CAPÍTULO 8: DE VOLTA À ESCRITA
Definitivamente escrever era para mim uma terapia, e há muito tempo eu não me permitia tal atitude por obrigações profissionais, talvez por acomodação e até quem sabe por trauma de tanto ouvir da Cuca, minha antiga chefe Isabel, que eu não tinha o menor talento para escrita.
Entretida com minha volta à escrita, nem vi o tempo passar, já era noite, quando meu celular tocou, era ela: Marisa.
- Oi Mah! Então, ainda no hospital?
- Na verdade não...
- E eu posso saber onde você está?
- Acho que sim, estou aqui na sua porta, você poderia, por favor, abri-la?
Desci as escadas correndo, e abri a porta ansiosa, Marisa estava de pé, com uma pizza na mão:
- Entrega para senhorita Alexandra.
Puxei-a para dentro de casa arrancando-lhe um beijo intenso, sem deixar chance de escapatória.
- Você sempre recebe assim os entregadores de pizza?
- Só os mais gostosos...
- Minha nossa! O que você tem hoje? Não provocou nenhum acidente, e está fazendo cada coisa comigo...
- Nem vem ta! Hoje me comportei direitinho... Quer dizer...
- O que foi? Algo que eu não saiba?
- É que... Bem, saí toda molhada do banheiro...
Só contei o início da história e isso foi o suficiente para Marisa deduzir o resto e cair na gargalhada.
- Então por isso você estava com a jaqueta de Elaine?
- Ahan...
Contei os detalhes da história me divertindo com as caras e bocas de Marisa, enquanto colocava a mesa para nós. Minha vontade de estar perto dela era tão grande, que puxei-a para meu colo e assim comemos a pizza que ela trouxe. Visivelmente cansada, Marisa bocejava depois de jantarmos, levei-a para meu quarto, deitei sua cabeça no meu colo acariciando seus cabelos e em pouco tempo ela cochilou sob meu olhar de encantamento.
Inspiração maior eu não podia ter. Com cuidado deixei-a na cama dormindo e voltei para meu notebook escrevendo a perfeição da minha personagem no romance que se tornara a representação do meu presente real e imaginário depois de conhecer Marisa.
Envolvida na escrita, descrevendo a médica de sucesso e apaixonante que transformara a vida de uma jornalista atrapalhada, não percebi a chegada de Marisa por trás da minha poltrona, abraçou-me delicadamente recostando seu queixo no meu ombro para ler o que eu digitava.
- “Seu semblante sereno quase angelical repousando no meu colo, na minha cama, me dava a sensação de paz, bem-estar a qual eu nem sonhava que existisse, o mundo poderia acabar naquele momento e eu permaneceria imóvel para não desfazer aquele instante.”
Marisa leu o trecho em voz alta me surpreendendo, em seguida perguntou-me:
- Você pode me explicar o que é isso afinal Alexandra? Você está me usando para escrever um livro?
O tom da voz de Marisa ao me dizer isso, assustou-me. Imaginei que ela pudesse estar ofendida por eu de certa forma estar usando-a como recurso literário.
- Não... Quer dizer...
- Posso ler?
Muito constrangida e temendo sua reação, balancei a cabeça autorizando, e ela colocou o notebook no seu colo apertando os olhos para ler. Prestei atenção em cada gesto dela, mas as suas expressões eram enigmáticas para mim, despertando em mim uma curiosidade angustiante.
A leitura demorou quase uma hora, eu andava de um lado para o outro no quarto e apesar do meu gesto impaciente, Marisa não se distraiu, e quando não suportei mais a espera gritei:
- Ai Marisa! Fala alguma coisa!
Marisa colocou a mão no queixo, com uma expressão séria, fez suspense, e enfim disse:
- Alex, você escreve muito bem! Fique totalmente presa a leitura e estou ansiosa para saber mais dessa estória...
Respirei aliviada e abri um sorriso tímido.
- Você tem que publicar isso...
- Publicar?
- Claro! Tem qualidade pra isso, você tem que publicar.
- Mas esse tipo de literatura? Será que vai ser bem aceito?
- Tenho certeza que sim... Mas só pra te convencer que estou certa, faz o seguinte, começa a publicar por capítulos em sites especializados, você vai ver a aceitação do público.
Achei a idéia de Marisa viável, e prometi pensar no assunto.
- Mas me diga... Essa tal médica aí é tudo isso que você escreveu?
- O personagem é sim...
- Ah... O personagem...
Marisa falava isso enquanto se aproximava de mim, envolvendo minha cintura, e eu a encarava com desejo, até mergulhar meus lábios nos seus num beijo descrito no meu romance: excitante e apaixonado.
- Então vamos fazer a vida imitar a arte...
Marisa me jogou na cama, e facilmente me despiu, sugou meus seios com volúpia, enquanto descia suas mãos entre minhas coxas, meu corpo arrepiava e ansiava para ter Marisa dentro de mim. Meu sexo encharcado anunciava o meu desejo, até Marisa enfim brincar com seus dedos por cima do meu clitóris instigando meu pedido:
- Quero você dentro de mim Mah...
Marisa não tardou em me atender, penetrou dois dedos enquanto outro dedo continuava a massagear meu clitóris, descia sua língua quente pelo meu pescoço, orelha, para meu delírio. As estocadas de Marisa no meu sexo tinham um ritmo alucinante, quando eu achava que não havia possibilidade de prazer maior, Marisa impôs o peso de seu corpo sobre seus dedos dentro de mim, intensificando os movimentos e meus gemidos. O gozo se derramou entre os dedos de Marisa, que esboçava um sorriso de satisfação.
Abracei Marisa que estava ofegante, nossos corações batendo rápido deram lugar a uma troca de carícias que poderia ser inocente se não fosse na pele quente de Marisa que se eriçava quando o dorso de minha mão deslizava por seus braços. Seguindo o que eu entendia do corpo dela, despi-a com calma, mesmo me enrolando com os botões da sua blusa, deixei-a nua na minha cama e continuei com o percurso de minhas mãos sobre a pele de Marisa que mexia seu corpo tomado de prazer.
Senti a umidade de seu sexo e isso me excitou ainda mais, penetrei meus dedos que deslizaram naquele líquido dando-me toda liberdade para movimentá-los de acordo com as reações do corpo de Marisa, e sentir seu gozo provocou novo orgasmo em mim.
Não lembro ao certo quando dormimos, mas acordei da melhor forma que poderia acordar: com as mãos de Marisa pelo meu corpo, apertando-o contra o seu acendendo meu desejo que se confundia com meus sonhos. Sem que eu percebesse, Marisa já estava com sua perna encaixada entre minhas coxas, me acordando definitivamente.
Tomamos banho juntas, trocando carinhos sensuais e sorrisos maliciosos, na cozinha o café-da-manhã virou farra, aliás, mais que isso, se tornou uma vingança, minha cozinha se tornou uma praça de guerra de farinha, em pouco tempo, as panquecas saíram, mas nós estávamos precisando de outro banho... E minha cozinha... Bem, ficou bem a altura do que eu fiz na dela.
Apesar de passar o dia afastadas, cada uma em seu trabalho, nos mantivemos “juntas”, trocando mensagens de texto, telefonemas em um clima de romance incontestável. Tudo me parecia mais leve, até o trabalho fluiu mais tranquilamente, estava me apaixonando por Marisa, isso era um fato.
Não me esqueci do que Marisa me sugeriu sobre publicar meu romance na internet, testando a aceitação da minha estória, minha dúvida, era se eu queria ficar conhecida como escritora de contos lésbicos. Mas como na internet você pode ser qualquer personagem, usar o subterfúgio de um pseudonome, ou como se fala no Orkut, um fake cairia como uma luva.
A nova edição do jornal já tinha pauta pronta e encaminhada, e a sequência de reportagens sobre saúde continuaria nesse número. Artur, nosso fotógrafo, surgiu com a idéia de uma iniciar uma investigação sobre a extração de madeira na região, já que era conhecida pela sua riqueza natural e pelo grande número de empresas madeireiras. Pedi que me apresentasse algo que fosse notícia, e adverti acerca de sua segurança e que esta reportagem não poderia interferir nas pautas semanais.
Minha ansiedade em rever Marisa só aumentava, e pra minha frustração, a noite não poderia vê-la, já que ela me avisar sobre seu plantão na urgência do hospital. Voltei para casa e mergulhei mais uma vez na vida dos meus personagens, e criei o tal perfil fake no Orkut, e sem muita expectativa, publiquei o primeiro capítulo do romance em uma comunidade especializada em contos. Confesso que temia rejeição, e aquela comunidade serviria de termômetro para publicação no site que me apresentou esse tipo de literatura.
E assim o fiz, antes de dormir, não podia deixar de contar a novidade a Marisa, que mesmo ocupada, atendeu minha ligação, vibrando com a novidade, aquele incentivo me enchia de confiança e otimismo, o suficiente para eu continuar escrevendo, até o sono me vencer.
Antes de sair para o trabalho, precisava conferir se meu conto havia conquistado alguma leitora no primeiro capítulo, e para minha surpresa, haviam duas páginas de comentários das leitoras ansiosas pela continuidade da estória, aquela motivação foi mais que fundamental para nutrir minha inspiração.
Contive toda minha necessidade de compartilhar isso com Marisa, imaginando que depois do plantão ela precisava dormir e não ser interrompida, no fim do dia daria um jeito de encontrá-la. Nenhum telefonema ou mensagem o dia todo, isso me angustiava de uma forma esquisita. No fim da tarde, resolvi ligar, o celular só caía em caixa postal, pensei que não haveria mal em ir pessoalmente em sua casa, e assim o fiz.
Parei numa delicatess e comprei guloseimas para um chá na varanda da aconchegante casa de Marisa, ao chegar enfim, estacionei com cuidado, e bati à porta com a cesta de itens nas mãos e um sorriso exuberante aguardando que ela abrisse a porta. Para minha total decepção, a morena fatal abriu a porta.
- Pois não?
Aquilo me parecia um pesadelo, aquelas situações que você deseja que o chão se abra de vez lhe tirando daquele constrangimento imediatamente. Não consegui falar uma só palavra, e a morena deduziu:
- Você veio fazer alguma entrega? Marisa você pediu alguma coisa? – A morena gritou para dentro da casa.
Eu fiz menção de dar meia volta quando a morena me chamou:
- Ei mocinha... Não vai entregar?
Ela puxou a cesta e perguntou:
- Tenho que assinar algo? Já está pago?
Sentia que algum ser sobrenatural prendeu minha voz em algum feitiço, não conseguia falar, até Marisa se aproximar da porta:
- Alex? O que você está fazendo aqui?
Continuei sem falar nada, enquanto a morena perguntou:
- Você a conhece?
- Claro! É a Alexandra, editora-chefe do jornal da cidade, te falei dela.
A intimidade delas me machucava, e me doeu ainda mais como Marisa se referiu a mim. Isso me desnorteou, joguei a cesta no chão, e saí correndo em direção ao carro sendo seguida por Marisa que gritava:
- Alex! Aonde você vai? Espera!
Não parei, andei rápido com aquela cesta na mão me sentindo a mais idiota das criaturas, deduzindo o motivo pelo qual Marisa não me ligou nem me procurou o dia todo. Nervosa como estava demorou para minhas mãos furadas atuarem, e permitir que a cesta com as guloseimas se espatifassem pelo terraço da casa.
- Alex, espera aí!
Agachei-me para recolher as coisas, e só então Marisa me alcançou e me ajudou a recolher o que estava espalhado pela terra.
- Quanta coisa! Tudo pra mim?
Marisa disse um pouco constrangida enquanto eu lutava para minhas lagrimas de raiva e decepção não entregarem meu estado apaixonado.
- Era tudo pra você sim, faça bom proveito junto com a morena fatal!
Levantei-me indignada, jogando o que estava em minhas mãos dentro da cesta, e correndo em direção ao carro ignorando o chamado de Marisa. Dirigi pela estrada amargando um sentimento estranho de traição. Ignorei também as chamadas de Marisa no meu celular, e m refugiei na casa do Dan que obviamente se surpreendeu com minha visita repentina.
- Sardenta! Aconteceu alguma coisa?
Entrei na casa de Daniel sem conseguir expressar o que estava sentindo, sensível como ele era segurou-me pela mão, me conduziu até a cozinha, puxou a cadeira para que eu sentasse e disse:
- Estou preparando um café, tome comigo e vamos conversar, acho que você está precisando.
Aceitei o convite e desabafei com meu amigo o que se passava na minha cabeça e no meu coração. Dan ouviu tudo atentamente, deixou que eu falasse sem me interromper. Em seguida me perguntou:
- Você está apaixonada por ela Alex?
Eu sinceramente não sabia o que responder, e foi isso que o confessei ao Dan:
- Não sei Dandan, mas o que tenho sentido esses dias com ela é muito intenso, diferente de tudo que já vivi.
- Você já disse isso a ela?
- Não né Dan! Não há necessidade disso, não quero ficar nas mãos dela, você mesmo falou que ela não se prende a ninguém e ainda tem essa morena fatal...
- Então acho bom você ir com calma tendo cuidado com seus próprios sentimentos, deixe que ela dê os passos nesse relacionamento deixando claro o que ela quer com você, até lá, se preserve, não vá atrás dela, deixe que ela te procure, se imponha...
- E se ela achar que eu perdi o interesse nela?
- Minha querida, é bom que ela pense isso... Assim vai se perguntar onde foi que ela errou...
Mais calma, voltei para casa com o celular desligado, não queria falar com Marisa, e imbuída desse sentimento escrevi mais alguns capítulos do meu romance e dormi experimentando a decepção de esperar em vão que Marisa me procurasse naquela noite.
Os dias se passaram e Marisa não me procurou, e como isso me doeu. Daniel e Diego me ajudaram muito a me controlar e não procurá-la também, até que o próprio Diego, trouxe-me notícias acerca do sumiço dela o que talvez justificasse o porquê de não ter me procurado. Marisa havia viajado a trabalho no mesmo dia que encontrei a tal morena em sua casa.
Os dias de exílio sem notícias de Marisa foram uma tortura, a fertilidade de minha imaginação agora estava contra mim, especulando e fantasiando sobre o destino dela, o intuito e com quem ela estaria. Durante esses dias, mal consegui escrever, apesar de animada com a aceitação do público que se mostrava completamente envolvido na estória, dando ao romance o caráter de web novela na medida em que diariamente novos trechos eram publicados.
A nova edição do jornal foi lançada, outro sucesso. Meus pais finalmente deram notícias, estavam voltando ao Brasil em breve. Minhas amigas me cobravam uma visita no fim de semana à capital. Daniel e meus novos amigos ocupavam meu tempo livre com programas divertidos e mesmo assim eu não conseguia desvencilhar meu pensamento de Marisa.
Marisa saiu da sala antes que eu pudesse me desculpar ou relutar qualquer coisa. Percebi o quão mal educada e desagradável eu estava sendo, ao voltar para o ambulatório, não encontrei Marisa me esperando, outro médico me informou que os exames não revelaram qualquer fratura, orientou que eu mantivesse repouso, prescreveu um analgésico e me liberou.
-- Então vamos sardenta! Hoje nós dormimos com você, vamos cuidar dessa paciente. – Disse Daniel.
-- Não é necessário Dan...
-- Claro que é! Você vai ficar sob nossa observação. – Afirmou Diego.
Ainda frustrada por não rever Marisa, saí do ambulatório procurando entre as pessoas transitando no hospital, a médica que me atendeu, em vão, Marisa parecia ter evaporado dali. Beto e Luisa nos acompanharam até minha casa, o Leandro já estava nos esperando, sempre divertido, preparou um cartaz de boas vindas todo enfeitado com a foto de um cavalo e o colou na porta do meu quarto.
Meus novos amigos foram super atenciosos e fofos comigo, Leandro preparou o jantar e comemos todos juntos no meu quarto. Diego e Dan ficaram para dormir comigo depois que os outros foram embora, demorei a pegar no sono lembrando o meu reencontro com Marisa, não só pelo meu comportamento infantil, mas também por que a imagem dela linda, cuidando de mim, a lembrança do seu cheiro, da sua voz, tiravam minha paz de uma maneira inexplicável e inédita para mim.
A noite foi longa, meu corpo doía sofrendo os efeitos da queda acordei com o café na cama trazido por Diego, e com um convite do Dan:
-- Está se sentindo bem?
-- Sim meu amigo, estou bem, vocês dois são enfermeiros maravilhosos!
-- Então ótimo, vamos sair um pouco e aproveitar o sol que abriu hoje. – Convidou Dan
-- Mas vamos pra onde Dandan?
-- A minha sala está promovendo um churrasco no clube da cidade, para arrecadar uma graninha para nossa festa de formatura, vai ter uma banda de pop rock, outra de pagode, enfim, vai ser legal. – Esclareceu Diego.
Não havia como recusar o convite do meu casal de amigos. Pouco antes do almoço, saímos com destino ao clube da cidade.
O clube estava lotado, a banda de pagode já animava os convidados. Diego muito popular me apresentou a vários colegas, a maioria não era de Nova Esperança, a cidade universitária, atraía gente de todos os estados. Estava tudo muito tranqüilo para mim, apesar de ainda experimentar dores no meu corpo conseqüentes da queda no dia anterior. Para sacudir minha auto-estima, ouvi boas cantadas dos acadêmicos de medicina, entretanto, eu sequer dei importância, eles inexplicavelmente não despertavam meu interesse.
Duas horas depois de chegar à festa, fui até o banheiro, cheio de acadêmicas de medicina retocando a maquiagem, algumas já bem animadas pelo álcool, trocavam suas impressões sobre a festa e os meninos de lá. O chão escorregadio contribuía para esbarrões na saída dos boxes, em um desses incidentes a porta do box veio direto na minha cara e junto com ela uma mulher tropeçando caindo nos meus braços.
Nem pude acreditar quem estava ali mais uma vez face a face comigo, os mesmos olhos hipnotizantes, o perfume cítrico: Marisa.
-- Quem é mesmo que tem um ímã para mim?
Eu disse arrancando um sorriso tímido de Marisa. Os segundos de troca de olhares foram interrompidos por uma garota indagando:
-- Dra. Marisa desculpe-me escorreguei e empurrei a porta, machuquei a senhora?
-- Não machucou não graças a cobertura da imprensa...
Sorri com a brincadeira de Marisa, enquanto observava o olhar cheio de volúpia da tal garota para Marisa. Não sei por que aquele olhar da garota me incomodou, a tal ponto que dessa vez fui eu a interromper:
-- … melhor você ter mais cuidado, poderia ter causado um acidente desagradável.
-- Claro, mais uma vez, desculpe-me professora.
A garota saiu do banheiro deixando a sós eu e Marisa:
-- Então doutora, será que nossos papéis estão se invertendo e agora sou eu a lhe salvar de quedas?
-- Se você não estiver montando um cavalo...
Fiz careta para ela o que despertou um sorriso descontraído, deixando-a ainda mais linda.
-- Então, como você está se sentindo? Alguma dor?
-- Sinto dor no corpo, especialmente nas costas, mas nada insuportável.
-- Então você foi bem tratada suponho.
-- … os médicos de Nova Esperança parecem ser competentes...
Marisa sorriu balançando a cabeça positivamente, mais meninas foram entrando no banheiro quebrando aquele clima, disfarcei indo até a pia lavando minhas mãos sob o olhar atento da médica.
Pelo espelho continuei fitando o olhar de Marisa, notando a popularidade dela entre as meninas que entravam no banheiro, algumas a cumprimentavam até com um grau de intimidade maior, mas todas demonstravam respeito com ela.
-- Eu sei que você gosta dos banheiros de Nova Esperança, mas você ainda vai passar muito tempo por aqui? – perguntou Marisa.
-- Se a medicina não der certo, definitivamente você deveria tentar a carreira de humorista.
-- Você nem imagina quantos talentos uma boa médica tem que ter...
Fui me afastando em direção à porta de saída, enquanto Marisa me seguia:
-- Vou voltar para festa, meus amigos devem estar preocupados, achando que caí de novo.
-- Posso acompanhar você? Cuidados médicos... Só uma precaução, no caso de algum cavalo ou amontoado de ração aparecer pelo caminho...
-- Tudo bem doutora, só por isso...
Saímos do banheiro e caminhamos pelo clube, meio tímidas, pelo percurso Marisa parou diversas vezes para cumprimentar alunos, até encontrarmos Diego e Dan:
-- Dra. Marisa! Sabia que a madrinha de nossa turma ia aparecer! – Exclamou Diego.
-- Claro Diego faz parte das minhas obrigações.
-- Viu que cuidamos direitinho da Alex? Do jeito que a senhora pediu! – Diego disse inocente.
Estranhei a colocação do Diego, especialmente quando notei o Dan apertando a mão do namorado enquanto Marisa arregalava os olhos. Fingi nada ter percebido, deixando que eles se confiassem na minha famosa distração.
-- Então doutora há algum problema se eu beber uma cervejinha? – Perguntei.
-- Claro que não Alexandra. Mas não exagere...
-- Então eu vou pegar pra você sardenta! Vamos Diego. – Disse Dan.
Fiquei na companhia de Marisa, enquanto o casal se afastava, e o assédio das alunas dela me incomodava de uma maneira insana. Minha cara de poucos amigos foi notada pela própria Marisa:
-- Aconteceu alguma coisa Alexandra?
-- Não, por quê?
-- Esse bico aí... Roubaram seu doce?
Não sabia sequer o que responder a Marisa, ainda bem que Diego e Daniel apareceram de volta com as cervejas me salvando daquela saia justa. Manter-me perto de Marisa o resto do dia foi difícil, ela era requisitada constantemente nas rodinhas dos alunos, até mesmo para dançar com alguns deles. Meu humor ficou tão alterado que no meio da tarde pedi ao Dan que me deixasse em casa.
-- Mas sardenta, por quê?
-- Estou com dor no corpo Dan, quero descansar.
-- Tudo bem então... Vou avisar ao Diego que estou indo te deixar, vai pro carro e me espera lá.
Sai do clube em direção ao estacionamento, buscando no olhar a localização de Marisa, para minha tristeza não a encontrei. Encostei-me no carro do Dan aguardando-o, quando o meu celular tocou, era a Renatinha. Fofocamos por um tempo colocando os assuntos em dia, naturalmente não deixei de contar minha aventura eqüina, distraí-me no papo e nem notei o tempo passar, nem muito menos estranhei a demora do Daniel, ao desligar o telefone ouvi a voz tão familiar nos últimos dias:
-- Fugindo moça?
Era Marisa, me surpreendendo ao meu lado, com um sorriso diferente, igualmente lindo, mas seu olhar tinha um brilho incomum, ao notar a aproximação dela percebi o forte hálito de álcool, logo deduzi que a respeitada médica já tinha bebido demais.
-- Não estou fugindo não doutora, estou indo para casa descansar, esse churrasco está me deixando exausta.
-- Mas a festa está apenas começando Alexandra...
O brilho do olhar de Marisa tinha um quê de malícia, me dando a certeza que a abordagem dela era um flerte descarado o que provocou em mim reações confusas de medo e satisfação.
-- Para você está mesmo animada a festa... Mas para mim, não estou vendo nada muito interessante.
-- Jura que não está vendo nada interessante?
Inesperadamente, Marisa colocou-se de frente para mim, encostando suas mãos no carro, envolvendo-me entre seus braços. Nervosa com a proximidade do corpo de Marisa, eu gaguejei para responder:
-- Eu... Eu quis dizer que... Que... Não estou me divertindo tanto quanto você.
Marisa não se intimidou com meu sarcasmo atrapalhado, manteve-se perto de mim deixando-me com a respiração ofegante e o coração acelerado. Minhas pernas tremiam, e não conseguia desviar meu olhar do dela.
-- Acho que podemos deixar as coisas mais justas e você se divertir um pouco mais, você está precisando... Vem comigo?
Ela fez um movimento com a cabeça e puxou minha mão gelada:
-- Eu não posso, o Dan vai ficar preocupado, ele vai me deixar em casa.
-- Não se preocupe, já avisei ao Daniel que eu te levaria em casa.
Não contestei em segui-la, exceto quando notei Marisa cambalear ao andar:
-- Tenho uma exigência doutora...
-- Estava demorando... Pois não donzela!
-- As chaves do carro! Eu dirijo você não está em condições de dirigir.
-- Mas você não sabe o caminho!
-- O caminho você pode ensinar...
-- Adoro ensinar...
A malícia na voz suave de Marisa, agora tinha um teor absurdamente sensual que me arrepiava inteira. Entramos no carro, trocando olhares, o meu tímido, o de Marisa era quase indecente.
-- Siga a estrada principal, na primeira bifurcação dobre a esquerda. – orientou Marisa.
Apenas balancei a cabeça positivamente e segui a orientação de Marisa que me olhava fixamente, me deixando mais nervosa:
-- O que foi Marisa?
-- O que foi o que?
-- Está me olhando assim... Está com medo de que eu bata seu carro?
-- A minha menor preocupação nesse momento é com meu carro...
Nesse momento, Marisa tinha um sorriso arrebatador, com muito sacrifício mantive minha concentração no volante, mas quando ela roçou o dorso de sua mão macia no meu braço, senti meu corpo estremecer. Ruborizei, respirei fundo, que espécie de energia tinha aquela mulher que deixava minha sensibilidade tão evidente?
-- Está tudo bem Alexandra?
-- Han?
-- Perguntei se está tudo bem... Você parece nervosa...
-- … que... Sou fraca...
Marisa sorriu discretamente, como se saboreasse uma pequena vitória e avisou:
-- Dobre aí à esquerda e siga pela trilha da estrada de terra.
Dirigi por alguns minutos pela estrada de terra, até encontrar um portão de madeira.
-- Pare aqui, esta é minha casa.
Marisa desceu do carro e abriu o portão. Entrei com o carro avistando uma casa de campo requintada, com um alpendre espaçoso, à frente um jardim muito bem cuidado, e toda propriedade era cercada de árvores frondosas. Desci do carro encantada com a paisagem, ainda sem saber o que eu fazia ali.
-- Venha Alexandra, entre na minha humilde residência.
Tímida, coloquei minhas mãos nos bolsos de frente da calça e segui Marisa até o interior de sua casa. Contemplei a decoração rústica, mas elegante. Marisa convidou-me a sentar no sofá espaçoso e confortável e sentou-se ao meu lado.
Notei Marisa se aproximar de mim, e fiquei apavorada. Quando ela passou a mão pelo meu cabelo e deixou sua boca quase colada na minha, inventei de sentir sede... Se bem que minha boca estava mesmo seca, sedenta de algo que nunca desejei tanto: os lábios de uma mulher.
-- Quero água! Você pode me dar água?
Meio frustrada Marisa se afastou e respondeu:
-- Claro.
Marisa levantou, e eu a segui até a cozinha, bebi o copo d’água com uma voracidade desconcertante. A dona da casa não só me observava, ela me devorava com os olhos. Não tardou mais concretizar o desejo evidente. Marisa se aproximou de mim, pressionando-me contra o balcão da cozinha, acariciou meus cabelos, e tomou minha boca com sofreguidão, me deixando sem forças, sem qualquer defesa no beijo mais excitante que experimentei em toda minha vida.
Seus lábios eram os mais quentes que me beijaram até aquele dia. Um beijo perfeito, na intensidade, na velocidade... Nem muito molhado, nem seco, sua língua parecia massagear minha libido tamanha era a excitação despertada naquele momento.
Nossos lábios se afastaram lentamente, minhas pernas tremiam, e minhas mãos suavam, a respiração quente de Marisa na minha pele provocava em mim uma sensação indescritível de ansiedade misturada a um desejo incontrolável de me jogar nos braços dela e me perder outra vez na sua boca. E como se entendesse o que meu corpo clamava, Marisa segurou minha nuca puxando minha boca para perto da sua, beijando-me com volúpia.
O beijo não deixava espaço para qualquer reflexão, palavras, me entreguei como se fosse o último momento da minha vida. Marisa me conduziu pela casa sem cessar o beijo, me jogou no sofá, e sua língua roçou pelo meu pescoço, colo, despertando meu gemido. Minhas mãos pareciam cumprir a obrigação de explorar aquele corpo tão quente e delicioso. A maciez da pele de uma mulher para mim nunca me inspirou sensualidade, mas os movimentos de Marisa sobre mim roçando nossas peles era o momento mais prazeroso na minha vida até então.
As mãos de Marisa por baixo da minha roupa eriçavam cada pedaço do meu corpo, e nossos beijos eram cada vez mais intensos, e eu não podia acreditar que estava nos braços de uma mulher me derretendo de tesão.
Mas meu famoso talento para confusão deu seu ar de sua graça finalmente... O zíper da minha calça ficou preso no cinto da Marisa, e tentando me desvencilhar, acabei provocando nossa queda no chão.
-- …... Estava demorando... Nós duas juntas e nenhuma queda... – Disse Marisa esfregando a mão na cintura.
Sorri escondendo meu rosto entre minhas mãos:
-- Desculpa Marisa, eu sou muito desastrada mesmo...
Marisa abriu aquele sorriso que me desestruturava... Aproximou-se mais uma vez de meus lábios, beijando-me suavemente:
-- Onde foi mesmo que paramos?
A voz de Marisa bem perto do meu ouvido era suficiente para acender meu desejo, quando estava me entregando em outro beijo, senti minha perna tremer sem parar:
-- Alexandra... Está vibrando...
-- Está sim... Está tudo vibrando mesmo...
-- Alexandra estou falando do seu celular no bolso, está vibrando...
-- Ah!
Sorri sem jeito, pegando meu celular no bolso, era Daniel, tinha que atender.
-- Oi Dan.
-- Alex, onde você está?
-- …... Estou... Estou...
-- Você está com a Marisa?
-- Sim...
-- Amiga preciso dela, o Diego bebeu demais, passou mal, mas não posso levá-lo para o hospital, o pai dele está de plantão hoje.
-- Onde vocês estão?
-- Na minha casa, venham logo!
-- Estamos indo.
Expliquei a situação a Marisa, que se apressou em pegar sua maleta, e seguimos para a casa do Dan, a fim de atender seu namorado. No percurso não trocamos nenhuma palavra, mas meu corpo ainda queimava de desejo olhando para Marisa concentrada mexendo nos itens da sua maleta de médica.
Chegamos à casa do Dan, Diego estava desmaiado, depois de examiná-lo constatou que não era nada grave, Marisa administrou uma ampola de glicose, em minutos Diego já dava sinais de consciência, nos tranqüilizando.
Deixamos a casa do Dan, eu um pouco constrangida, pelo olhar do meu amigo para nós duas. Marisa me deixou em casa, e na porta me senti como uma adolescente que saía com um carinha pela primeira vez, em dúvida sobre como me despedir dela, na verdade, queria mesmo era convidá-la para entrar, e naquele silêncio dentro do carro, falamos ao mesmo tempo:
-- Boa noite.
Fiz menção de sair do carro, mas, minha vontade de beijá-la foi mais forte. Quando me aproximei dela, senti sua mão nos meus lábios:
-- Não faça isso...
Estranhei e não nego, me irritei com o gesto dela, deduzindo que ela poderia estar arrependida pelo que aconteceu mais cedo entre nós. Não esperei justificativas, desci do carro furiosa, batendo forte a porta, deixando Marisa com cara de interrogação.