- Não estou na defensiva... Mas se é um diálogo, então me fale de você. O que você faz aqui além de salvar donzelas de torneiras inconvenientes no banheiro?

-- Eu trabalho aqui. Estava no prédio de ciências humanas porque lá funciona a rádio do campus, e fui dar uma entrevista em um programa.

-- Interessante... E você é alguma celebridade aqui para conceder entrevistas?

Marisa abriu um sorriso irônico respondendo:

-- Não tão famosa quanto você, mas sou conhecida aqui no campus sim.

Imediatamente percebi a que Marisa se referia, certamente ela conhecia o escândalo que antecedeu minha vinda para Nova Esperança, e isso me irritou profundamente.

-- Deve ser famosa por sua indiscrição! Com licença Marisa, tenho trabalho a fazer.

-- Ei você é esquentadinha heim! Calma...

-- Olha só Marisa, obrigada pela camiseta, pelo salvamento de novo, tenha um bom dia.

Saí da sala de Marisa pisando forte, me enrolando toda na hora de abrir a porta, puxei com tanta força que acabei por me chocar contra ela. Nem deu tempo Marisa se aproximar, saí esfregando minha mão no rosto, certa que a marca da pancada estava evidente na minha testa. Encontrei Luiza na praça do campus de frente ao prédio das ciências da saúde, preocupada com meu sumiço.

-- Onde você estava chefinha? O que aconteceu com sua testa? Onde você conseguiu essa camiseta?

-- Tem certeza que você é diagramadora? Acho que vou aproveitar seu talento investigativo em reportagens! Quantas perguntas Luiza!

-- Nossa... Você está nervosa.

-- Vamos voltar ao jornal, temos muito que fazer por lá.

Luiza tinha razão, eu estava nervosa. Marisa definitivamente me provocava isso. No final do dia, nos reunimos mais uma vez e concluímos que foi um dia produtivo, cumprir o prazo que o Dandan nos impôs seria possível com algum sacrifício.

E a semana passou nesse ritmo, de plantões, de muito trabalho, minha equipe era de fato muito boa, todos se esforçaram para que na sexta-feira, a edição piloto da Folha de Nova Esperança estava nas mãos do Daniel.

A lembrança do meu novo encontro com Marisa volta e meia me distraía, e um misto de sentimentos surgia. Sentia raiva dela, pela rejeição que sofri, e por ela saber da minha fama exposta nas revistas de fofoca nacionais. Mas inexplicavelmente sentia uma vontade imensa de revê-la, de estar perto dela, eu a desejava? Não... Impossível! O que é isso Alexandra? Toma vergonha nessa cara mulher! Você não é lésbica!

O final de semana reservava uma grande festa na cidade. Era o início das comemorações do centenário de Nova Esperança. Daniel aprovou de cara nosso trabalho e a noite foi de trabalho para a gráfica oficial da prefeitura, para no sábado, como parte dos festejos, o nosso jornal fosse lançado.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Aconteceu Você : Quarto capítulo

CAPÍTULO 4: NOVOS AMIGOS

O lugar não era muito convencional, no percurso já percebi isso, seguimos por uma estrada de terra por cerca de meia hora, chegando numa espécie de chácara, ao entrarmos pelo portão, o aspecto era de um barzinho normal, estava lotado, as mesas estavam espalhadas dentro da casa e pelo jardim, ao final um palco com uma banda tocando rock dos anos 80, gente bonita e descontraída, desenhavam um agradável cenário para diversão.

De longe Daniel acenou para alguém em segundos um jovem bonito se aproximou, não devia ter mais de vinte e dois anos, músculos bem definidos, mas não exagerados, não era alto, e os traços do seu rosto moreno eram de uma beleza encantadora, especialmente seu sorriso que se abriu sincero para mim:

-- Alex, este é Diego, meu namorado.

-- Muito prazer Diego. Ops... Seu o quê Dandan?

Não consegui disfarçar minha surpresa, apertando a mão do rapaz, arregalei os olhos e quase me engasgo com minha própria saliva. Daniel sorriu, e Diego também.

-- Dan, não é assim que se faz esse tipo de revelação, sua amiga ficou assustada.

-- Gente me desculpe, não tenho nada contra, só me pegou de surpresa a revelação...

Muito constrangida tentei remendar minha reação, caminhamos até uma mesa onde outras pessoas estavam sentadas, entre os dois que me abraçaram na tentativa de me deixar à vontade. Na mesa, todos bebiam, riam de uma maneira leve, ao notarem nossa chegada, as atenções se voltaram para mim, quando Daniel me apresentou:

-- Pessoal essa é a Alexandra, podem chamar essa sardentinha de Alex, chegou hoje à nossa cidade, vai ser a editora chefe do jornal que vamos inaugurar. Minha amiga de infância!

-- Oi gente. -- Falei tímida.

Gentilmente um dos rapazes, deu seu lugar na mesa, oferecendo sua cadeira:

-- Sente aqui conosco Alex, seja bem vinda a nossa máfia! Muito prazer eu sou Leandro.

Sorri agradecida o gesto do rapaz negro que usava um cavanhaque charmoso e cabelo cheio de estilo, que lembrava um cantor de reggae. Sentada, fui escutando o Diego anunciar o nome das outras pessoas da mesa.

-- Alex esse cara chato ali no centro da mesa é o Mário, vizinho a ele a santa da namorada que agüenta ele a Lígia; perto dela as fofas Clara e Isabelle, Paulo e Luís, aí do seu lado: Danielle, Luíza e o Beto.

Todos sorriram uns mais simpáticos que outros, mesmo assim me senti acolhida. Não tive coragem de perguntar se haviam ali mais casais “especiais”, apesar de vir de uma cidade grande, meu meio sempre foi hetero demais, temi não saber agir naturalmente, puro preconceito confesso. Diego e Daniel se esforçaram para me integrar nos assuntos, falando do relacionamento deles e da vida deles na cidade.

-- Sou estudante de medicina Alex, minha família é super tradicional, e pelo fato do Dan ser uma pessoa pública, não tivemos como esconder nosso relacionamento por muito tempo. Mas procuro evitar o choque das pessoas, e nos refugiamos nesses lugares alternativos. Essa chácara é de um casal de amigas nossas, artistas da região sempre promovem eventos aqui, acabou sendo um espaço nosso se é que você me entende.

-- Mas então, se trata de um bar gay? -- Perguntei constrangida.

-- … um bar de gente inteligente Sardenta... Nem todos aqui são gays, mas gostam de boa música, curtem dança, teatro e um clima agradável aqui têm tudo isso. -- Respondeu Daniel.

A noite seguiu leve, senti falta das minhas amigas, àquela altura a Renatinha já estaria bêbada se queixando pelo tanto de homens lindos acompanhado de outros igualmente atraentes. Basicamente fui uma boa ouvinte na mesa, o Leandro tinha um astral maravilhoso e me arrancou muitas risadas enquanto Danielle tratava de aumentar o teor alcoólico do meu sangue me trazendo bebidas diversas.

O intervalo da banda deu lugar a uma apresentação acústica do Beto, a mesa toda se converteu rapidamente no fã clube particular do rapaz magro de aparência nerd da turma. Já meio tonta pedi licença e fui até o banheiro, mal sabia eu o que representava o banheiro em um “bar inteligente” como definiu meu amigo. Ao abrir a porta me deparei com duas mulheres trocando um beijo quente encostadas no espelho, não notaram minha presença, por um momento hesitei em entrar em um dos boxes andando para trás, visivelmente perturbada com a cena, e tonta, tropecei em um tapete, e fui salva de uma queda por braços firmes e ágeis.

-- Bem a tempo donzela!

A voz era suave, o cheiro cítrico que eu senti me arrepiou, virei-me devagar ainda envolvida naqueles braços de pele macia e encontrei os olhos castanhos claros e brilhantes mais lindos que eu já tinha visto em toda minha vida.

Com algum esforço me coloquei de pé ficando de frente para uma mulher tão bela quanto o par de olhos que me encantou, no mesmo momento que o casal que antes se beijava, interromperam o beijo dando atenção às “intrusas” naquele banheiro.

-- Você está bem? – Perguntou a mulher.

Balancei a cabeça afirmando que estava bem, fascinada pelos olhos castanhos brilhantes definidos por sombracelhas bem delineadas, boca bem desenhada, cabelos longos escuros e lisos, seu corpo, vestido num jeans justo e blusa decotada com uma jaqueta curta lhe davam um charme irresistível.

-- Muito prazer, Marisa Becker.

Aquela mulher encantadora estendeu sua mão delicada para mim, inexplicavelmente nervosa retribui o gesto:

-- O prazer é meu, Alexandra Castro

O aperto de mão firme me despertou uma sensação inédita, meu coração acelerou e minhas mãos suaram. Sem graça observei o casal de mulheres saírem do banheiro de mãos dadas, disfarçando meu nervosismo caminhei até a pia onde lavei minhas mãos, embaraçada pela vigilância daquela mulher incrível.

-- Está bem mesmo Alexandra? Você me parece tensa... Posso ajudar?

-- Estou bem obrigada Marina.

-- … Marisa.

Ela disse com um sorriso absolutamente arrebatador.

-- Desculpe-me Marisa... Obrigada pela gentileza, mas estou bem, só meio sem prática com bebida... Acho que já atingi meu limite por hoje.

Devo ter gaguejado em algumas palavras, mas no geral acho que me saí bem na desculpa. Sorri amarelo e saí pela porta esquecendo o motivo de ter ido até ali, apressada pela chegada de outras mulheres. No caminho de volta acabei percebendo que precisava mesmo usar o banheiro, voltei para lá, acabei tropeçando de novo na entrada e como se fosse uma grande piada do destino, outra vez caí nos braços de Marisa, dessa vez de frente, ficando a centímetros de sua boca absurdamente sensual.

-- Acho que tem algum ímã te trazendo pra mim...

Marisa me disse isso de uma maneira tão doce que nem me assustei com o tom de flerte. Certamente em outra situação me chocaria diante da paquera de uma mulher, mas Marisa era tão feminina, que seria hipocrisia de minha parte dizer que não estava lisonjeada pela delicadeza daquela mulher comigo.

-- Acho que é mesmo minha coordenação motora, na verdade a falta dela mesmo... Eu vivo tropeçando, me estatelando no chão, em parede...

-- Então é melhor você me dar seu telefone, você vai precisar muito de mim...

Sorri encantada com cada palavra que Marisa falava, estava impressionada com o charme exuberante e feminino dela, nenhuma mulher me chamara tanto à atenção até aquele dia. Fui caminhando de costas até um dos boxes do banheiro enquanto Marisa saía. Voltei à mesa onde Daniel e Diego estavam preocupados com minha demora.

-- Onde você estava sardenta? – Daniel perguntou.

-- No banheiro oras...

-- Viu passarinho verde por lá? Aliás, passarinho meio difícil por lá não é... -- Daniel disse segurando o riso.

-- Encontrou alguma sandalhinha perdida por lá querida? -- Perguntou Diego.

Olhei para meus pés sem nada entender, o que despertou a risada do casal. Não vou negar que passei boa parte do resto da noite procurando Marisa entre as mesas, sem sucesso. Os amigos do Dan pareciam ter uma fonte inesgotável de energia, altas horas da madrugada, ainda estavam no pique, dançando ao ritmo do rock da banda, ou até mesmo rindo uns dos outros e Marisa parecia ter evaporado entre as árvores dali.

Pouco antes do amanhecer Daniel resolveu vir embora, exausta dormi no banco traseiro do carro mesmo, nem percebi quando o Dan me colocou no colo e me deixou dormindo no sofá de minha nova casa.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Aconteceu você

CAPÍTULO 3: PÉ NA ESTRADA



Nem me dei conta da decisão que acabara de tomar, mas nem todas as decisões que tomei na vida com toda cautela resultaram em sucesso para mim, não tinha nada a perder mesmo, então era hora de colocar o pé na estrada, rumo à Nova Esperança, o nome da cidade afinal podia representar um sinal para mim, era disso que eu precisava.

Apesar dos protestos infindos de minhas super amigas, arrumei minhas coisas o mais rápido que pude e em uma semana estava com minhas malas no carro, partindo para o interior e para uma vida nova também em Nova Esperança.

Depois de dirigir por cerca de cinco horas, cheguei enfim a meu novo endereço. Como eu esperava, pouca coisa havia mudado desde minha última visita. Nova Esperança era uma cidade pacata, pela forte presença de imigrantes europeus, as casas tinham uma arquitetura clássica, que lembrava o estilo holandês, com casas estreitas e com dois andares no mínimo, dando um charme especial naquela atmosfera de clima ameno e povo tranqüilo caminhando pelas ruas, caracterizando o cenário bucólico de minha infância.

Como orientada pelo Daniel, segui para o prédio da secretaria de cultura, onde ele trabalhava. Na verdade não era um prédio, era uma casa antiga, com um grande jardim à sua frente, varanda espaçosa, localizada no fim da rua central da cidade. Logicamente a chegada de alguém “estrangeiro” à cidade chamou a atenção dos funcionários da secretaria de cultura, ao me dirigir à senhora alva de olhos verdes, sentada atrás de uma mesa, já senti o que me esperava ali:

-- Bom dia, eu gostaria de falar com o Senhor Secretário, Daniel Rosembaur.

-- Bom dia, quem é você?

Meio surpresa com a “sutil” curiosidade da mulher que eu julgava ser a secretária do Daniel, fiquei sem graça, mas, respondi:

-- Alexandra Castro, uma amiga.

-- Então é você!

A senhora levantou-se imediatamente da cadeira, abraçando-me como se recebesse uma velha conhecida, em seguida berrou:

-- Dandan meu filho, a Alex chegou! Desculpe Alexandra, mas você está com fome, deve estar cansada da viagem, perdoe-me devia ter adivinhado que era você, mas só esperávamos sua chegada para a segunda-feira.

Constrangida com a repentina intimidade demonstrada pela mulher, eu apenas sorri enquanto reconhecia o Daniel saindo de uma sala com um sorriso largo e os braços abertos em minha direção:

-- Sardenta!

Daniel estava bem diferente do que eu me lembrava, desde nosso reencontro há cinco anos. O jovem franzino e alto, deu lugar a um homem de músculos mais definidos, e o óculos elegante deu-lhe um ar intelectual, a pele clara, os olhos azuis e os cabelos com poucos fios brancos, transformou-o num homem bonito e atraente, bem parecido com um galã de cinema europeu. Abraçou-me com a saudade sincera de um amigo verdadeiro, aquele acolhimento para mim gerou em mim o sentimento que tinha tomado a decisão certa em aceitar o convite.

-- Fez boa viagem Alex?

-- Sim amigo, fiz, obrigada.

-- Berta vou levar Alex para se acomodar, está tudo pronto lá?

-- Está sim Dandan, tudo como você pediu. Espero que você goste Alex.

-- Obrigada. -- respondi ainda tímida.

Daniel me conduziu até a casa que preparara para me instalar. Um agradável sobrado a algumas ruas dali. Os tijolos vermelhos, e as janelas brancas já conquistaram minha simpatia, esbocei um sorriso quando meu amigo apresentou-me a minha nova residência:

-- Espero que você goste Alex da sua nova casa.

-- Tenho certeza que vou gostar Dandan.

Daniel foi me ajudando com as malas e entramos no sobrado. Decoração caprichada, e uma sala de visitas após um rol de entrada equipado com sofás quadriculados, e uma poltrona aconchegante perto de uma lareira. Ao lado um pequeno corredor que dava acesso a uma sala de jantar conjugada com a cozinha, na lateral uma porta que dava acesso a um lavabo. Depois da cozinha outra porta separando do que seria uma área de serviço que era praticamente o tamanho do meu apartamento inteiro na cidade. O quintal ainda abrigava uma mesa e bancos de madeira debaixo de uma mangueira frondosa. No primeiro andar, meu quarto, espaçoso, com um banheiro enorme, provido com uma banheira com formato clássico, antigo, as cortininhas do box davam o charme. No sótão, Daniel montou um pequeno escritório, o que achei um gesto a mais de carinho, a vista do sótão era linda, minha mesa ele posicionou diante da janela que me mostrava à paisagem de um dos lagos da cidade, cercado por árvores altas e vistosas.

-- Dandan está tudo mais que perfeito!

-- Ah sardenta! Que bom que você gostou! Berta fez algumas compras para você, mas como não conhecíamos seu gosto não compramos muita coisa, mas ao menos café eu lembrava que você gosta, que tal tomarmos um agora para colocarmos o papo em dia? Eu mesmo faço enquanto você toma um banho, deve estar cansada depois de dirigir por tanto tempo.

-- ”tima sugestão Dandan.

Meu banho foi demorado, ao descer encontrei uma mesa posta, além do café, Daniel preparou panquecas, e as recheou com geléia:

-- Que homem prendado meu Deus! Quer casar comigo?

Daniel sorriu e puxou a cadeira para eu me sentar como um perfeito cavalheiro. Depois de escutar o que acontecera comigo, ele tratou de me animar, explanando quais seus planos para o jornal:

-- Alex, minha pretensão é realizar algo diferenciado. Não é só uma publicação interiorana falando das notícias da cidade e da região, quero fazer desse jornal um espaço de cultura e arte, por isso quero que integre a participação das escolas, e da nossa universidade.

-- Acho uma proposta inovadora e desafiadora amigo, e estou animada para começar. Quero me reunir com a equipe o quanto antes, e começarmos com todo gás para publicar o primeiro número rapidamente.

-- ”timo! Preciso de uma edição piloto para o final da próxima semana, para articular patrocinador.

-- O quê! Próxima semana? Está louco?

-- Seu primeiro desafio amiga... Vou reunir a sua equipe e hoje no final da tarde você já os conhecerá.

O café delicioso e as panquecas preparadas desceram amargos, tamanha foi minha preocupação com o prazo que meu novo chefe acabara de me dar. Como combinado no final da tarde, cheguei à secretaria de cultura para conhecer minha equipe. Berta já foi me avisando:

-- Estão na sala do Dandan querida, pode entrar, esperam só por você.

Ao entrar na sala, deparei-me com quatro pessoas e o Daniel, cordialmente cumprimentei a todos depois que meu amigo me apresentou, sentei-me em volta da mesa ali disposta e perguntei:

-- Então, os outros demoram a chegar para iniciarmos a reunião?

-- Outros? Que outros Alex? – Indagou Daniel.

-- O resto da equipe Daniel.

Daniel sorriu, fez uma careta e respondeu:

-- Querida, esta é toda sua equipe.

Arregalei os olhos e pelo susto acabei derramando o copo d’água em cima dos papéis sobre a mesa.

-- Essa é Fernanda, vai trabalhar como repórter. Artur nosso fotógrafo. Luiza, diagramadora e revisora e o Marcos que vai te ajudar na edição, pesquisa, e em tudo mais que for preciso, é nosso estagiário.

-- Mas Daniel, só um repórter?

-- Não se preocupe Alexandra, nessa cidade não acontece muita coisa, eu dou conta. -- Disse Fernanda sorrindo para mim.

Todos da minha grande equipe pareciam animados, e nem um pouco assustados, isso de certa forma me motivou. Definimos uma pauta para nossa edição piloto, já que a cidade se preparava para comemorar a semana do município, nossa edição especial ia retratar toda história, além de enfatizar seu desenvolvimento e prospecções. De acordo com a pretensão do meu chefe e amigo, sugeri que fosse feito na semana um concurso de redações no ensino fundamental e médio nas escolas públicas sobre a cidade, poesias talvez, para publicarmos.

Já à noite concluímos nossa primeira reunião. Daniel me esperava na porta da secretaria com um convite:

-- Alex, hoje é sexta-feira, ninguém merece passar uma noite de sexta em casa...

-- Qual a programação?

-- Aqui não tem muitas opções, então, vou te apresentar a melhor de hoje, vamos?

-- Sim vamos!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Aconteceu você

Capítulo 2: Meu mundo caiu

Eu mal tinha forças para me levantar daquela poltrona, de repente me senti uma anã que mal alcançava o chão, afundada naquela cadeira, de tão pequena que me sentia pela dupla humilhação. Lentamente fui tateando minhas coisas, a ponto de pedir que a própria Cuca me beliscasse e me fizesse acordar daquele pesadelo. Saí do escritório da minha ex-editora chefe atônita, meio tonta, ainda assim percebi que cada passo meu era vigiado pelos meus antigos colegas por certo penalizados com minha situação. No fundo do corredor, Marcinha estampando na face um óbvio: “Tadinha...”.

-- Amiga, e aí? Você assistiu? Precisa de ajuda?

-- Eu... Eu... Onde é o departamento de pessoal?

--Ela te deu férias? Enfim alguma bondade nessa bruxa!

--Não... Ela me demitiu.

-- Meu Deus!

-- Eu... Preciso ir Marcinha.

Eu nem ao menos sabia que caminho seguir pelo prédio, que dirá pra minha vida dali por diante. Entrei no elevador deixando cair pastas, e ignorando-as no chão. Caminhando pela calçada mais parecia um zumbi, ironicamente, eu só conseguia ver as pessoas folheando as revistas de fofoca com minha humilhação estampada.

Minha volta pra casa pareceu nem acontecer, dirigi de uma forma automática, pra minha sorte não ultrapassei nenhum sinal vermelho, e suponho que algumas buzinas insistentes e desaforadas eram para chamar minha atenção, mas eu sequer me incomodei. Subi para meu apartamento pelas escadas, para continuar meu dia de cão, o elevador do meu prédio acabara de emperrar. Fingi não perceber os cochichos do porteiro e de algumas vizinhas fofoqueiras que conheciam meu noivo, a essa altura meu ex-noivo.

A repercussão do meu “chifre” teve proporções de Big Brother. Os meus telefones não pararam de tocar um instante, recebi telefonemas de amigos, de revistas de fofocas, e pra meu constrangimento total, de minha família.

Meus pais depois de aposentados resolveram assumir a condição de turistas profissionais, e mesmo numa excussão de pescadores ao Pantanal, souberam da minha tragédia sentimental, minha mãe famosa por falar pelos cotovelos ao telefone só chorava penalizada com minha situação, e meu pai berrava do outro lado xingando o meu ex-noivo Fernando.

Não me faltava nada pior acontecer, ao menos era isso que eu pensava. Afundada entre os travesseiros e o edredom, gastei uma caixa de lenços chorando minha decepção. Exausta acabei dormindo, acordei no susto com a campainha sendo tocada insistentemente. Aos tropeços levantei, e eis que abro a porta pras luluzinhas... O trio das meninas super-poderosas, as minhas melhores amigas desesperadas por notícias minhas:

-- Alex! Menina pensei que você estivesse morta! Imaginei o pior! Que você tinha se afogado no chuveiro, eletrocutada pelo secador, se intoxicado com coca-cola... -- Disse Marcinha enxugando o suor do rosto.

-- Ai falou a exagerada! Amiga como você está? -- Perguntou Renatinha preocupada, me abraçando.

-- Como vocês acham que estou? -- Perguntei já me deitando no sofá.

-- Ai tadinha da minha amiga...

Eveline já se aproximou do sofá me dando colo, as três ficaram levantando possibilidades, variaram do xingamento ao Fernando, até o escracho com a Izabel. Acomodaram-se pelo meu apartamento e naquela noite dormiram comigo. Naquela noite eu precisava mais do que nunca da loucura adorável das minhas amigas para acreditar que o dia enfim precedia outro melhor.

Os dias seguintes ainda me reservaram outra desagradável surpresa. A dona do apartamento que eu morava me ligou comunicando que não renovaria meu contrato de locação, uma vez que precisava do apartamento para seu filho que estava se mudando para a cidade com a mulher. ”timo: traída, sem noivo, sem emprego e sem teto.

Era hora de sair do casulo que se transformou meu apartamento e correr atrás do prejuízo, procurar emprego e agora outro lugar para morar. E quem achava que a notícia de hoje embala o peixe do mercado amanhã quebrou a cara... Descobri que minha humilhação pública ainda era manchete, e minhas entrevistas de emprego se tornaram entrevistas de fofocas, suspeitei também que minha credibilidade como jornalista fora abalada pela demissão do jornal o Dia.

Um mês se passou, e nada na minha vida mudou, exceto a minha despensa, que agora estava vazia, meu estoque de chocolates estava agora depositado na minha cintura, e as caixas de valium, pondera, e todos mais de tarja preta que eu guardava no meu armário não bastavam para devolver meu bem estar.

Até que, recebi um telefonema inesperado:

-- Alexandra?

-- Sim.

-- Não está reconhecendo minha voz?

-- Desculpe-me, mas não, e vou adiantando, se for algum colega de faculdade querendo entrevista, não tenho nada a declarar.

-- Ei sardenta! Calma aí!

O apelido de infância me chamou a atenção.

-- Quem está falando?

-- Pensei que eu fosse mais marcante... Não lembra mesmo Alex?

-- Ai... Não...

-- Sardenta, sardentinha, onde mais você tem essas pintinhas?

O refrãozinho infame me reportou à minha infância no interior, não podia ser outra pessoa que não o meu amigo Daniel.

-- Dandan?

-- Ai finalmente! Eu mesmo Alex! Como vai minha amiga?

-- Se eu te contasse você não acreditaria Dan...

-- Não precisa me contar, sua mãe me falou tudo...

-- Por que não herdei esse talento jornalístico de minha mãe? Ela te achou e ainda atualizou você sobre minha desgraça?

-- Não seja tão maldosa com sua mãe sardenta! Ela está preocupada com você, normal, e nos encontramos num cruzeiro pelo nordeste, só por isso eu estou sabendo do que aconteceu.

-- Ah entendi... Mas então Dandan, por isso você me ligou?

-- Na verdade amiga, estou ligando pra te fazer uma proposta.

-- Que proposta?

-- De trabalho... Não sei se você sabe, mas atualmente sou o secretário de cultura da cidade, e estou com um projeto de abrir um jornal local, e gostaria que você fosse minha editora chefe. O que acha?

A proposta era estranha, mas não poderia ter chegado à melhor hora. Mas mudar-me para o interior nem de longe estava nos meus planos. O interior fora cenário de minha infância, onde meus avós tinham um belo sítio. Daniel era um dos maiores motivos das boas lembranças de lá. Um amigo divertido e leal, não mantivemos contato nos últimos cinco anos, desde o final da minha faculdade, quando visitei o interior para o enterro de minha avó. Entretanto, nada me prendia aquela cidade, e a oportunidade de fugir do escândalo e começar uma vida nova. Meio que de supetão respondi:

-- Acho ótimo! Quando começo?

-- Assim que se fala sardenta!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Novo conto: Aconteceu você

Capítulo 1: O início do fim

Sabe aqueles dias que você acorda e acredita com todas as forças que tudo vai dar errado? O despertador não toca você levanta atrasada, de ressaca, tropeçando nos sapatos jogados perto da cama, do chuveiro só sai água fria, diante do espelho você percebe uma espinha monstra que parece ter o poder de canalizar seu cérebro no meio da sua bochecha! Aquele terninho de listras que tem o poder mágico de te emagrecer dois quilos parece simplesmente ter evaporado, no lugar dele, aquela calça que antes te deixava gostosa, agora denuncia seus indesejáveis pneuzinhos, que mais lembram as bordas de catupiry de uma pizza...

Foi mais ou menos assim que o dia que até então eu julgava ser o pior da minha vida começou. Uma reunião importantíssima no jornal que eu trabalhava já devia ter iniciado, enquanto eu me estressava em um engarrafamento típico de segunda-feira. As buzinas dos carros misturadas a gritos desaforados de motoristas revoltados com as “barbeiragens” dos motoboys que faziam zig zag entre os carros aumentavam ainda mais minha dor de cabeça resultante de algumas garrafas de vinho ingeridas na noite anterior. Nem atendi mais às chamadas do meu celular, desculpa típica de funcionário atrasado é o engarrafamento de início de semana no principal acesso ao centro da cidade, preferi poupar meus tímpanos dos gritos da minha chefe implorando para a Márcia justificar meu atraso.

Como eu maldizia interiormente minha amiga Renata pela idéia brilhante do clube das luluzinhas numa noite de domingo. Péssima idéia unir quatro mulheres solteiras, todas magoadas com seus respectivos namorados e ex-namorados e garrafas de vinho a disposição delas. Eu que curtia a forsa pelo bolo dado pelo meu noivo, que mais uma vez como que sugado por um buraco negro sumira todo o fim de semana e inexplicavelmente os dois celulares permaneceram desligados, afoguei minhas suposições no Porto trazido pela Eveline.

Uma hora e meia depois, consegui chegar ao prédio do jornal, equilibrando maleta do laptop, bolsa, e uma pilha de pastas com a pesquisa solicitada pelo meu editor para uma série de reportagens a ser desenvolvida pela equipe de política internacional. Nem preciso dizer que a reunião já havia sido encerrada, Marcinha correu em minha direção trincando os dentes dizendo com os olhos esbugalhados:

- - Onde você estava sua louca? Vou logo dizendo, a Cuca está fumando dois cachimbos pelas narinas!

- - Marcinha preciso me esconder! O que vou dizer a ela? Chefinha minhas amigas resolveram me dar um porre depois do bolo que seu querido sobrinho me deu no fim de semana, acordei de ressaca, perdi a hora e a reunião. Dessa vez a Cuca vai me pegar amiga!

Entre os funcionários, Izabel Carvalho de Alcântara, editora chefe do jornal O Dia, tinha o codinome de Cuca. Pois é, a Cuca, do sítio do Pica-Pau Amarelo, tudo isso por causa do seu humor de cão, unido ao avantajado quadril da senhora de cabelos com franja assanhada, lembrando a primeira versão da personagem do programa infantil da Globo.

Enquanto eu me desesperava no desabafo com Marcinha nem percebi os grandes olhos azuis de minha amiga arregalando-se ainda mais como se quisesse me dar algum sinal.

-- Que foi Marcinha? Fala garota!

-- Alexandra Castro! A senhorita pode me explicar por que não estava na reunião de duas horas atrás?

A voz irritante e cheia de fúria de Izabel surgiu me provocando pavor, apertei os olhos provando o amargo de uma bronca que eu receberia logo mais.

Segui a poderosa Cuca até seu escritório, senti os olhares da redação sobre mim no trajeto, nenhum sinal do meu digníssimo noivo, colunista daquele jornal. No escritório fui acomodando minha bagagem pelas poltronas sob o olhar aterrorizador da minha chefe.

-- Muito bem Alexandra, nem quero ouvir suas explicações absurdas, por que delas estou saturada. Vou ser curta e grossa.

O tom daquela mulher horrorosa não me surpreendia em nada, especialmente o fato de ser curta e grossa isso ela era sempre.

-- Esses anos que você trabalhou aqui me esforcei ao máximo para te dar todas as chances possíveis, fechei os olhos para suas mancadas, ignorei suas trapalhadas, como quando você enviou o nosso repórter policial para cobrir o assassinato de Belchior, quando o tal era ao invés do cantor, um touro de exposições.

-- Aquilo foi um terrível engano Izabel. Mas, eu achava que seria um furo jornalístico, já que ninguém se quer sabia que ele havia morrido.

-- Talvez por que ele continuasse vivo não é Alexandra!

-- …... Pode ser...

-- Continuando, eu mudei você de setor, troquei de cargo, mas não adiantou minha filha pra que você fez jornalismo? Você não nasceu para isso!

-- Izabel, já conversamos o que gosto é de escrever, você não me deixou passar da sessão de obituários.

-- Por que até lá você fez confusão Alexandra! Você trocou a folha de obituários pelos classificados de carros usados, a catedral lotou para a missa de corpo presente do Fusca 76!

-- … foi. Mas, o padre até que gostou, esse dia era missa do dizimista, aumentaram muito as ofertas.

-- Alexandra!

--Desculpe-me chefe, pode continuar.

-- O fato é que fiz tudo que estava ao meu alcance, não por sua causa, mas por causa do meu sobrinho Fernando, já que vocês ficaram noivos, fui déspota, e te mantive aqui. Mas dadas as circunstâncias, não vejo por que mantê-la aqui.

-- Que circunstâncias?

-- As circunstâncias que fatalmente farão meu sobrinho terminar o noivado com você, ou você se tiver um pingo de amor próprio fazer isso.

-- Mas por que eu terminaria o meu noivado com Fernando?

-- Como assim? Você não está sabendo? Que tipo de jornalista desinformada é você Alexandra?

-- Sabendo do que Izabel?

Que pergunta infeliz. Duro foi saber do que a Cuca estava falando, aliás, ela não falou, ela jogou na mesa, a revista de fofocas semanais da editora com uma capa escandalosa: meu viril noivo, o jornalista Fernando Alcântara, flagrado com um famoso cantor trocando carinhos no mínimo estranhos numa romântica pousada em Campos de Jordão.

-- Está nessa revista, e em muitas outras, por isso nem pude impedir a publicação, está na internet, até em programa de fofoca na TV isso foi divulgado.

Eu olhava embasbacada, ainda desacreditando no que estava diante dos meus olhos, e afinal, não era só eu a desinformada, minhas amigas eram tão alienadas quanto eu, já que nenhuma soube da fofoca do momento.

-- Quando essa foto foi tirada?

-- No último sábado, Fernando continua viajando, depois do escândalo, preferi dar uns dias de folga a ele... Vai me mandar por e-mail a coluna dele.

-- Mas ele não vai se quer me dar uma satisfação? Explicar essa foto?

-- Querida que explicação você precisa?

Nesse momento, a secretária de Izabel entra na sala, e avisa:

-- Dona Izabel, é melhor a senhora ligar a TV no canal 5, a senhora vai querer ver isso, e acho que Alexandra também.

Pronto, minha humilhação fora oficializada em cadeia nacional. O famoso cantor de Axé Music, Xandão Lemos, assumira sua homossexualidade e seu relacionamento com meu noivo numa entrevista a uma famosa apresentadora de programas de fofocas diário.

Eu apertava os olhos, ajeitando meus óculos de grau, duvidando dos meus sentidos, visão nunca foi meu forte, mas a audição também estava me traindo, escutar aquilo foi surreal para mim. Nem ao menos tive tempo de me apropriar da dor da humilhação, quando fui sugada pela delicada voz aguda de minha chefe:

-- Explicado o suficiente para você Alexandra?

-- Eu... Eu...

-- Bom, como eu estava dizendo antes de ser interrompida, dadas as circunstâncias, não tenho que dar emprego a ex-noiva de meu sobrinho gay, portanto Alexandra, você está demitida.

-- Hã?

-- É… isso Alexandra, passe no departamento de pessoal, recolha suas coisas, e boa sorte para você.