Mostrando postagens com marcador Por que sei que é amor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Por que sei que é amor. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de outubro de 2011

1ª temporada: Porque sei que é amor : Último capítulo

CAPÍTULO 31: COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ


Resolvi não forçar a barra e me preparei para dormi no sofá, para que ela ficasse mais a vontade no quarto. Entretanto, provoquei-a, vestindo uma camisola de seda decotada, curtinha, uma que a deixava doida, quem sabe eu ativasse sua memória sexual...

Ofereci-me para trocar os curativos do braço depois que ela molhou no banho, sentei-a na cama e aproveitava do nosso contato para demorar mais no roçar de nossa peles, usei de toda sedução jogando meus cabelos para o lado e sobrepondo meu corpo sobre o dela, deixava meu decote na altura de seus olhos para pegar algum material de curativo na cabeceira da cama, atrás dela. Com o rabo de olho observava sua reação, ela ficava perturbada com isso, vi que estava no caminho certo para reconquistar minha mulher.

Saí do quarto após desejar-lhe boa noite, beijando sua testa, notei o rubor de sua face, o que me deu uma satisfação incrível por constatar que Camila não estava indiferente ao flerte entre nós.

- Mas o sofá é confortável? Essa é sua cama, não é justo você dormir sem conforto depois de todos esses dias dormindo na poltrona do hospital.

De pé na porta do quarto, continuei a jogar meus cabelos sensualmente, passava minha mão pela nuca, como se quisesse deixar subetendido o cansaço dos meus músculos pelas noites mal dormidas no hospital.

- Pelo menos no sofá me estico inteira – sorri.

- Ah Isabela, é sua cama, pode dormir aqui – Camila falou timidamente.

- E’ nossa cama...

Camila ruborizou, afastou-se na cama, abrindo espaço para mim. Aproximei-me lentamente após apagar as luzes do quarto, ligando apenas o abajur do meu lado. Deixei meus cabelos espalhados pelo travesseiro afim de exalar o perfume que eu usava na nuca, passei no meu corpo durante o banho, o óleo de amêndoas doces que ela adorava, a memória dos seus sentidos ia dar seus sinais, eu tinha certeza.

Podia sentir o corpo de Camila perto de mim, quente. Ela se mexia muito na cama, foi então que interrompi sua inquietude:


- Está com calor, Cami?

- Não... – disse baixinho.

- Está sentindo alguma dor?

- Não...

- Perdeu o sono?

- Mais ou menos.

- Tem uma coisa que faço pra você dormir, quer tentar lembrar?

Tímida, ela balançou a cabeça positivamente, aproximei meu corpo do dela, abri meus braços e disse-lhe ternamente:

- Encosta aqui sua cabeça.

Camila chegou-se tímida, afastando seus cachos pro lado, aconchegando-se em meu peito, a essa altura meu coração já estava acelerado, e ela podia sentir isso obviamente.

Apertei-a em meus braços e com uma das mãos, fazia cafuné nos seus cachos, sentiindo sua pele responder ao meu carinho. Nossos corações aceleravam o compasso juntos, sentia as pernas de Camila se entrelaçarem nas minhas, à medida que meus braços a envolviam ainda mais, sua respiração já acompanhava a rapidez das batidas do seu coração, ela não estava imune ao nosso contato, e eu tinha que usufruir disso.

- Cami, está tudo bem?

- Sim... Tem certeza que eu dormia depois disso?

Senti uma malícia em sua pergunta, sorri divertida, e respondi:

- E’ dormia, mas antes disso a gente se cansava um pouco...

- Cansava?

- E’ Cami...

Ela ficou calada, senti que ficou sem graça com a suposta ingenuidade da pergunta, e com a mesma timidez, não comum na Camila com a qual me casei, ela indagou:

- Como foi nosso casamento?

- Foi na chácara de sua família, você decorou tudo com as rosas que você mesma cultivou, da mesma espécie das rosas que se abriram no nosso primeiro beijo na estufa de seu pai... Você estava linda, Carmem a conduziu até o altar, o Vô Elias celebrou, todos estavam emocionados, entrei cantando pra você, suas sobrinhas jogavam pelo tapete pétalas de flores até minha chegada a você...

- Deve ter sido lindo, gostaria de lembrar...

- Foi perfeito... Mas se você não lembrar, casamos de novo... Você quer?

Ela sorriu e apertou suas mãos na minha cintura, esse gesto era comum entre nós quando estávamos naquela posição na cama. Meu corpo tremeu, empurrei minhas pernas entre as suas, notando Camila levantar sua cabeça. Encarou-me com aqueles olhos verdes que me penetravam a alma, os cachos longos avelã caiam sobre meus seios expostos no decote da camisola, ela baixou os olhos em direção aos meus lábios, mordi meu lábio inferior numa expressão de desejo, segurei seu rosto com uma mão, enfiando meus dedos em seus cabelos, Camila não fugiu de meus olhos, puxei-a em direção a minha boca, rocei meus lábios nos dela, e ela invadiu minha boca com sua língua institivamente, e nos entregamos em um beijo inédito, parecia ser o primeiro beijo entre nós.

A partir daí, nossos corpos se entenderam sozinhos, deixamos a saudade falar. Nossas mãos buscavam cada pedaço de nossas peles como se necessitasse explorar aquele território desconhecido e, ao mesmo tempo, tão nossos. Nossas bocas sugavam o sabor doce do tesão emanado em cada poro.

Com cuidado, coloquei Camila sob mim e movimentei-me entre suas pernas, fazendo-a sentir a umidade liberada de meu sexo, ela sorria com prazer, beijei ardentemente, enquanto mantinha o jogo de quadris agora nas suas coxas, com uma das mãos massageei seu clitóris sentindo sua calcinha encharcada, ouvi seus gemidos rocos no meu ouvido.

Ficamos por quase uma hora despertando a memória de Camila... Sentia meu amor me olhando encantada de novo, dormiu enfim nos meus braços e, no clarear do dia, foi minha vez de relembrar seu sono tranquilo com um sorriso bobo nos lábios...

- Bom dia amor...

Camila sorriu...

- Bom dia... Você tem mesmo um jeito bom de me colocar para dormir...

Beijei seus lábios suavemente, e ela retribuiu, acariciou meu rosto e perguntou:

- A gente sempre acorda com esse sorriso bobão nos lábios?

- Sempre... E sempre te observo dormir, até você sentir meu olhar e despertar...

Dessa vez foi ela que me puxou para um beijo mais longo, e mais uma vez nos amamos antes do café. Camila estava solta, sabia o que estava fazendo quando me tocava, quando remexia sobre mim e dentro de mim, gozamos juntas, e ficamos abraçadas até a fome falar mais alto. Servi-a na cama mesmo, e ela não parava de me roubar beijos entre uma mordida e outra do wafle, e dos pães prediletos dela.

Aos poucos Camila se lembrava de histórias, imagens, conversas. Com memória ou não, nos apaixonávamos de novo, ela lia as coisas de sua pesquisa lembrando de detalhes de outras etapas, Prescott se animava com a rapidez de sua recuperação, Meredith ficava com Camila enquanto eu assistia as aulas, e nos reuníamos a tarde no apartamento com Prescott. Isso durou um mês, até que voltamos a rotina na universidade, já no final do ano, quando nos preparamos para passar as festas de fim de ano no Brasil.

Nem percebíamos mais o que era novo, ou que era de memória que voltava para Camila, já desfrutávamos da mesma intimidade, carinho, amor, a flagrei várias vezes olhando nossa aliança sozinha e beijando-a. Isso ela repetia sempre. O tempo passava e parecíamos duas adolescentes apaixonadas, surpreendendo uma a outra com presentinhos, recadinhos, declarações de amor no meio do dia.

No dia que completamos 1 ano de casadas, ela voltou a me surpreender com um jantar na cobertura do prédio que morávamos. Ela montou uma pequena estufa com Meredith enquanto eu assistia as aulas sozinha. Não haviam as nossas rosas, mas ela conseguiu alguns espécimes lindos.

- Meu amor como você fez isso tudo?

- Perdi a memória meu amor, não minha inteligência...

- E toda essa produção tem segundas intenções?

- Tem... Terceiras, quartas... – sorriu maliciosa.

- Se minha mulher sabe disso... Ela é ciumenta, viu...

- Então, você quer deixar essa ciumenta e casar comigo?

- Agora?

Sorrimos por um bom tempo até que Camila tomou um ar mais sério, bebericou um gole de vinho, e me disse com um olhar brilhante e apaixonado:

- Isa não posso afirmar com certeza o quanto te amava antes disso tudo, mas posso te dizer que hoje te amo com tudo que tenho, mesmo fraca do juízo – rimos. – Eu sinto esse amor como parte integrante de mim, seu cuidado, sua dedicação, sua paixão, me curam de tudo, se fosse você hoje a perder a memória eu faria de tudo para você se apaixonar por mim, porque seu amor é o que me faz ser a mulher que sou hoje.

Depois de palavras como essas, minhas lágrimas desceram fácil pelo meu rosto, Camila também estava emocionada, beijou nossa aliança em minha mão e eu finalizei:

- Eu me apaixonaria por você quantas vezes fosse preciso, você é minha vida...

Naquela noite fizemos amor como nas nossas núpcias, re-apresentei a Camila nosso brinquedinho, depois de muitos risos, ela ficou curiosa, tratei de matar sua curiosidade, inundando-a de prazer.

Uma semana depois embarcamos para o Brasil, uma caravana nos esperava, abraços apertados, lágrimas de alegria pelo reencontro, Camila lembrou de Lívia e de tia Sílvia também, cochichava que o rosto de Bernardo era familiar, mas não lembrava seu nome. Nosso amigo estava mais gordo, corte de cabelo diferente, usando um cavanhaque, até eu tive dificuldade de destacá-lo entre os que nos recepcionaram. Senti falta do Vô Elias, Carmem nos disse que ele estava adoentado e decidiu não vir a São Paulo, o Vô Antenor só iria para Campinas no final de semana, minha vó havia passado por uma cirurgia e ele estava acompanhando-a.

Olívia nos preparou uma festinha de boas vindas, estava morando em um apartamento maior, e assim pode receber a todos. A primeira coisa que minha sogra percebeu foi nosso rosto mais magro, comíamos muito mal em Boston, e os últimos meses tinham sido bem puxados para nós. Na festinha Olívia nos apresentou sua nova namorada, uma acadêmica de medicina, não tinha mais de 22 anos, muito bonita, parecia mais uma modelo, magra, alta, cabelos longos, uma aparência bem hetero, minha mulher coitada com o gaydar sequelado custou a acreditar que elas eram um casal.

A noite seguimos para Campinas, nossa intenção era ficar em nosso apartamento, mas Carmem não deixou, outra recepção nos aguardava na chácara, Vô Elias estava sentado no alpendre, aparência cansada, mas com um sorriso sincero caminhou em nossa direção. Abraçou- nos demoradamente, ficamos os três unidos naquele abraço cheio de saudade, sentimos muita falta desse calor familiar em Boston.

As festas de fim de ano passamos todos juntos, exceto pelo Vô Antenor que regressou a Valença no mesmo dia que chegou, revelou-me que minha vó atravessava um câncer avançado, mesmo com todo tratamento novas metástases surgiam, foi orientado por Tio César a não prolongar o sofrimento dela, e assim pediu-me que antes de voltar a Boston a visitasse na fazenda. Camila lembrava que algo ruim acontecera entre nós mas não sabia ao certo o que, e talvez por isso garantiu ao Vô Antenor que acataríamos seu pedido.

Passamos nosso reveilon no nordeste a convite de Olivia e sua namorada, Bernardo nos acompanhou, estava com outro namorado, um advogado muito chato e nervoso, que pagava uma de hetero em público, era ridículo, Olívia e eu repreendemos veementemente a nova escolha de nosso amigo que se justificava dizendo que devolvia os abusos do tal boyzinho com muito chifre... Era o mesmo debochado de sempre o Bernardo.

A praia de Boa Viagem em Recife estava linda, o hotel que ficamos disponibilizou várias tendas com buffet na areia, a queima de fogos coloridos e aquele clima litorâneo contrastava com o nosso reveilon anterior, mas o sentimento otimista sobre o ano vindouro era o mesmo.

Conhecemos Recife juntas, o agito do começo de noite do Recife antigo, com o ensaio e desfile dos grupos de maracatu, as feirinhas de artesanato, os shows de MPB no Marco Zero. Conhecemos ainda Olinda, e suas ladeiras históricas cheias de cor e ritimo, avistamos a orla recifense do alto da vista da Sé, nos deliciamos com as tapiocas, e enchemos as bolsas com souvenirs locais. As praias eram um show a parte, pelo pouco tempo que tínhamos só nos detivemos na praia Maria Farinha, bebemos tanta cerveja que sequer um táxi conseguíamos chamar... O namorado chato do Bernardo, precavido, pegou o telefone de um taxista e assim providenciou nossa volta ao hotel.

Depois de quatro dias na capital pernambucana, seguimos para Belo Horizonte, para cumprir nossa promessa de visitar a Vó Helena, não queria voltar á fazenda, não era do meu feitio voltar atrás no que dizia e prometera nunca mais pisar lá enquanto ela estivesse viva, no entanto minha consciência pesou mais, e apoiada pela segurança do amor de Camila que já estava totalmente recuperada, segui para Valença para despedir-me de minha vó, perdoá-la enfim.

Já no aeroporto, Lívia nos revelou que vovó havia sido internada, fomos assim direto ao hospital, toda a minha família estava pelos corredores, alguns cumprimentavam friamente a mim e a Camila, outros eram fervorosos nos abraços, mas aquilo nem nos incomodava, nosso objetivo ali era outro: eu perdoar vovó e Camila me apoiar.

No quarto, apenas Vô Antenor e Tia Sílvia estavam com vovó, depois de nos abraçarmos, sentei ao lado do leito de vovó que estava de olho fechados.

- Vovó Helena?

Abriu os olhos lentamente, estava abatida, pelo menos 20kilos a menos, cabelos falhos, rosto ressecado, lábios feridos. Seu olhar era triste, ao me ver esboçou um sorriso, segurou minha mão com a força máxima que pode.

- Isa minha querida... Pensei que morreria sem ver você.

- Estou aqui vovó...

- Estou orgulhosa de você, seu avô me disse... Estás pesquisando no exterior?

- Sim vovó, em Boston, estou apenas de passagem pelo Brasil.

- Perdi tanta coisa de sua vida por causa da minha intolerância...

Baixei meus olhos, experimentando o ressentimento das palavras duras que ela me destinou quando eu estava com Suzana. Olhou minha mão esquerda e vendo minha aliança continuou:

- Soube também que você casou... Está feliz?

- Sim vovó muito. Ela está aqui comigo, está lá fora com Lívia.

- Quero vê-la.

Não podia acreditar nisso, mas não questionei, pedi que tia Sílvia a fizesse entrar, Camila adentrou o quarto com um olhar de interrogação assustado.

- Venha cá minha filha, fique aqui perto de sua mulher.

Assim Camila o fez. Vovó Helena segurou nossas mãos juntas, e com uma sinceridade tocante nos abençoou:

- Sei que vocês não precisam de minha benção, vejo que o amor é fonte de toda graça, e isso é abundante em vocês duas... Mas mesmo assim, quero abençoar vocês, e pedir perdão por minha estupidez especialmente a você minha neta, você é meu orgulho, nunca foi minha decepção.

Não contivemos as lágrimas, abracei Vovó deitando- me no leito ao lado dela, como fazia quando criança em seu colo.

Retornamos no dia seguinte para Campinas, nosso vôo para Boston partiria em dois dias. Depois de uma pequeno almoço de despedida, embarcamos de volta para os EUA, dessa vez o aperto no peito era menor, talvez pelo alívio de ter me reconciliado com Vovó, mesmo sabendo que aquela seria a última vez a vê-la viva.

O choque do verão brasileiro com o inverno nos EUA detonou com nossas energias, antes de voltarmos a nossa rotina de pesquisa, Camila e eu nos demos folga, alugamos dezenas de dvds, e não nos desgrudamos uma da outra por dois dias, só namorando e fazendo planos, definimos nossas próximas férias na Europa, eu não conhecia, mas Camila sim, e por isso fazia questão que conhecesse tudo ao seu lado.

E nessa atmosfera de amor tranquilo e paixão na cama, nossa história ia sendo construída, logicamente brigávamos por bobagens como qualquer casal, me descobri uma ciumenta terrível quando Camila começou a trabalhar com acadêmicas em sua pesquisa, as meninas, mais novas que eu, só faltavam babar no chão que minha mulher pisava, não só por sua beleza, mas por sua atitude, inteligência e segurança. Nas férias de verão colocamos em prática nossa viagem de férias e foi tudo perfeito, conhecemos Paris, Berlim, Roma, Londres, Irlanda, grande parte do trajeto fizemos de trem desfrutando do romantismo de suas cabines luxuosas.

Passamos em Boston, três anos no total, sempre que podíamos escapávamos para alguma cidade americana para uma nova lua- de- mel, que nem era necessária, mas assim saíamos da rotina. Conhecemos Miami, até para matar a saudade do sol e das praias, Los Angeles, Washigton, até nos aventuramos em Las Vegas. Trabalhávamos muito, na fase final do mestrado, nossa relação estremeceu, tamanho era minha insegurança por passarmos menos tempo juntas do que Camila e as tal acadêmicas. Camila como sempre, exemplo de sensatez me deixava brigando sozinha, até que eu me rendesse e lhe pedisse desculpas, as quais ela aceitava me cobrindo de beijos.

Enfrentamos uma maratona de apresentações em congressos internacionais da nossa pesquisa: Canadá, Espanha, Inglaterra, Turquia, já havíamos concluído, mas Prescott fazia questão de nossa participação nesses eventos, alguns fomos como convidadas especiais, em outros participávamos como meras pesquisadoras. Aproveitávamos para fazer turismo, e acabamos nos divertindo muito.

No final de 2008 regressamos ao Brasil, com as malas cheias de publicações, convites para grupos de pesquisas e propostas de financiamento de novos projetos.Voltamos a trabalhar no mesmo hospital, e eu me preparava para o concurso da UNICAMP, queria mesmo lecionar e continuar na pesquisa, a clínica não me atraía tanto.

Eu e Camila, crescíamos juntas profissionalmente (ela logicamente bem mais que eu), na intimidade, cumplicidade, nossa paixão não arrefecia, sempre buscávamos apimentar com uma coisa ou outra, mas as vezes a rotina nos surpreendia, chegamos a passar semanas sem nos amarmos, mas nunca por falta de desejo, sempre por falta de tempo ou cansaço, mas dormíamos sempre grudadas. Sabíamos como a outra estava sem trocar uma palavra, as vezes mesmo longe, quando precisávamos viajar sozinhas, sentíamos a presença uma da outra.

Pensava as vezes como o amor é sutil em suas demoras, como é simples e acalentador, quando permitimos que ele se baste em uma relação. Ele não surge com a pretensão de ser o único, nem muito menos de ser igual a outro amor. Quando é amor, tudo acontece naturalmente, e mesmo que não dê certo, sempre deixa alguma coisa em nós, cabendo a cada um manter apenas as marcas que nos fazem ser uma pessoa melhor, disponível para o amor.

Descobri com Suzana o que é amar uma mulher, descobri também o que é sofrer por ela, experimentei céu e inferno na terra. Mas também aprendi que com amores também se vão, porque se não houver abdicação, respeito, ele se despedaça... Camila me reconstruiu, aliás o amor dela me refez, não me entreguei pela metade esperando ela me completar, ela me fez crescer e ficar inteira pra ela, pra juntas construirmos nossa história, acredito que é nisso que consiste amar, é capacitar o outro a estar inteiro, dois meios nem sempre forma um inteiro, por meio pode ser só um pedaço, e nenhum amor é duradouro quando apenas pedaços de pessoas se relacionam.

Vivo com Camila esse amor, inteiro, real, palpável, maduro, e nem por isso é monótono ou sem perspectivas. Ontem ela viajou para o exterior sem mim, preciso ministrar aulas na faculdade onde hoje sou professora, encontrei aqui no desktop do meu notebook um recado dela, junto com o video de Titãs

“Escute a música, leia a letra...te amo, te levo comigo, até daqui a pouco minha vida...”

Porque eu sei que é amor Eu não peço nada em troca
Porque eu sei que é amor Eu não peço nenhuma prova
Mesmo que você não esteja aqui O amor está aqui
Agora Mesmo que você tenha que partir
O amor não há de ir Embora
Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar E eu peço somente
O que eu puder dar

Porque eu sei que é amor Sei que cada palavra importa
Porque eu sei que é amor Sei que só há uma resposta
Mesmo sem porquê eu te trago aqui
O amor está aqui Comigo
Mesmo sem porquê eu te levo assim
O amor está em mim Mais vivo
Porque eu sei que é amor

Esse é o meu amor, essa é minha vida, até quando durar, e eu espero que o pra sempre seja longo, seja na sua essência o amor pra vida toda.

FIM

domingo, 9 de outubro de 2011

1ª temporada: Porque sei que é amor

CAPÍTULO 30: PARTIDA E MUDANÇA



Esperamos até o Natal para passarmos com nossas famílias, pela primeira vez, tia Sílvia e Lívia vieram de Valença para passarmos juntas na chácara de minha sogra. Foi mais que uma ceia natalina, foi nossa despedida, partiríamos em dois dias, era nosso plano passar o reveillon em New York.

Trocamos presentes, confraternizamos, mas estavámos já saudosas daquele aconchego familiar, sabia que sentiríamos muita falta de tudo, Vô Elias era o mais emocionado, temia que não nos víssemos mais. Alguns dias antes ele nos revelou estar sonhando muito com meus pais, com o Sr. Ernesto e com sua falecida esposa, deduzia que isso era sinal de que sua hora estava chegando.

Rapidamente tratamos de afastar esse pensamento dele, fazendo com que ele prometesse que só nos deixaria quando estivéssemos de volta ao Brasil, ele sorriu como se não acreditasse isso ser possível, mas concordou.

No dia 27 de dezembro, o aeroporto de Cumbica mais parecia um encontro familiar, uma procissão nos seguiu para despedir-se de nós. Meu vô veio de Valença, acompanhado por Tio César, mesmo felizes com nosso sucesso e nosso casamento, todos choravam, inclusive nós, mas enfim era hora de partir, uma nova etapa nos esperava, e eu mais uma vez: nova vida, novo lugar.

Chegamos a Boston no dia seguinte, estava frio, muito frio, o orientador de Camila nos aguardava, foi muito simpático, um homem alto, muito branco, cabelos grisalhos extremamente lisos, olhos verdes, o gringo típico. Levou-nos até o hotel, simples, mas tinha o necessário, e era perto de tudo, estação de metrô, lojas, supermercado, e não era tão longe de Harvard.

Descansamos o resto do dia, o fuso mexeu com nossa resistência, depois de ligarmos pra nossas famílias, caímos no sono, jantamos a noite no hotel mesmo, o frio estava de rachar, preferimos não sair.

No dia seguinte, conhecemos os apartamentos que a imobiliária nos reservou, e nenhum nos agradou completamente, o que faltava em um, no outro tinha, mas faltava sempre alguma coisa, optamos pelo conforto e localização, apesar de não ter o tamanho que desejávamos, a cozinha era minúscula, mas ao menos nosso quarto era espaçoso e iluminado, e a mobília era razoável, essa foi nossa escolha. Acertado o apartamento, nos encontramos na Universidade, com o orientador de Camila, que apresentou, o Prof. Haris, que seria meu orientador, era mais jovem, alto, cabelos pretos, mas sua pele era clara, olhos também verdes, era um homem de seus quarenta anos, bonito, com algum charme intelectual. Marcamos algumas orientações, que se iniciariam na primeira semana de janeiro, Camila tinha mais tempo, mas não queria esperar, convenceu seu orientador a iniciar o quanto antes a sua pesquisa.

Viajamos para New York na véspera do reveillon, e lá não perdemos tempo no hotel, pagamos mico de turista mesmo, contiuando o clima romântico de lua-de-mel, andamos pelo Central Park, passeamos de charrete de mãos dadas, a cidade favorecia o romantismo apesar do frio, as luzes, a decoração natalina, não tinha o calor humano do nosso país, mas era fácil encontrarmos brasileiros posando pra fotos nos atrativos turísticos. Curtimos a virada do ano abraçadas, Camila envolvida na minha cintura, descansando o queixo no meu ombro vendo a queima de fogos:

- Que nosso ano seja maravilhoso como esse está terminando meu amor...

- Que nossa vida seja sempre assim, com você nos meus braços minha vida...

Enquanto fazíamos pequenas promessas de acertos na nossa convivência pro ano que nos esperava, ouvimos uma voz conhecida, bem perto de nós:

- Que seja um ano bom para nós todas!

Não podia acreditar, Suzana diante de nós, ao seu lado, Pietra, fazendo cara de poucos amigos, definitivamente, ela não gostava de mim. Camila, pra minha surpresa, soltou-se de meus braços e deu um abraço curto, educado, como se cumprimentasse uma velha conhecida em Suzana, e deu dois beijinhos de comadre em Pietra, desejando um bom ano para ambas. Eu estava chocada, mas, repeti o gesto cordial de minha mulher.

- Mundo pequeno Suzana, vejo que você está recuperada, ficamos satisfeitas com isso não é amor? – Camila tentava agir naturalmente.

- Estou bem Camila, obrigada por perguntar, na verdade vim pra ver um especialista, estou na fila em Campinas pra inserção do neurochip da pesquisa de vocês.

- Se te interessar, estou fazendo o meu pós doutorado em Boston, então se você quiser se inscrever no programa pra inserir aqui...

Suzana até se interessou pela proposta de Camila, eu não podia acreditar que ela estava fazendo isso, mas enfim, não sentia mais nada por ela, quando a vi, sequer aquele desejo, atração que senti as outras vezes eu experimentei.

Confesso que a expressão de insatisfação de Pietra me incomodou, mas nada que estragasse o meu reveillon com minha linda mulher, que mais uma vez me dava provas de sua superioridade de caráter, exibindo toda sua polidez com Suzana que por pouco não estragou nosso relacionamento.

Esse encontro quase surreal terminou com a troca de nossos contatos telefônicos em Boston, Suzana ainda teve a ousadia de nos convidar para fazer um programa juntas, os dois casais, assistir alguma peça na Brodway... A cara de espanto da namorada dela foi a melhor! Tive que me desviar das balas certeiras que ela disparou com o olhar...

Seguimos para o hotel rindo da situação, para meu alívio Camila percebeu que não existia mais entre mim e Suzana aquela energia que tomava a atmosfera quando nos reencontramos anteriormente, talvez por isso ela tenha agido tão despreocupadamente diante dela.

Fizemos amor até a exaustão, ainda movidas pelo romantismo da cidade, era incrível as facetas que minha mulher mostrava debaixo dos lençóis... Dominava meu corpo de todas as formas: com suavidade, com paixão, com autoridade, com sutileza...muitas vezes me fazia gozar sem sequer me penetrar, ela conhecia as reações dos meus sentidos como ninguém, e talvez por isso, nenhuma vez que fazíamos amor era rotineiro...

Voltamos para Boston no dia 2 de janeiro, minha primeira orientação estava marcada para o dia 3, uma quarta-feira. Nossas coisas já estavam no nosso apartamento, não trouxemos muitas roupas do Brasil visto que precisaríamos de muitas roupas que não usamos em nossa terra, assim não demorou muito arrumarmos tudo no closet apertado de nosso quarto.

À noite, tratamos de encher nossa dispensa com o máximo de alimentos parecidos com comida de gente que encontramos no supermercado, percebi que sentiríamos muita falta de comida brasileira, especialmente do arroz com feijão, e a varidade de frutas de nossa terrinha.

No dia seguinte, estávamos cedo na universidade, de metrô era bem rápido, gastamos cerca de 20 minutos. Camila me deixou com o Prof. Haris no escritório dele e seguiu para encontrar o Dr.Prescott seu orientador. Apavorei-me com a rigidez do meu orientador, e confesso que me perdi muitas vezes no nosso diálogo, meu inglês não era tão bom quanto eu pensava... Algumas vezes ele se irritava em me repetir algumas coisas, que vontade de correr dali na mesma hora e voltar pro colo de minha mulher, lugar mais seguro do mundo!

Saí da reunião com um calhamaço de artigos científicos, uma lista kilométrica de referências bibliográficas, e um mundo de preocupação nos meus ombros, passei direto para a biblioteca afim de encontrar tudo que aquele aprendiz de ditador me recomendara.

Perdi a hora naquela imensidão de livros, não sabia nem por onde começar a ler, foi me batendo um desespero, uma vontade de chorar...quando senti uma mão no meu ombro, e um beijo na minha testa.

- Pensei que tinha perdido minha mulher aqui, você viu uma loira linda zanzando por aí?

- Ai amor... Me leva pra casa...

- Se minha mulher te escuta você me chamar assim...

Sorri, e beijei o seu rosto, recebendo um afago que dissipava minhas angústias, ela mesmo recolheu tudo na mesa, e me puxou pela mão, me levando pra casa. No trajeto, contei sobre meu pavor com as exigências do Prof. Haris, Camila tratou de me acalmar e disse que me ajudaria em tudo, com a experiência dela isso seria bastante últil.

Os meses que se seguiram foram de estresse, a saudade do Brasil, as exigências do mestrado, o pouco tempo que tínhamos juntas. Emagreci mais de cinco kilos, Camila tinha paciência de Jó comigo, muitas vezes deixava de pesquisar seus trabalhos para me ajudar e me acalmar. Os únicos momentos que eu me sentia inteira, era quando me aninhava nos seus braços, depois de nos amarmos, Camila era muito mais do que uma amante sensacional, ela era meu porto seguro, minha referência de mim mesma.

Vimos o tempo passar, o frio ir indo embora as poucos, estava mais acostumada com os ataques do prof. Haris, fizemos algumas amizades, muito diferentes das que tínhamos no Brasil, mas eram boas companhias para um happy hour, saíamos muito pouco, no máximo jantávamos fora, ou comparecíamos a alguns convites de festas de aniversário de colegas. Camila alcançava como esperado grande sucesso nas pesquisas, junto com o departamento de medicina biofísica e o de informática fez aperfeiçoamentos no neurochip, restando as experiências práticas para avaliar os resultados.

Seis meses se passaram, mais adaptadas a rotina, organizamos melhor nosso tempo e assim pudemos fazer passeios pelo Rio Charles, o Boston Public Garden, sendo uma cidade cercada por água, a enseada sempre oferecia passeios agradáveis, aproveitamos o bom tempo de verão para desfrutar disso. Nunca mencionamos nosso status de casadas, as pessoas nem pareciam interessadas nisso, e além do mais éramos discretas, manifestações de carinho em público até que aconteciam, mas nunca na universidade.

Fomos convidadas pelo Dr.Prescott para assistirmos em uma espécie de pub as finais do campeonato de beisebol, ele era um fanático pelo Red Sox, assim, fechou o tal bar para assistir com torcedores esse grande jogo, para não desapontá-lo topamos, apesar de que eu, mesmo com longas explicações de Camila, não entendia como funcionava esse esporte. Ficamos perto do telão, no balcão, me detinha mais em beber do que naquela correria por bases do campo, ignorando a empolgação dos torcedores, Camila ria do meu completo desinteresse. O chato do prof.Haris nos observava de longe, sentado em uma mesa, sujeito antipático, ainda não conseguia ficar a vontade com ele.

-Amor, vou ao banheiro que ir comigo? – mordi os lábios, já meio alta pelo alcóol, dando a entender minha intenção em ficar a sós com minha mulher.

- Agora amor? Espera esse lance... – Camila fixava os olhos no telão, como todo o resto do bar, me sentia na final do brasileirão de futebol.

-E’ agora... Já...

- Mas amor...

-Camila Drumond, você vai me trocar por um bando de mané com o pau na mão batendo em uma bola e correndo atrás dela?

Camila arregalou os olhos, mas não conteve um sorriso divertido ao me ouvir proferir aquelas palavras com um jeito profundamente irritado.

- Ai que meda!

- Ah vai catar coquinho!

Saí do balcão indignada em direção ao banheiro, para minha surpresa, Camila não me seguiu, o que me deixou ainda mais irritada. Resmungava sozinha em português enquanto lavava minhas mãos, quando percebi braços me puxando para trás, não eram os de Camila, eu conhecia o cheiro, o toque, a aproximação dela. Virei-me imediatamente, deparando-me com o rosto vermelho e suado do prof. Haris esfregando-se em mim, me provocando náuseas, uma repulsa gigantesca. Empurrei-o com todas as minhas forças contra a pia, fazendo menção de correr dali, mas ele puxou-me com violência pelos cabelos, forçando minha entrada em uma das cabines, quando tentei gritar pedindo socorro, ele me sufocou com sua mão, sentia aquele membro ereto entre minhas pernas me despertando um desejo quase assassino de decepá-lo e jogá-lo na descarga ali mesmo.

Notei ele baixar suas calças com uma das mãos, já que com a outra sufocava minha boca, esperneei, lutei com meus braços e pernas para empurrá-lo, mas era inútil, queria ao menos fazer algum barulho suspeito, mas ele apertava sucessivas vezes a descarga escondendo os pequenos barulhos que eu conseguia fazer. Fui tomada de desespero, as lágrimas começaram a rolar por minha face, o ar começou a faltar, ficando assim mais vulnerável, ele sorria sadicamente levantando meu vestido, não podia acreditar no que estava me acontecendo, queria matá-lo.

Ouvi passos se aproximando no banheiro:

-Isa? Meu amor, você está aí?

Retirei forças não sei de onde, bati minha testa na testa daquele ser desprezível, o que fez ele soltar a mão da minha boca e gritei:

- Socorroooo

Uma forte batida na porta da cabine rompeu a tranca, Camila mesmo apavorada por me ver com o vestido levantado, rosto marcado pela violência dele, sendo eu muito branca, e aquele homem de calçar baixas ofegante, reuniu suas forças e o puxou pela camisa, arremessando-o contra a pia, como estava de calças baixas, estava sem equilíbrio, bateu com a cabeça caindo inconsciente imediatamente.

Nem olhou para aquele homem asqueroso caído no chão, correu para me abraçar, eu estava em estado de choque, tremia, respiração curta, estava apavorada, Camila também estava, mas me abraçava tão forte que chegava a doer meus ossos...

- Eu tô aqui meu amor, já passou, perdão por ter demorado tanto, sou uma idiota!

Logicamente eu não culpava Camila, mas não conseguia falar algo para minimizar sua culpa, agora olhava para prof.Haris, desamaido no chão do banheiro, quando alguém entrou se assustando com a cena. Não sabia o que fazer, ou dizer, a mulher que entrou deu meia volta, retornando com alguém da gerência do bar. Mais calma, Camila tomou a frente da situação explicando o que houve, pedindo que chamassem o Dr. Prescott, nesse momento, prof. Haris se mexia, fazendo menção de levantar-se.

Em minutos aquela situação fugiu de nosso controle, o gerente do bar chamou algum médico para examinar prof. Haris, nem nos oferecemos, o Dr. Prescott estava transtornado, xingando com palavras de baixo calão o colega, que estava tonto, enquanto eu me mantinha em estado de choque abraçada a Camila.

Tudo que eu queria era sair daquele lugar, felizmente não aconteceu nada grave com o asqueroso Haris, não porque eu ligasse se ele estava vivo ou morto, mas por causa das implicações disso para mim e Camila. Dr.Prescott não nos deixou voltar de táxi, foi pessoalmente nos deixar, ele tratava Camila como um pai cuidadoso, sua mulher sempre nos mandava alguma torta, era nossa referência de família em Boston.

Naquela noite, Dr.Prescott decidiu que brigaria no departamento para também ser meu orientador, apesar das regras da universidade, ele estava certo de que com seu prestígio seria atendido, dadas as circunstâncias, orientou-me a formalizar uma queixa, o que Camila concordou, mas eu não tinha disposição para pensar em nada, só queria apagar da minha memória a imagem daquele homem me tomando a força, seu cheiro e expressões nojentas, sentia uma ânsia de vômito cada vez que relembrava a voz dele ofegante perto de mim.

Ao chegarmos ao apartamento, Camila me despiu com delicadeza, eu só chorava sem conseguir dizer uma só palavra, colocou dentro da banheira, e banhou-me como se quisesse tirar do meu corpo qualquer marca desse trauma, sentia o amor de Camila no gesto de passar aquela esponja suave por minha pele.

Deixou-me descansando na banheira e preparou-me um chá calmante, suspeito que colocou alguma medicação sonífera nele, já que não lembro de nada mais, do que ela vestindo meu roupão me levando pra nossa cama, envolvendo-me em seus braços e assim acordei com o dia claro só, e pra começar meu dia, contemplei a face tranquila de minha heroína, meu amor, minha mulher, minha vida, desfrutando o sono dos justos.

-Bom dia meu amor, dormiu bem?

-Hurrum...você me deu alguma coisa pra dormir?

-Desculpe-me amor, mas sabia que você não ia querer se eu te desse, coloquei no chá...você estava precisando.

- Sim...

Caíram facilmente pelo meu rosto algumas lágrimas, Camila puxou-me para perto do seu corpo me afagando.

- Esse homem vai pagar por isso meu amor. –Senti nas palavras de Camila um ódio visceral.

- Por favor Cami, só quero esquecer isso, não quero nunca mais vê-lo, e você vai me prometer não fazer nenhuma besteira.

- Isa! A gente vai denunciá-lo no departamento, não vou sossegar até que ele seja afastado das funções dele, e ter seu nome enxovalhado na comunidade acadêmica.

- Cami...isso só vai me fazer lembrar dessa noite que quero esquecer...

- Então você vai deixar que ele faça isso com outras orientandas?

A pergunta de Camila me deixou pensativa, não podia mesmo deixar um ato desses ficar impune. Na segunda-feira, para minha surpresa, Dr.Prescott já havia se adiantado, falando pessoalmente com a reitoria de pós-graduação, e o chefe de departamento que designou minha pesquisa a ele como fora solicitado. Para abrir um processo institucional minha queixa era necessária, assim, apresentei-me ao departamento junto com Camila, minha principal testemunha, para cumprir minha obrigação moral.

Pela reação do chefe e diretor do departamento, o meu caso não fora o primeiro, mas as investigações nunca avançaram porque as orientandas dele não prestavam queixas, suspeita-se que ele as chantegeavam, ameaçando acabar com o financiamento da pesquisa. Fomos alertadas que poderíamos ser alvo de perseguição dele, que seria imediatamente afastado de suas funções, mas Camila não demonstrava qualquer medo, estava segura, e só por isso me senti convicta a prosseguir com esse processo.

Eu, Camila e Dr.Prescott passamos a trabalhar juntos, assistia aulas de manhã e de tarde ficávamos sempre no laboratório ou biblioteca, muitas vezes só eu e Camila, e assim, nossa pesquisa fluiu tranquilamente. Acordava a noite as vezes com pesadelos, mas sempre era acalmada pela voz de minha mulher perto de mim:

- Estou aqui pra te proteger meu amor, foi só um sonho ruim...

Suzana não entrou em contato conosco, o que pra mim foi bom, não a queria em nossas vidas de novo, fomos informados que Dr.Bruno realizou a inserção do neurochip dela em Campinas, portanto não precisou dos serviços de Camila mais uma vez. Passamos cerca de dois meses sem ver o Haris no Campus, conseguimos o testemunho da moça no bar que nos encontrou, assim ficou ainda mais fácil.

Em outubro, Haris surgiu para importunar, cercava-nos pelos corredores, pelos jardins a uma certa distância como se quisesse impor terrorismo, fomos informadas pelo departamento que ele estava prestes a ser exonerado, mas não podia proibir a entrada dele se ele não se aproximasse de nós, ou nos desacatasse de alguma forma. Em uma tarde, esperava Camila no laboratório, e me preocupava com sua demora, ela geralmente chegava antes de mim, um atraso de meia hora foi suficiente para eu sair pelo campus a sua procura.


Não estava na biblioteca, nem no refeitório, segui pelos jardins ligando para seu celular, não tinha resposta, só chamava, senti meu peito sendo comprimido por uma angústia massacrante, apressei meus passos insistindo em ligar, perto de uma escadaria que dava acesso a um jardim no subsolo ouvi a campainha do celular de Camila, saí seguindo o som pulando os degraus, sabia que algo ruim estava acontecendo.

Pude ouvir uma voz masculina ofegante dizendo em inglês:

- Vou te fazer mulher de verdade sua sapa vagabunda...ensinar como se trata um homem!

Acelerei ainda mais meus passos, e vi Camila estendida no chão, inconsciente, com manchas de sangue pelo rosto, braços, aquele homem asqueroso sobre ela, mexendo no seu membro, buscando despir a parte de baixo da roupa de minha mulher, não tive dúvidas, peguei um balde de zinco que estava no jardim, e acertei-o por trás, ele caiu, e partiu em minha direção em seguida, olhei rapidamente pro lado e uma tesoura de polda estava em cima de uma estátua decorativa, lancei mão dela apontando contra ele, ficando perto de Camila ainda inconsciente:

- Venha, se aproxime de mim ou de minha mulher que eu te mostro como um verme como você deve ser tratado!

Ele ria como se duvidasse que eu teria coragem de deferir qualquer coisa contra ele, e partiu em minha direção, cortei seu braço e seu rosto, provocando um grito alto dele:

- O próximo corte será nesse seu pênis doente e ridículo, ele vai virar comida de cachorro!

Assustou-se com a ameaça verdadeira nas minhas palavras, mas ainda tentou tomar de mim a tesoura, foi quando o jardineiro do campus de aproximou empurrando-o para o canto, ficando entre ele e eu que protegia Camila, machucada aos meus pés.

Haris tentou se levantar, mas o jardineiro o segurou com força, pediu que eu chamasse um segurança, mas não consegui, precisava saber de Camila, precisava ficar ali com ela, nem sabia que ferimentos ela fora alvejada, liguei para o Dr. Prescott enquanto examinava Camila superficialmente, e pra meu alívio senti sua respiração, fraca, mas existia. Em menos de dois minutos o segurança do Campus se apresentou, algemando Haris e o levando dali, Prescott chegou depois, informando que a ambulância já estava a caminho.

Pela minha avaliação, sabia que o estado de Camila era grave, possivelmente algum trauma crânio-encefálico, não tinha reflexo pupilar, tentava me manter calma para ajudá-la, mas toda minha medicina parecia nada valer ali, fui apenas a mulher dela, desperada, suplicando a Deus que não a tirasse de mim, segurando sua mão, hora eu falava com ela, hora eu rezava:

- Senhor não me tire meu amor...C ami fica comigo minha vida, não me deixe...

A ambulância chegara e os paramédicos foram de uma rapidez cinematográfica, começaram ali mesmo o atendimento. Eu não saía de perto, tentando obter alguma boa notícia sobre o estado de Camila, como se eu não soubesse da sua clínica atual. Acompanhei Camila na ambulância, continuando na minhas orações, Prescott seguiu de carro, em menos de dez minutos estávamos no hospital.

Não permitiram minha entrada nas salas de exames, como médica eu sabia que uma pessoa emocionada perto de um ente querido em risco de morte só atrapalhava o atendimento, mas não queria sair do lado de Camila um só instante, sentia que ela precisava ouvir minha voz a chamando de volta à consciência.


Prescott chegou e me segurou no corredor, dizendo-me palavras confortadoras, mas eu sequer raciocinava, meu pensamento era só Camila, uma hora se passou, mas para mim pareceu um dia, e então o médico da urgência procurou por um familiar de Senhorita Drummond:

- Sou sua mulher doutor, pode falar, sou médica, então não me poupe detalhes.

O médico fez cara de espanto, mas reconheceu Prescott, neuro-cientista de renome, não quis questionar a veracidade de meu parentesco com Camila, e por insistência de Prescott que se apresentou como amigo, ele relatou:

- A Senhorita Drumond sofreu alguns traumas no abdome, tórax, escoriações, mas nada grave, nossa demora se deu porque estávamos realizando exames de imagem que confirmaram um traumatismo craniano moderado. Ela não está em coma, mas ainda está inconsciente, a boa notícia é que não há hemorragia, e ela respira sozinha.

- Posso vê-la doutor? – estava ansiosa, precisava eu mesma averiguar tudo.

- Siga-me por favor.

Nunca imaginei ver meu amor naquele estado, seu rosto que eu tantas vezes acompanhei dormir sereno, estava machucado, inchado ao redor do olho esquerdo, seus lábios cortados, no nariz, uma cânula de oxigênio, queria eu estar no lugar dela, me rasgava a alma ver meu amor naquele leito. Aproximei-me do seu ouvido contendo os soluços do meu choro, murmurando:

- Minha vida, estou aqui do seu lado, fica comigo...

Prescott ficou ao meu lado na cama puxando meu ombro:

- Ei, vai ficar tudo bem minha querida, vamos deixá-la descansar, você sabe que ela pode demorar a acordar, venha comigo, vamos tomar um café.

- Não, desculpe-me, mas só saio de perto dela quando a ver despertar, nem que demore dias, eu ficarei aqui, quero ser a primeira imagem que ela verá quando estiver consciente.

Ele sabia que não adiantava insistir, ninguém me tiraria dali, pensei em ligar para a nossa família e contar o que houve, mas o que eu diria? Nem sabia o que aquele verme tinha lhe feito, o estado de Camila era estável, assim, poderia esperar um pouco para dar a notícia no Brasil.

Minha poltrona estava colada ao leito de Camila, quando de madrugada, senti um movimento na sua mão, a qual eu segurava, ela estava despertando:

- Cami, meu amor, fala comigo...

- Onde estou?

- Em um hospital, você sofreu um traumatismo craniano, mas vai ficar tudo bem meu amor.

- Mas...como vim parar aqui? E..quem é você?

Por segundos fiquei chocada com a pergunta, mas eu sabia que um traumatismo desse tipo podia causar confusão mental, déficit de memória, pra não citar outras seqüelas mais graves. Tentei não transparecer desespero, e respondi compassadamente, até para me acalmar junto.

- Camila, sou eu, Isabela, sua mulher, você foi agredida por um ex-professor meu, está inconsciente desde ontem.

- Mulher? Você é minha mulher? Mas como assim?


Nossa... Era tudo que eu precisava, minha mulher perder a memória homossexual...voltar a consciência como hetero, um turbilhão de pensamentos tomaram conta de mim, respirei fundo, e continuei:

- Cami, descanse, vou chamar o plantonista para lhe avaliar.

- Mas você vai me deixar aqui sozinha?

Senti aquela mulher que sempre foi para mim, referencial de segurança, frágil, carente, não podia mesmo deixá-la sozinha, chamei a enfermeira pela campainha para informar sobre o despertar de Camila, e voltei-me a sentar do seu lado no leito.

- Não vou te deixar sozinha nunca, estou aqui do seu lado, sente alguma dor?

- Um pouco, nas minhas costas e cabeça.

- Você tem alguns hematomas nas costas, por isso.

Como um gesto impulsivo, segurei sua mão, e acariciei seus cabelos, Camila franziu a testa, me olhava estranho, afastou a mão, e mesmo sabendo que ela não estava em seu estado normal, aquilo me doeu profundamente. Durante o tempo que ficamos sozinhas, ela parava seu olhar no meu algumas vezes, mas desviava quando notava que eu percebia sua atitude. O plantonista chegou e começou a fazer perguntas básicas a Camila, mas ela não parecia entender o inglês, percebendo isso, traduzi tudo o que ele dizia e também o que ela perguntava.

Exatamente como supus, o déficit de memória era parcial, e era também temporário, poderia durar horas, dias, meses, era necessário aguardar. O mais importante é que nenhuma seqüela grave havia sido diagnosticada. Camila foi sedada mais uma vez, e eu continuei ali na poltrona do hospital ao lado dela. Logo cedo, Meredith, mulher de Prescott, trouxe roupas limpas e alguns artigos de higiene, como deixei minha bolsa no laboratório, seu marido tratou de providenciar isso.

Camila também não lembrou de Meredith, mas aquela senhora era tão amável que em pouco tempo ela já aceitava os carinhos dela, ao contrário dos meus que ela parecia sentir medo.

Permanecemos no hospital por alguns dias, o quadro clínico de Camila evoluía muito bem, tinha alguns flashes de memória, e foi aí que me pediu que ligasse para sua mãe, eu, já havia falado com as irmãs dela e com tia Sílvia sobre o que tinha acontecido, assim, Carmem estava preparada para falar com a filha sem se assustar. Deixei-a no quarto sozinha para ficar a vontade falando com sua mãe, já que eu era para ela uma estranha, mas não contive minha curiosidade, deixei a porta aberta e escutei a conversa da porta.

- Mãe, oi, estou bem sim...não, ainda não sei quando recebo alta, mas nem estou com pressa, quando sair devo ir pra casa com a Isabela, e eu nem a conheço mãe, ela disse que somos casadas! Mãe como posso ser casada com uma mulher? E’ estranho ela me conhece em tudo, e eu não sei nada dela, ela é linda, cuida de mim, não saiu daqui por mais de meia hora...não mãe não estou sendo mal educada não, mas quando ela toca em mim sinto uma coisa diferente, é como se fosse natural, estou confusa mãe...está bem, vou me acalmar sim, beijos, te amo.

Esperei alguns segundos e entrei no quarto:

- E aí? Está tudo bem no Brasil? Preocupados com você não é?

- Nem tanto, minha mãe disse que você já tranquilizou a todos.

- Liguei para eles essa semana, tenho matido a todos informados.

- Minha mãe falou que...nos amamos.

- Sim Camila, a gente se ama, somos muito felizes juntas.

- Mas eu sempre...fui...

- Lésbica?

- E’.

- Sempre não sei dizer, sei que você teve namorados, mas faz muito tempo que só teve namoradas, até me conhecer, namoramos, noivamos e casamos, em dezembro completamos 1 ano de casadas.

Camila parecia curiosa sobre sua própria vida, me perguntava detalhes sobre como nos conhecemos, sobre nossa pesquisa, sobre isso ela lembrava quase tudo, reconheceu Prescott quando ele a visitou no terceiro dia de internamento, isso nos deu muitas esperanças. Tentava não pressioná-la, trabalhava em minha pesquisa com o notebook no colo, e ela intervia algumas vezes, indagando sobre nossos casos clínicos, parecia recordar de alguns aleatoramente. As memórias se confundiam com o que eu lhe contava, ela não sabia se tinha lembrado disso, ou se tinha decorado desde que lhe revelei. Mostrei as fotos de nosso casamento, e lembrando do que ela falou para mãe sobre o que sentia quando a tocava, acariciei seus cabelos tenramente, e dessa vez ela permitiu.

Depois de uma semana de internamento, Camila recebeu alta, Prescott e Meredith nos levou para nosso apartamento, devidamente arrumado para nosso reingresso, nosso orientador aproveitou para informar que Haris fora expulso da universidade e se encontrava preso acusado por tentativa homicídio e estupro. Desse episódio Camila tinha flashes de memória, chegando a ter pesadelos durante as madrugadas.

Algumas coisas no apartamento pareciam familiares para ela, por exemplo, sabia onde encontrar algumas peças na cozinha, recordou de histórias e piadas sobre o tamanho de nossa cozinha, mas ainda ficava tímida na minha presença, desviava o olhar quando eu o percebia, sentia sua pele arrepiar quando encostava na minha acidentalmente. Ela explorava o ambiente em busca de lembranças, olhava nossas fotos, inclusive do nosso casamento, em um porta-retrato na cabeceira de nossa cama. Preparei-lhe o jantar, o que a fez lembrar:

- Você aprendeu a cozinhar?

Sorri e respondi:

- Nem um traumatismo craniano te faz esquecer que eu não sei cozinhar?

Rimos juntas, e assim ela parecia se acostumar com minha presença. Eu já estava disposta a conquistar de novo aquela mulher pra mim, se ela não lembrasse de nosso passado, lhe daria um presente inesquecível.

domingo, 7 de agosto de 2011

1ª temporada: Porque sei que é amor: CAPÍTULO 29

CAPÍTULO 29:O CASAMENTO


No início de dezembro intensificamos os preparativos para nosso casamento. Camila fazia mistério sobre algumas coisas e ainda mantinha o jejum... Muitas vezes pedia que eu dormisse em outro quarto, tamanho era o nosso desejo, mas foi firme:

- Não, amor, só depois do casamento!

Convidamos alguns mais chegados do hospital, algumas amigas de Camila, Bernardo, Olívia, da minha família, somente Tia Sílvia, Lívia, meu vô e tio César, temia que os demais não aceitassem bem essa cerimônia simbólica, então, nossos convidados foram mesmo escolhidos a dedo.

Nossa viagem para Boston também estava toda acertada, a princípio ficaríamos em um hotel até escolhermos um apartamento, o orientador de Camila já havia contatado uma imobiliária e reservado alguns para avaliarmos.

Um dia antes da cerimônia, Camila aumentou o suspense, deixou-me sozinha no nosso apartamento para dormir na chácara.

- Por que isso amor? Não sei dormir sem você perto, você sabe disso...

- Isa... Você não é nem um pouco romântica sabia?

Camila tinha um olhar misterioso, mas suas palavras demonstravam alguma irritação com minha impaciência com os rituais do casamento, isso acabou me despertando a vontade de surpreendê-la no dia seguinte, com algo romântico como ela merecia, pra isso tinha que ter ajuda, e ninguém melhor nisso do que Bernardo.

Esperei Camila sair para arquitetar um plano com Bernardo, ele ficou mesmo parecido com o “Bambi”, saltitando descontroladamente. Lembrei-me de quando Camila cantou pra mim no meu aniversário, e a partir disso, bolei com Bernardo a surpresa romântica da cerimônia.

Bernardo telefonou então para o seu atual namorado, vocalista da banda que tocou no aniversário de Camila, ele seria o autor do milagre de me fazer cantar o menos desafinado possível para Camila, a música, como ela adorava hits dos anos 80 eu já tinha em mente qual seria.

Não foi tarefa fácil, entramos na madrugada ensaiando, mas ao final recebi minha autorização para arriscar as notas musicais, por amor todo erro de afinação é perdoado, eu me segurava nessa máxima... Antes de dormir, liguei para minha linda noiva, como sentia falta do corpo dela aninhando no meu esperando o sono chegar...

- Amor, te acordei?


- Não... Acho que também não sei mais dormir sem teu corpo perto do meu, estou com insônia.

- Ah... Então vamos fazer o seguinte, imagine que estou do seu lado, coloca um travesseiro entre suas pernas... Estou fazendo o mesmo...

- Isa... O que você está tentando fazer heim?

- Ué... Tentando te colocar pra dormir!

- Sei... Mas... Assim é que não durmo mesmo...

- Aperta o travesseiro entre suas pernas...

Falava com voz sensual, deixando escapar uma respiração mais forte, sabia que do outro lado da linha Camila estava excitada, e isso me atiçava ainda mais. Continuei nesse jogo de provocações:

- Você está com aquela camisola de seda?

- Sim...

- Toca seus seios por mim... Do jeito que faço, por cima do decote...

- Ai Isaaaaaa, você está me torturando!

- Você se prepara porque nossa noite de núpcias, vai te deixar arrasada viu... Aliás, o que você preparou pra ela?

- Surpresa...

O sábado não poderia nascer mais bonito, clima agradável, sol ameno, precisava me arrumar, disfarçar as olheiras de ansiedade e insônia. Olivia me levou para o salão, foi um dos presentes dela, um “banho de noiva”, massagens, banho com óleos, maquiagem leve, o vestido vesti lá mesmo.

Não cabia em mim tanto nervosismo, parece que só naquela manhã me dei conta que eu era a noiva, e assim todo aquele ritual me equiparava com qualquer mulher romântica que sonhava casar-se com o amor de sua vida, meu pensamento era só um: passar o resto da vida com Camila, fazê-la feliz assim como ela me fazia.

Durante o dia todo, Livinha e Olívia alternaram-se me fazendo companhia, e evitando que eu ligasse para Camila, a única vez que consegui driblar a vigilância ela me atendeu falando baixinho:

- Amor, você não pode me ligar, ficarei mais nervosa ainda!

- Você acha que não estou? Só seu beijo me acalma, estou sem ele há quase 20 horas...

- Vou te cobrir de beijos mais tarde...

Tia Sílvia veio me pegar no salão, eu já estava pronta, ansiosa, olhava pro relógio a cada 5 minutos, marcamos a cerimônia para as 17h, pontualmente às 16|30 eu já estava a caminho da chácara, onde Camila já me aguardava, arrumou-se lá mesmo, por determinação de Carmem, que encarregou-se pessoalmente da preparação da filha do meio em seu dia de noiva.

Escolhi um vestido discreto, de cor champagne, “tomara-que-caia”, na altura dos joelhos, com pérolas bordadas no busto. Nos cabelos, um arranjo de flores naturais singelo, prendendo apenas uma parte das madeixas.

Tia Sílvia estava emocionada, não cansava de repetir como eu estava radiante, enxugou as lágrimas várias vezes durante nosso trajeto, segurava minha mão, que suava gelado, dizendo-me o quanto me amava e o quanto estava feliz em me entregar à mulher que me fazia tão feliz.

A chácara estava linda, fiquei no chalé do Vô Elias até que a cerimônia começasse, mas de lá avistava o que Camila me preparou, toda decoração foi feita com as rosas da mesma espécie que se abriram no dia de nosso primeiro beijo, entendi o porquê dela passar tanto tempo na estufa nas últimas semanas.

Uma grande tenda foi armada no jardim, abrigando o bolo, mesa de docinhos, e ao fundo, uma grande foto nossa, na verdade, nem lembrava de quando e quem tirou tal foto, mas era Camila dormindo com um sorriso discreto nos lábios e eu olhando-a tranquilamente com o rosto bem próximo, isso era rotina nossa, nada mais natural e íntimo entre nós do que essa cena.

Ao lado da tenda, uma espécie de altar foi montado, arranjos de rosas, e flores de diferentes tipos, no mesmo tom de cor enfeitavam o centro, algumas cadeiras brancas dispostas em frente, e no meio um tapete vermelho, por onde entraríamos.

Vô Elias estava pronto, e radiante, distribuindo sorrisos, antes de seguir para o altar e iniciar a cerimônia, foi até o chalé me ver, e com a voz embargada segurando as lágrimas a beira de cair pelo seu rosto enrugado e sereno me fitou enquanto segurava minhas mãos:

- Minha querida, nem consigo descrever o tamanho da minha felicidade nesse dia, meus tesouros preciosos estão se unindo pra iniciar uma vida juntas, tenho certeza que vivi até hoje para testemunhar isso, sem dúvida vocês serão muito felizes, porque sinto o amor encher esse lugar...

Da janela vi Camila entrando conduzida por Carmem, linda, tanto que minha respiração chegou a falhar quando a vi, um sorriso nervoso nos lábios, usando um vestido de alça branco, também na altura dos joelhos, seus cabelos enfeitados com pequenas flores entrelaçadas na trança daqueles fios avelã, ao fundo, apenas dois violões e a voz do vocalista da banda cantando:

Você é assim Um sonho pra mim E quando eu não te vejo
Eu penso em você Desde o amanhecer Até quando eu me deito...
Eu gosto de você E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo O meu melhor amigo
E’ o meu amor...

E a gente canta E a gente dança
E a gente não se cansa De ser criança
A gente brinca Na nossa velha infância...

Seus olhos meu clarão Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho Eu sigo e nunca me sinto só...
Você é assim Um sonho pra mim
Quero te encher de beijos Eu penso em você
Desde o amanhecer Até quando eu me deito...

Tive que fazer um esforço hercúleo para não correr em sua direção a abraçá-la, mas as lágrimas vieram fácil, pra o desespero de Tia Sílvia e Bernardo, que fixava em mim um microfone de lapela segundo as orientações de seu namorado.

- Minha filha você não pode chorar agora, olha a maquiagem...

- Tia, meu amor é lindo não é? Olha que mulher mais linda está me esperando no altar!

- Bichaaaa você já não canta essas coisas e cantar de maquiagem borrada e chorando, vai ficar parecendo show de travesti pobre, por favor, não estrague nossa super produção!

O estilo jocoso de Bernardo dissipou minhas lágrimas, e assim segurei o braço de Tia Sílvia e segui para o jardim, qual não foi minha surpresa, quando da saída do chalé, os dois sobrinhos de Camila surgiram à minha frente, jogando pétalas de rosa pelo caminho que percorri até o tapete vermelho, foi um choque de emoções, mas me detive em fixar meus olhos em Camila, parada no altar, com um sorriso largo e emocionado. Ouvi os acordes do violão, e comecei a cantar enquanto caminhava lentamente:

Eu nem sonhava Te amar desse jeito
Hoje nasceu novo sol No meu peito...
Quero acordar Te sentindo ao meu lado
Viver o êxtase de ser amado

Espero que a música Que eu canto agora
Possa expressar O meu súbito amor...
Com sua ajuda Tranqüila e serena
Vou aprendendo Que amar vale a pena...

Que essa amizade E’ tão gratificante
Que esse diálogo E’ muito importante...
Espero que a música Que eu canto agora
Possa expressar O meu súbito amor...

Vi cair no rosto perfeito do meu amor lágrimas, a sua surpresa foi notória, percebia que Carmem a segurava, cochichando alguma coisa, mas ela sequer desviava o olhar, parecia que ali só existíamos eu e ela, nem sei o quanto desafinei, nem me importava, só de ver a face de Camila se derramando em emoção eu já me sentia recompensada.

Tia Sílvia entregou-me nas mãos de Camila, após trocarem um longo abraço, notava a emoção de todos, inclusive no Vô Elias, que tirava do bolso um lenço enxugando seus olhos nos observando. Camila beijou minha testa, sem nada dizer, mas seu olhar me dizia tudo, sorri, e nos voltamos para o altar para dar início a cerimônia.

- Meus queridos amigos e familiares de meus tesouros Camila e Isabela, é com o coração tomado de emoção, amor, esperança que nos reunimos aqui hoje, para celebrar a união de dois seres, que se encontraram e perceberam, que o amor nasce da voz, do gesto e do olhar e assim resolveram consolidar esse pacto de amor, respeito e confiança diante das pessoas mais importantes de suas vidas. Quando o amor é verdadeiro, nenhum preconceito, convenção, juízo de valor é mais importante do que a necessidade de concretizar o sentimento mais sublime entre os humanos. E é assim, movidos por esse sentimento que testemunhamos hoje uma união que parecer ter sido conspirada pelo universo, pra quem acredita em destino, essa é uma prova que o acaso sempre nos surpreende com lindas histórias de amor.

As palavras do Vô Elias eram carregadas de uma verdade absoluta, eu e Camila nos entreolhávamos quase que todo o tempo, o tempo parecia se esquivar quebrando qualquer lógica universal, ele parou... Nosso momento foi atemporal, voltávamos às palavras do presidente da celebração quando ele nos perguntou:

- Camila, Isabela, é com a alma e o coração entregues ao amor incondicional que vocês vem hoje diante de nós afirmá-lo?

- Sim – respondemos juntas.

- E’ com a certeza que o amor é a base para enfrentar os problemas, emprecilhos, crises que vocês abraçam essa vida em comum?

- Sim.

- E’ com convicção que vocês se comprometem a abrir mão de planos individuais em favor de planos em comum para construírem juntas uma relação sólida e solidária de cumplicidade e altruísmo em prol do amor de vocês?

- Sim.

- Camila o que você gostaria de dizer agora para Isabela?

- Isa quando te vi pela primeira vez eu soube que minha vida mudaria, não tive pressa ao me deparar com suas negativas, eu sentia que uma hora, Deus te traria pra mim. Quando você entrou na minha vida enfim, eu entendi, porque as demoras de Deus acontecem, é para nos fazer valorizar ainda mais os presentes que Ele nos dá, e você é o maior deles. Não posso prometer nada além do que posso dar, mas te juro, que cada dia de minha vida terá um objetivo: fazer você feliz, quero repetir todos os dias nos meus gestos, palavras, olhares, o quanto te amo, e será sempre enquanto durar, e que o sempre seja eterno.

Minhas lágrimas não pararam de cair ouvindo Camila professar seus votos de amor à mim, nada que eu dissesse chegaria perto do que eu gostaria de dizê-la.

- Isabela, você tem algo para falar á Camila agora?

- Cami, você surgiu na minha vida como um sopro de esperança, me devolveu o sorriso, me trouxe de volta o desejo de felicidade, me fez acreditar no amor mais uma vez. Aos poucos você invadiu meus dias, meus sonhos, meus pensamentos, meu corpo, e minha alma. Conheci sua compreensão, sua generosidade, sua maturidade, sua segurança, sua paixão e sobretudo seu amor, e a partir daí percebi que era isso que procurei minha vida toda. Nasci para amar você, e todas as vezes que coloquei isso em risco conheci seu perdão, e mesmo eu fazendo tudo errado, nos seus braços descbobri que eu não posso ser nem metade do que sou sem você por perto. E é por isso, que te prometo, passar cada dia de nossas vidas tentando acertar, fazendo você a mulher mais feliz do mundo.

Concluí meus votos com dificuldade, sabia que ainda me restava outro desafio, cantar outra música que embalou algumas de nossas noites de amor, Bernardo deu sinal para o violonista e, segurando nas mãos de Camila, fixando-me no seu olhar marejado ousei cantar de novo:

Meu coração Sem direção
Voando só por voar Sem saber onde chegar
Sonhando em te encontrar E as estrelas
Que hoje eu descobri No seu olhar
As estrelas vão me guiar

Se eu não te amasse tanto assim Talvez perdesse os sonhos
Dentro de mim E vivesse na escuridão
Se eu não te amasse tanto assim
Talvez não visse flores Por onde eu vim
Dentro do meu coração

Terminei o refrão com a voz falhando, vendo as lágrimas de Camila, a abracei e disse-lhe junto ao ouvido:

- Você é minha vida Cami, obrigada por ser minha mulher.

Camila não conseguiu externar uma palavra sequer. Foi quando vô Elias tratou de finalizar a cerimônia:

- Pelo poder a mim investido, de avô coruja dessas duas jovens, eu declaro-as casadas, agora as noivas podem se beijar.

Pela mágica do momento, aquele beijo teve um sabor inédito, um misto de excitação, com uma felicidade plena. Já era noite, e em meio a aplausos, Cami me surpreendeu com uma salva de fogos coloridos no céu, qualquer um poderia julgar isso piegas, mas pra mim foi lindo, qualquer coisa que Camila fizesse por mim eu ia considerar outra manifestação de amor, e pra isso não cabia esses conceitos de classe e sofisticação.

A festa foi linda, os poucos convidados fizeram a diferença, dançamos ao som da banda que Bernardo contratara, a mesma do aniversário de Camila, já que seu namorado era o vocalista.

Camila encomendou doces mineiros, mais uma singela declaração de amor, ela sabia como eu gostava, o nosso bolo tinha recheio de chocolate com avelã, essa foi minha exigência ao encomendá-lo. Meu avô estava feliz, enciumado também com a proximidade do Vô Elias, mas logo se aproximou de Camila, exigindo que ela o chamasse de avô também, isso obviamente despertou risos de Lívia e tia Sílvia, mas Camila atendeu seu pedido prontamente.

Era quase meia-noite, quando nos retiramos da festa, Carmem estava embriagada abraçada com Bernardo, cena cômica os dois dançando feito as paquitas...Lívia se divertia também com Olívia enquanto tio César e tia Sílvia se olhavam com cumplicidade...cheguei a comentar com Camila que eu sentia alguma coisa no ar entre eles.

No quarto de Camila na chácara, trocamos de roupa, o cunhado dela nos levaria até nosso destino, que para mim ainda era desconhecido, nossos olhares apaixonados eram quase ridículos de tão bobos, parecia que estávamos nos apaixonando novamente.

- Pra onde nós vamos, amor?

- Vamos encontrar um produtor musical, vou te explorar agora, você vai gravar um cd pra mim!

Abraçou-me beijando meu pescoço suavemente.

- Ah você agora vai ficar zombando de mim, né?

- Zombando? Meu amor, nem Ivete cantaria tão bem a música dela mesma como você cantou, sabe por quê? Eu ouvi seu coração cantando pro meu... Foi a coisa mais linda que já ouvi em toda minha vida!

Beijei-a lentamente, ousando cantar bem baixo ao seu ouvido “você é assim, um sonho pra mim, você é assim...”.

- Ai... Amor, não vou conseguir chegar no hotel...

- Hotel? Então vamos para um hotel?

- Ai... Droga!

- Já estamos casadas... Que tal começarmos aqui mesmo nossas núpcias... Estou louca... Pra consumar nosso casamento...

Falava isso roçando minha boca por sua pele, apertando sua cintura contra a minha, sentindo a resposta do corpo de Camila que se arrepiava, e tremia quando descia minhas mãos por seu bumbum.

Empurrei-a contra a parede devagar, e continuei a explorar seu corpo com minhas mãos e minha boca, em pé mesmo, por baixo de sua saia, massageava o clitóris por cima de calcinha, despertando gemidos de Camila, que respirava ofegante no meu pescoço, segurando-me pelos cabelos. Tomei sua boca com urgência, enquanto sentia a umidade de seu sexo molhar sua calcinha, levantei assim, uma de suas pernas deixando uma abertura maior, penetrando meus dedos por baixo da calcinha massageando mais forte o clitóris, sentindo nossos sexos pulsarem juntos.

Ouvimos batidas na porta, era a voz de Júlio, cunhado de Camila.

- Camilinha, a gente tem hora marcada lembra?

Não entendi, porque teríamos que ter hora marcada pra chegar ao hotel, mas enfim, o chamado do cunhado fez Camila se afastar bruscamente de mim, recompôs a roupa e me apressou:

- Ai que você me tira do sério, vamos amor...

- Você é que está me deixando maluca!

Seguimos para o tal destino desconhecido, depois de nos despedirmos de todos. A irmã de Camila, Carina nos acompanhou:

- Então cunhada, Camilinha não revelou onde vocês iriam hoje?

- Não menina, estou em cólicas de tanta curiosidade, sei que vamos para um hotel, pelo menos isso...

As duas se olhavam com cumplicidade, seria mais uma surpresa dela...

Chegamos a um heliporto, isso já foi uma surpresa:

- Amooor??? Helicóptero? O que você está aprontando?

- Você já vai saber.

Embarcamos no helicóptero, e desembarcamos em alguma cidade que não reconheci, um carro nos esperava, Camila não me dizia nada, tudo fazia parte da surpresa. Pelo que podia perceber pelo clima mais frio, estávamos em um clima serrano.

Chegamos a um hotel, com vários chalés, lindo lugar, a arquitetura tinha ares europeus, realmente tudo muito sofisticado e acolhedor. Depois que nos acomodamos, ela me pediu que providenciasse um vinho, no próprio chalé tinha uma pequena adega no bar, enquanto ela trocava de roupas.

Segui suas ordens, escolhi um vinho doce, o preferido dela, quando Camila saiu do banheiro, nossa, que visão eu tive, ela estava simplesmente deslumbrante! Uma lingerie toda de renda branca, com um hobby de seda na mesma cor aberto, fiquei sem ar, e as palavras faltaram:

- Que foi amor? A asma? – Camila sorriu safada...

Aproximei-me entregando o cálice de vinho, o qual ela bebeu como se sorvesse um algo mais saboroso, me provocando lógico, tomei o cálice num gole só, e cheguei mais perto de seu corpo, tomando da mão sua taça, envolvendo sua cintura nos meus braços, devorando sua boca ardentemente.

Camila foi me despindo sem pressa, obviamente eu também separei uma lingerie sensual, mas já estava vestida nela para a surpresa de minha mulher que me comeu com o olhar, fomos nos beijando até a cama, onde ela me jogou e começou a explorar meu corpo com todo o tesão reprimido de mais de um mês sem nos amarmos. Nossas mãos e bocas se perdiam em nossos corpos com a voracidade de almas que se procuram desde sempre, sugou meus seios, desceu com sua língua pelo caminho entre meus seios e barriga provocando a liberação de meus gemidos, ficou sobre mim mexendo seus quadris e em pouco tempo nosso ritmo era compassado, sincronizado, Camila roçava seu sexo molhado na minha coxa, apertando com a perna o meu sexo igualmente tomado de umidade, sentindo o tremor de nossos músculos junto com nossa respiração descompassada.

Ficamos por minutos assim, até aumentar a velocidade e a força de nossos movimentos, até explodirmos em um prazer absoluto, sorrimos com satisfação pelo gozo fluindo entre nossos corpos suados. Ainda desejava Camila, e dessa vez fui eu a buscar o seu brinquedo que ela tantas vezes usou comigo.

- Hoje é minha vez... – disse com autoridade, vestindo o artefato.

Camila mordeu os lábios como se ansiasse por isso, não tardei em lhe satisfazer, rocei o tal brinquedo entre suas pernas, provocando-lhe até penetrá-lo lentamente nas suas entranhas encharcadas, iniciei estocadas leves, Camila segurava meu bumbum e me pedia:

- Sou sua mulher, toma posse meu amor.

O pedido de minha mulher era mais que uma ordem, aumentei então a força das estocadas, enquanto as unhas de Camila afundavam na minha carne, deliciei-me vendo seu rosto se conformando na personificação do prazer, podia-se ouvir o barulho do líquido no sexo de Camila ficando mais abundante na medida que eu me movimentava penetrando-a. Não foi só ela que gozou com isso, eu também estava entregue, apesar de já conhecer as sensações do corpo dela, tudo para mim parecia novo, a preparação que Camila fez, tornou mesmo aquela noite ainda mais especial.

A noite ia avançando e nem notamos que era quase manhã, o cansaço não era páreo para a saudade que nossos corpos desfrutavam, quase com o dia claro, depois de trocarmos palavras sinceras de amor, adormecemos nos braços uma da outra.

Passamos dois dias maravilhosos nesse chalé, pouco usufruímos da paisagem, que era incrível, para nós o principal acontecia dentro do chalé, essa era a paisagem que tomava nosso desejo. Até esquecíamos de comer, uma noite, Camila acabou convencendo um cozinheiro a nos servir um jantar requentado depois de meia-noite, quando o hotel não dispunha mais de serviço de quarto.

Voltamos para Campinas na terça-feira, enquanto eu dirigia, Camila me olhava encantada, beijava nossa aliança, e eu não conseguia tirar dos meus lábios um sorriso de um canto a outro da boca, não havia necessidade de palavras, nossos olhares já revelavam nossas almas uma pra outra, sim, éramos uma só.

O nosso apartamento estava todo arrumado, decidimos não mexer em nada, manteríamos fechado, já que era de Camila. Tia Sílvia ainda estava em Campinas com Lívia, mas estava na casa de Bernardo, eles encheram o nosso canto de flores, rosas, em nosso quarto a foto que estava em nosso casamento emoldurada.

- Amor, esqueci de perguntar, quem tirou essa foto? Onde foi?

- Sabia que você ia perguntar...achei por acaso na câmera de Lívia quando fomos pra formatura dela, estava vendo as fotos da festa e achei essa, pedi que ela mandasse pro meu e-mail, achei linda...estávamos na rede no alpendre...

- Nossa nem a vi tirando essa foto...mas é bem nossa cara amor...

- E’ sim, eu me derreti toda vendo seu olhar, seu rosto apaixonado me vendo dormir, sei que é seu costume isso, mas logicamente nunca tinha visto...

- Por mim, acordaria todo dia antes de você só pra contemplar seu sono, é como alento, e a certeza que meu dia será perfeito...

- Prometo que farei de tudo para que eles sejam perfeitos meu amor...

Selamos essa promessa com um beijo delicado, mesmo que fosse impossível dias perfeitos sempre, eu sabia que estando juntas, tudo seria mais fácil...Camila me abraçou, e cantou ao meu ouvido, muito baixo, quase declamando:


Ainda bem Que você vive comigo
Porque senão Como seria esta vida?
Sei lá, sei lá Nos dias frios em que nós estamos juntas
Nos abraçamos sob o nosso conforto De amar, de amar
Se há dores tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar
As flores que me manda são fato
Do nosso cuidado e entrega
Meus beijos sem os seus não dariam
Os dias chegariam sem paixão
Meu corpo sem o seu uma parte
Seria o acaso e não sorte

domingo, 10 de julho de 2011

1ª temporada: Porque sei que é amor: CAPÍTULO 28

CAPÍTULO 28: ARRUMANDO AS MALAS


Pedi rescisão do meu contrato do hospital para dedicar-me exclusivamente ao meu projeto da tese do mestrado e aos preparativos do meu casamento com Camila. Não voltei a procurar Suzana no hospital como prometi, Camila se encarregou de sua alta e assim ela poderia voltar para o Rio. Tratei de comunicar a tia Sílvia e Lívia sobre nossa decisão, minha irmã estava radiante com o resultado do concurso da procuradoria, rompera o namoro com Afonso, mas estava bem.

Passava todo meu dia em casa trabalhando no meu projeto, as folgas que Camila conseguia, aproveitávamos para ver detalhes da cerimônia simbólica de nosso casamento, aceitamos a sugestão de Carmem, e faríamos na chácara da família dela, Vô Elias se ofereceu para presidi-la, o que aceitamentos imediatamente. Vitor veio deixar as chaves do apartamento e agradeceu a hospitalidade, não perguntei nada de Suzana, apenas o abracei e desejei boa sorte a ele e a irmã.

No final de novembro, estava agendada minha entrevista na embaixada dos EUA para a concessão do visto o qual Camila já conseguira, a essa altura o meu projeto da tese já fora aceito pelo orientador de Camila, o fato de ter ligação com a pesquisa de Camila, influenciou muito na aceitação. Viajei então para São Paulo, Camila não pôde me acompanhar, mas lá, Olívia me faria companhia.

Olívia, não estava mais namorando Cláudia, e estava arrasada com isso, voltara a sair com rapazes, mas confessava não ter o mesmo prazer que sentiu com o relacionamento com sua ex. Já havia concluído também sua residência em oncologia, se preparava para o concurso do Instituto Nacional do Câncer. Levou-me até a embaixada, e almoçamos lá perto mesmo depois.

Chovia muito em São Paulo, tive medo de voltar dirigindo para Campinas, liguei para Camila e ela concordou que não era boa idéia pegar a estrada com o temporal. Resolvi então dormir na casa de Olivia e partir no dia seguinte.

Minha amiga convidou-me para conhecer um espaço cultural no centro de São Paulo, uma espécie de bar-café, entendi que o público era GLS, e fiquei curiosa para ver o comportamento de Olívia lá, uma vez que nunca a vi em um ambiente assim sóbria. Era de fato um cenário muito agradável, várias mesas redondas dispostas em frente a um pequeno palco, lateralmente um balcão expondo diversos pães e doces e uma sequência de máquinas de café ao fundo do balcão. Na outra lateral um pequeno espaço de leitura com poltronas e algumas estantes e dois computadores.

Sentamos em uma das mesas, engrenando um papo descontraído, falava dos preparativos para o meu casamento animada, Olívia ria do castigo que Camila me impusera de não fazermos amor até o casamento, Lili apelidava-me de mulher aranha, dizendo ter medo de ser atacada por mim logo mais na cama dela. E nesse clima ameno, vimos a noite chegar em São Paulo. Olivia flertava descaradamente com várias meninas, eu ria divertindo-me da “gula” da Lili.


Vi adentrar no lugar, um rosto conhecido, apertei os olhos a fim de confirmar minha impressão, quando me assustei com o suspiro alto de Olivia:

- Ai não acredito! Pata que o paréu!

A exclamação de Olívia confirmou minhas suspeitas, Suzana estava ali, e dessa vez acompanhada, quando tentava discernir o rosto familiar da mulher que estava ao seu lado, lembrei, era Pietra, a ex-namorada de Laila.

- O que essa mulher está fazendo aqui? – Olívia estava irritada com Suzana depois do que lhe contei sobre o quase rompimento com Camila.

- Calma Lili, isso aqui é um point GLS pelo que tô notando, normal ela aparecer...

-Ai Isabela me poupe, essa criatura não mora no Rio? E quem é essa que está com ela?

- Ah Olívia, deve ter seus motivos pra estar aqui, e aquela é Pietra, ela é fisioterapeuta, lembra da Laila? Namorou com ela.

- Ai que deusa! Ela tá solteira?

- Sei lá Lili. – ri do olhar faminto dela acompanhando Pietra sentar-se junto ao balcão uma vez que não tinham mais mesas.

Suzana notou minha presença, sorriu, cochichou algo no ouvido de Pietra e caminhou em direção a nossa mesa.

- Mundo pequeno em Isa, você foge de mim e o universo conspira para nos encontrarmos. Oi Olívia.

Olívia só meneou a cabeça, fazendo cara de poucos amigos, ainda mais com o cumprimento de Suzana comigo.

- Oi Suzana, como vai?

- Isso é um pergunta médica ou só um hábito educado? – sorriu

- Depende, você está precisando de uma médica?

- No momento estou em reabilitação – apontou para Pietra.

- Bom que você esteja se recuperando, fico feliz.

- Camila como está?

- Bem obrigada.

- Já acertaram o casamento?

- Sim, será próximo mês antes de nos mudarmos para Boston.

- Que bom então... Cheio aqui hoje não é Olívia?

- Dias de quinta-feira o happy hour é sempre bem freqüentado, ficaram sem mesa não é?

- E’, chegamos tarde, com essa chuva o trânsito está pior.

Interessada em conhecer Pietra, Lili convidou Suzana para senta-se conosco, pelo jeito não entendeu o duplo sentido do comentário dela quando apontou para a fisioterapeuta, falando em reabilitação.

Pietra foi educada, mas demonstrou contrariedade por sentar na mesma mesa que eu, tentei ignorar sendo simpática, o que não adiantou em nada o clima embaraçoso. Na mesma mesa minha ex noiva que supostamente estava com a ex da minha ex... -Céus que *&&¨%$% é o mundo lésbico!- não sabia se a antipatia de Pietra era por causa de Laila, ou de Suzana, e viajando na maionese nisso tudo a faminta Lili, se insinuando para a fisioterapeuta sisuda.

- O que faz em São Paulo Isa?

- Entrevista na embaixada americana e você?

- Vim acompanhar a Pietra em uma conferência.

Só aí a Lili percebeu que as duas estavam juntas, a cara de decepção dela foi até cômica. Todo tempo ficava olhando pro meu celular, Camila me ligaria quando chegasse em casa, notei que celular novo de Suzana era igual ao meu quando os colocamos juntos na mesa. O papo estava animado, Suzana parecia relaxada na minha presença e eu na dela, não existia a tensão sexual que sempre regeu nossos encontros, parecíamos duas velhas conhecidas atualizando o papo, nem lembrei da promessa que fiz a Camila de não ter mais contato com ela, mas aquilo foi um acaso, não havia porque me sentir culpada. Pietra se entendia com Olívia, tanto que foram várias vezes ao balcão juntas, Lili estava de flerte com uma menina que estava sentada lá. A sós na mesa, Suzana puxou assunto:

- Isa eu não tive oportunidade de te pedir desculpas pelo que fiz no nosso último encontro, me excedi, sinto muito pelo que possa ter causado entre você e Camila.

- Não te dei oportunidade para se desculpar também Suzana, mas deixe isso no passado, ambas estamos seguindo caminhos diferentes, o importante é que você está viva, bem, agora tem que se cuidar viu doutora!

- Claro doutora, claro. De coração espero que você e Camila sejam muito felizes, percebi naquele beijo que o que nos restou até aquele momento foi uma atração, saudade de uma história mal resolvida...vocês se amam, isso está estampado, tive que reconhecer isso para seguir em frente, e ficarei bem.

Foi um alívio ter essa conversa rápida e tranqüila com Suzana, não havia mais cobranças nem mágoas entre nós. Estávamos todos de volta a mesa, quando um celular toca, reflexivamente Suzana atendeu:

- Alô, Suzana falando... Alô? Alô?

Suzana fez cara de interrogação, e disse:

- Estranho, tinha alguém do outro lado da linha, mas ninguém falou...

Senti um aperto no peito, olhei para o celular que Suzana colocava sobre a mesa...em segundos as peças se juntaram, coloquei minhas mãos sobre a cabeça, e as minhas lágrimas já davam sinais de surgir na minha face. Peguei o celular e vi a ligação, era Camila. Peguei o telefone imediatamente:

- Suzana, você atendeu meu telefone, era Camila!

- Isa desculpa não tive intenção... E...

Não esperei Suzana terminar a frase, levantei da mesa num supetão, afastando-me do barulho para ligar pra Camila. Não me atendeu como eu supunha. Voltei para a mesa catando minha bolsa, a avisei:

- Estou indo, Olivia preciso voltar pra Campinas agora!

- Isa pelo amor de Deus, é tarde, a chuva não parou, está mais perigosa ainda a estrada...

- Não adianta Olivia, estou indo.

A visibilidade da estrada estava péssima, parei várias vezes no acostamento, mas a possibilidade de ter mais uma vez estragado tudo com Camila me cegava mais. Demorei quase três horas, mas cheguei a Campinas, subi com o coração na boca, imaginando o que Camila estaria pensando de mim.

O apartamento estava vazio, nenhum sinal de Camila... Minha angústia só piorou, não esperei o elevador, desci as escadas correndo, nem sei dizer no que pensava eu só precisava encontrá-la.

Chovia torrencialmente em Campinas, mas nem me dei conta disso. Sabia que andando a pé pelo quarteirão não a encontraria, mas eu estava desnorteada, andei até uma loja de conveniências 24h, ensopada, parei diante da prateleira de chocolates, buscando lembrar qual sabor ainda não tinha dado a Camila, na minha cabeça se eu descobrisse o sabor preferido dela, era um sinal que tudo ficaria bem.

-AVELÃ! E’ isso! A cor dos cabelos de Camila!

Voltei para nosso apartamento, a um quarteirão de casa, andando pela chuva, ouvi o barulho de um carro se aproximando, parou do meu lado: Camila. Quando me dei conta, ela estava ali, na minha frente, na chuva, como eu.

- Cami... Eu vim pra te explicar... Não foi nada do que você possa estar pensando...

- Você não sabe o que estou pensando... Você é louca de vir dirigindo de São Paulo pra cá num temporal desses?

- Não podia deixar você pensar...

Meu ar começou a se travar no meu peito... Minha asma... Minha voz não saía mais, não lembro de mais nada, só dos braços de Camila me segurando quando caí sobre ela. Acordei no hospital, com uma máscara de oxigênio, e Camila dormindo ainda com os cabelos úmidos segurando minha mão.

- Cami...

Assustada, Camila acordou, ajeitando os cabelos, levantou e foi logo conferir meus sinais vitais.

- Cami...

- Shi... Fica quieta Isa, você tem que descansar.

- Mas... Cami eu...


- Isa... Descanse... Agora não é hora de conversarmos.

Não consegui decifrar o que o olhar e as palavras nas entrelinhas que Camila me direcionava... Só consegui enxergar a preocupação dela, o cuidado comigo. Durante a madrugada acordei várias vezes e Camila estava ali, do meu lado, em uma poltrona, e eu a olhava dormindo como sempre gostei de ver.

Ao amanhecer, não encontrei Camila na poltrona, ao invés dela, Bernardo estava de frente pra mim:

- Você não se emenda né Isabela cara de remela!

- Ai Bê... Cadê meu amor?

- Ela foi em casa, falou algo sobre ajeitar malas, sei lá, deve ter ido pegar roupas pra você.

- Ai meu Deus! Bernardo ela vai arrumar as malas pra ir embora! Ela vai me deixar!

- Ow Isabela, o que você roubou do carrinho de medicação? Quanto de morfina? Ou por acaso alguém te trouxe chá de cogumelo?

- Bê, a Suzana atendeu meu celular e...

- Quem? Isabela, estou com medo de você, acho que você injetou na veia coisa pesada!

- Bernardo me ajuda, me tira daqui, tenho que ir atrás dela, impedir que ela viaje sem mim...

- Aí cabou... Menina vocês se casam em dez dias, como que ela vai viajar sem você criatura?

- Cala a boca Bê! Vai me ajudar ou vou ter que carregar esse tubo de soro mostrando minha bunda nessa camisola pelo hospital?

Bernardo se assustou, apressando-se em atender minhas ordens, ficou por ali procurando uma roupa para que eu vestisse, mas não podia esperar mais, enfiei minha mão no bolso do jaleco dele pegando as chaves do seu carro, com uma mão segurei por trás a minha própria camisola e saí correndo pelo hospital em direção ao estacionamento. Nem me importei com todos os olhares para mim dos pacientes, colegas e funcionários, nem dei tempo aos seguranças me alcançarem, nem sei como minha asma não me atacou de novo, Bernardo corria atrás de mim, deixando escapar nos seus movimentos uma pluma, espalhando purpurina...no nervosismo ele deixava vir a tona sua identidade secreta...

Entrei no carro de Bernardo com a agilidade de um fugitivo de filme policial americano, mas como era de se esperar a trapalhona deixou as chaves caírem no piso do carro, assim acabei ficando com o bumbum na janela do carro pro espanto de Bernardo que chegava com os bofes pra fora, ouvi as batidas no vidro da janela, ao me virar vi o coitado se apoiando no carro para ninguém mais ver aquela cena decadente:

- Bicha dá pra tirar esses glúteos da janela do MEU carro, e me dar uma explicação decente pra essa cena de gaiola das loucas?

- Bê te juro que conto tudo, mas agora preciso que você me leve pra casa!

Bernardo não questionou, fez sinal pra que eu me afastasse, pro banco do carona, com cara de nojo pra mim e dirigiu para minha casa. Ele andava atrás de mim mais preocupado com meu bumbum exposto do que eu. Bati na porta ansiosa, já que não tinha minhas chaves. Nossa diarista Selma atendeu assombrada com minha pressa em adentrar em casa exibindo meu bumbum pela abertura da camisola.

- Selma a Camila está aqui?

- Não doutora, ela foi pra chácara da mãe, disse que tinha algo a fazer lá.

- Bernardo, vamos pra chácara.

- Isaaaa alouuu, você vai desse jeito? Não há tempo, deixa de ser puritano, até parece que você nunca viu minha bunda!

- Ow bicha baixa... A essa altura Campinas inteira já viu nem tem mais graça...

No caminho até a chácara, fui contando tudo a Bernardo, que me dizia:

- Bicha... Tu colou chicle na mesa da santa ceia, só pode...eita encosto...chuta que é macumba!

Passamos em frente a uma doceria e eu gritei:

- Páraaaaa Bernardo!


Meu amigo freou num reflexo instantâneo, fazendo os pneus cantarem, marcando o asfalto, gritou com um agudo engraçado:

- Que foi bicha? Quem morreu?

- Bê, desce aí, compra um chocolate com avelã pra mim é urgente!

- Tá desejando Isa? Como que Camila conseguiu te engravidar? Pior, sem sexo né? – zombou de mim ganhando um tapa seguro nos ombros.

Mas não titubeou, obedeceu-me. E continuamos nosso trajeto. Carmem estava no jardim da frente, e logicamente arregalou os olhos ao me ver com os cabelos bagunçados e vestida naqueles trajes, qualquer um pensaria que eu era fugitiva de uma clínica psiquiátrica.

- Carmem... Cadê Camila?


- Minha filha o que aconteceu com você? – Carmem olhava para Bernardo com uma interrogação na testa.

- Carmem, a Camila, onde ela está?

- Calma Isabela, ela passou direto pra estufa, nem falou comigo.

Saí correndo pela grama, em direção à estufa, cheguei ofegante, procurando Camila em meio aquelas centenas de espécies de plantas, flores, rosas. Avistei os cabelos cor de avelã de Camila, ao fundo, estava agachada, mexendo em um jarro. No canto da prateleira nosso anel, gelei, imaginando: “pronto, ela vai terminar tudo”. Aproximei-me, e abaixei-me onde ela estava agachada, atravessando seu corpo, depositei ali no jarro, que ela mexia, o chocolate de avelã que pedi a Bernardo para comprar.

- Avelã...é esse o seu preferido não é?

Camila virou-se imediatamente, sorriu discretamente, e balançou a cabeça positivamente.

- Cami você não entendeu nada, o telefonema... Foi por acaso, a Suzana estava até com a namorada dela lá, a Pietra, que namorou a Laila, ai, você nem lembra quem é Laila né? Mas é, nossos celulares, são iguais, ai tô misturando tudo... Não me deixa por favor meu amor, pega esse anel daí pelo amor de Deus não me deixa, juro que não fiz nada...
Camila deixou escapar um sorriso me interrompendo daquela avalanche de palavras desconexas:

- O que você está fazendo aqui sua louca? Isabela você fugiu do hospital? Como que você chegou aqui?

- E’ que Bernardo falou que você ia fazer as malas, e saiu sem se despedir de mim, não tava em casa, e chego aqui o anel fora de sua mão...

- Ei menina! Calma... Acho que te deram medicação que não autorizei...

- Cami... Por favor... Não me deixa...

- Isa... Tirei o anel, pra não correr o risco de perdê-lo na terra, ele está folgado esqueceu? Não te deixei, liguei pra Bernardo pedido que ele ficasse com você, porque precisava mexer cedo nessas mudas aqui.

- Mas e ontem...?

- Eu realmente fiquei chocada quando Suzana atendeu seu telefone, imaginei mil coisas, mas eu ia esperar você chegar para ouvir de você as explicações, e antes que eu pensasse qualquer outra coisa, a própria Suzana me ligou, explicando tudo, agradeceu-me por salvar a vida dela, e por isso não ia deixar que eu estragasse a minha com um grande mal entendido...

- Mas porque você não me falou nada ontem a noite?

- Eu fui te tirar da chuva sua doida! Fui em casa não te encontrei mas vi seu carro na garagem, saí dirigindo preocupada quando o porteiro falou que você tinha saído a pé! E aí quando te encontrei, você já chegou falando coisas sem nexo, só pude te segurar e levar pro hospital!

- Cami... Eu não acredito...

Sorri sem graça pensando em todo papelão que prestei...quando fui tomada de susto por um grito de Camila:

- ISABELA BITENCOURT VOCÊ VEIO DESFILANDO SUA BUNDA ATE’ AQUI?

Não resisti caí no riso, recuperando meu fôlego, enquanto Camila me abraçava, limpando as mãos sujas de terra na minha camisola.

- Onde é que eu vou amarrar meu burro? Vou casar com uma doida de pedra, atrapalhada, asmática, e uma tentadora do pudor!

Sorriu divertida, enquanto me beijava os lábios, andou dois passos atrás ainda me segurando, pegou nosso anel na prateleira, o beijou e recolocou no seu dedo.

- Agora vamos minha criança maluquete... Vestir uma roupa decente antes que minha família me interdite por eu casar com você... E ah! Parabéns, acertou meu chocolate... Já pode mesmo ser minha mulher!

domingo, 12 de junho de 2011

1ª temporada- Porque sei que é amor: Capítulo 27: Consequências

Foi difícil deixar Suzana naquela noite, meu coração apertava pela ânsia de saber que estava de fato tudo bem com ela. Camila estava exausta, tratei de cuidar dela, ela merecia, mais uma vez salvara a vida de Suzana com seu brilhantismo. Em casa preparei- lhe um banho, escolhi um pijama leve para ela usar, enquanto ela tomava banho, avisei a Vitor, Lourdes e Helena sobre o sucesso da cirurgia de Suzana, falando com orgulho do feito de Camila.

Preparei- lhe um lanche, o que a comoveu, uma vez que minhas habilidades culinárias consistiam em ligar pra qualquer delivery... Levei na bandeja pro quarto: suco, biscoitos, um sanduíche de ricota. Comemos juntas na cama, sem qualquer pressão em dizer algo, não precisávamos de muitas palavras para demonstrar carinho, estava tudo no nosso olhar. Deitamos juntas vendo qualquer programa na TV e assim Camila adormeceu nos meus braços.

Na manha seguinte Camila não trabalhava, pediu folga para acertar detalhes de seu projeto da tese do PhD, deixei-a em casa com a promessa de almoçarmos juntas, depois ela iria avaliar Suzana, que deveria manter-se em coma induzido. No hospital o irmão e as amigas de Suzana já me aguardavam, providenciei para que um de cada vez entrasse na UTI para ver Suzana.

Suzana evoluiu bem, assim no dia seguinte, providenciamos o desmame do ventilador mecânico e diminuição dos sedativos. Em algumas horas ela despertava, a equipe intensivista avisou imediatamente a Camila que apressou-se em avaliar o quadro pós-operatório de Suzana.

Para nossa satisfação, ela respondeu a todos os reflexos, falava com alguma dificuldade, mas isso podia ser por conta da desorientação. Mantivemos Suzana na UTI, os exames laboratoriais apresentavam algumas alterações importantes, provavelmente por causa do Lupus, a debilidade do organismo por conta da cirurgia influenciou algumas taxas comprometendo especialmente os rins e fígado.

Sempre que podia a visitava na UTI, nas vezes que a encontrava desperta, incentivava Suzana a falar sempre perguntando sobre seu estado. Ela me respondia automaticamente, notava seu olhar triste, sem vida. Uma semana depois da cirurgia, depois de já estar sendo acompanhada por um reumatologista de renome especialista em Lupus, Suzana foi transferida para o quarto, e assim, não pude fugir de uma conversa com ela.

- Isabela, eu posso esperar alguma coisa de você?

- Suzana, você tem que se preocupar com sua saúde agora.

- Por favor, não desvie o assunto, eu continuo esperando uma razão pra seguir esse tratamento, que você sabe que não terminará nunca...

- Não vamos falar nisso agora, por favor.

Suzana em um ato quase que de desespero, arrancou do braço os acessos para medicação, levantou- se e segurou meu braço com força, tentei fugir de seus olhos mas eles me prenderam, sem mais demoras Suzana puxou meu pescoço e me beijou com toda paixão guardada por todo esse tempo.

Não tive outra opção que não fosse me render, sentia falta de sua boca, sentia falta do seu corpo, mas o beijo não me trazia as mesmas sensações que experimentava quando estávamos juntas. Existia desejo, mas não aquele sentimento de plenitude que me tomava quando estava nos braços de Camila. E o que mais temia não pude evitar, Camila entrou no quarto surpreendo- nos com nossas bocas coladas, nada falou, fechou a porta com a mesma mão que abrira, seu olhar imediatamente brilhou, meu coração apertou, feri alguém que nunca me deu outra coisa que não fosse amor.

- Isso não podia ter acontecido! –vociferei com a voz embargada.

- Isa eu não queria que ela tivesse visto isso e...

- Você não tinha esse direito, Suzana...

Saí pelos corredores em busca de Camila, com a alma aos pedaços por ter certeza do quanto ela estava magoada comigo, sentia um medo que me sufocava, não podia perder Camila. Não a encontrei, e meu desespero ia aumentando, dispensei as consultas da tarde por falta de condições em me concentrar em qualquer coisa. Camila desligou o celular, não estava em casa, nem na casa da família, em nenhuma parte do hospital. Eliza sua secretária procurava- a em toda parte também, desmarcou suas consultas e reuniões visivelmente preocupada com o sumiço de sua chefe.

Fui para casa, na esperança de encontrar Camila lá. Em pouco tempo ela chegou, olhos inchados, pela primeira vez em um ano e meio, não vi o brilho do verde de seus olhos, Camila parecia transtornada, olhou-me com mágoa profunda, retirou do bolso nosso anel, colocando sobre a mesa de jantar.

- Arrume suas coisas Isabela, você tem até amanhã pra deixar minha casa.

- Cami... Por favor não faz isso... – eu soluçava me atirando aos pés dela. - Perdoe-me, eu te amo, aquilo não significou nada.

- Isabela me poupe dessa cena.

- Cami...

- Tudo tem limite, você ultrapassou todos. Eu vi Isabela, não foi um beijo forçado.

- Mas...

Eu não tinha argumentos, Camila estava certa em tudo, como quase sempre. Sentei no sofá tentando me refazer, como doía ver o sofrimento dela, como doía minha culpa por perdê-la, cheguei a odiar Suzana por esse beijo, senti-me desnorteada, sem chão, fui despertada daquela inércia com o barulho de coisas quebrando, vindo do nosso quarto, agora quarto de Camila.

Abri a porta do quarto, Camila estava lançando tudo na parede, porta-retratos, jarros, quadros, parecia que o tsunami passara pelo quarto, os travesseiros estavam rasgados, cortinas no chão... Camila chorava descontroladamente sentada ao chão coberto por vidros.

- Cami meu amor...

- Isabela por favor, sai da minha frente, some daqui.

O olhar de decepção de Camila para mim, me rasgou por dentro. Saí dali me sentindo a última das pessoas, como pude magoar assim a mulher que eu amava? Não provoquei o beijo, mas também não tive coragem de rejeitá-lo, nem tampouco de tirar de vez as esperanças de Suzana. Não podia voltar para meu apartamento, Vitor estava lá, dirigi sem rumo, até chegar a porta do meu antigo prédio, subi para o apartamento de Bernardo e caí nos braços dele num choro incontido.

- Minha amiga o que houve?

Não conseguia falar, Bernardo foi andando abraçado comigo, sentou- me no sofá, trouxe-me um copo de água com açúcar, sentou em um puf à minha frente, esperando que eu tomasse fôlego, meu ar parecia travar, minhas palavras não faziam sentido, na minha cabeça a imagem de Camila chorando no meio de cenário de destruição que nosso quarto se transformou.

- Isa, eu estou aqui se você quiser falar, se não quiser, também estou aqui do seu lado tá?

Caí nos ombros de Bernardo como se quisesse simplesmente só desabar.

- Eu a perdi Bê...

- Ow minha linda... O que aconteceu?

- Perdi meu amor, Bê...

- Isa... O que houve minha amiga? Nunca te vi assim.

Fui contando tudo o que havia acontecido em meio a lágrimas, Bernardo pediu- me calma, e que desse um tempo para Camila se acalmar, e aí conversaríamos, acabei caindo no sono no colo de Bernardo exausta de chorar. No dia seguinte, acordei na cama dele, não me acordou, já passava das 8H, estava atrasada, mas Bernardo tratou de ligar pro hospital avisando que me atrasaria. Minha primeira preocupação era saber de Camila, tentei ligar, mas seu celular continuava na caixa postal, Bernardo confessou- me que falei o nome dela a noite toda, me angustiava, chegava a sentir fisicamente o aperto no peito lembrar o estado em que deixei Camila.

Não passei em casa, nem ao menos tomei o café que meu amigo me preparou, lavei o rosto, prendi meus cabelos, e segui para o hospital, precisava falar com Camila, deixar claro o que sentia por ela e que Suzana não significava tanto o quanto pensava para mim. Não a encontrei no seu consultório, encontrei Eliza no corredor e apressei- me em perguntar- lhe:

- Eliza, onde está Camila?

- Dra. Isabela, eu...

- O que Eliza? Eu preciso falar com ela, por favor não me esconda...

- Doutora, eu sinto muito, tenho ordens expressas dela de...

- Eliza, por favor, eu estou desesperada, me ajuda!

- Doutora, ela viajou cedo para São Paulo, para tentar adiantar na embaixada, o visto para a viagem aos Estados Unidos.

- Adiantar? Mas a entrevista foi marcada para o próximo mês só...

- Ela me pediu hoje bem cedo para passar para o Dr. Marcos, todas as suas consultas, e algumas cirurgias, ela pretende ir para Boston até o final do mês.

Não consegui evitar, as lágrimas pareciam brotar como uma fonte de água, encostei minha cabeça contra a porta, Eliza olhou- me com compaixão, segurou meu ombro e disse baixinho:

- Doutora Isabela, no fim tudo dá certo, se ainda não deu certo, é porque ainda não é o fim. Li isso em algum lugar, e acredito na verdade dessas palavras.

Meneei a cabeça esforçando- me para abraçar qualquer esperança que me aproximasse de Camila novamente. Saí andando cabisbaixa pelos corredores em direção ao meu consultório, encontrando Vitor que avançou para me abraçar como era de costume:

- Ei minha doutora linda, não dormiu? Estava de plantão?

- Oi Vitor, não estava de plantão, só não dormi bem, sua irmã está bem?

- Sim, meio calada, isso não é normal – sorriu.

- Ah, eu tenho que ir Vitor, desculpe-me.

- Não vai passar pelo quarto dela?

- Não posso, estou com a agenda cheia.

Despedi-me dele e fui andando com meus pensamentos perdidos, eu parecia andar no automático, era notório meu abatimento, não queria ver Suzana, não suportaria vê-la, sei que associaria imediatamente ao sofrimento que causei a Camila e consequentemente a mim. Atendi os pacientes marcados, e a cada intervalo, ligava para Camila, sem êxito nas minhas tentativas de falar com ela. Não almocei, na verdade não saí do consultório o dia todo, no final da tarde, Eliza foi ao meu encontro com uma informação:

- Doutora, ela está em casa, acabou de chegar.

Não esperei sequer Eliza concluir o pensamento, saltei da cadeira, procurando a minha bolsa, nem tirei o jaleco, corri para o estacionamento para seguir ao encontro de Camila em casa. Ela estava sentada no sofá, nosso anel ainda estava sobre a mesa, onde ela deixou na noite anterior. Olhou para mim, e baixou os olhos em seguida, caminhei devagar com as mãos no bolso da calça, ficando na frente dela, com os olhos marejados. Camila estava tão abatida quanto eu:

- Veio pegar suas coisas?

- Camila, eu preciso conversar com você.

- Você pode precisar falar, mas eu não preciso te escutar, não mais, não preciso mais atender suas necessidades Isabela, isso é função de Suzana agora.


- Não fala assim comigo meu amor, Suzana não tem função nenhuma na minha vida.

- Mas você tem na vida dela e ao que me parece, você está desempenhando com maestria.

- Camila, acredita em mim, eu te amo, realmente Suzana não me beijou a força, mas não senti nada no beijo, é com você que eu quero ficar.

- Isabela desde que essa mulher voltou pra sua vida, ela te cerca, ela te confunde, te sensibiliza, e você arrisca isso que a gente tinha Isa! Deixando- se envolver, ela não é uma qualquer, e você me obrigou a engolir isso esses meses Isa, compreendendo tudo... O beijo que vi foi só uma confirmação do estrago que a presença dela nos trouxe, nossa relação não resistiu a sua ex, como que a gente pode casar?

- Eu nunca tive tanta certeza de algo na minha vida como tenho de que quero passar o resto da minha vida com você Cami...

- Não Isa, você não tem...

Camila chorava com uma mágoa que corroia meu coração, parecia que eu esgotara todas as minhas chances com ela.

- Camila, me dá uma chance... Não desiste de mim...

Beijei nosso anel, segurei suas mãos e continuei falando:

- Isso é sagrado pra mim Cami, isso que nós temos é sagrado pra mim, não me deixa...

Camila estava frágil, queria abraçá-la e convencê-la da minha verdade, dormir junto dela e acordar desse pesadelo, mas ainda via uma magoa profunda no verde de seus olhos.

- Isabela, não consigo te olhar... Não consigo acreditar no que você me diz, parece que você quebrou algo dentro de mim, não sei como reconstruir.

- Deixa que eu tente... Me dá essa chance...

Nesse momento levantou-se do sofá, segurou sua nuca, caminhando até a mesa de jantar onde nosso anel ainda estava, segurou, fitou-o por alguns segundos, me deixando ansiosa a cerca de cada movimento que ela executava diante de mim.

Aqueles segundos pareciam uma eternidade, aproximei-me dela, segurei o anel e coloquei no seu dedo, beijando-o em sua mão.

- E’ aqui que ele deve ficar meu amor, eu quero que você seja a minha mulher, e eu a sua.

Camila derramou uma lágrima olhando para nossas mãos unidas, e abraçou-me depois de um longo suspiro, desabando em meus braços, me trazendo alento e paz de volta, era ali que eu tinha que estar, era ali o meu lugar, junto a Camila.

- Isa eu não vou agüentar outra decepção, eu quero ir embora com você daqui o mais rápido possível, não quero mais Suzana entre nós.

- Vamos quando você quiser, você conseguiu adiantar o visto?

- Ahhh Eliza!

- Ai desculpa amor não briga com ela não, praticamente coloquei um bisturi na jugular dela pra ela desembuchar...

Camila enxugou as lágrimas, sorriu, mas voltou a seriedade para me falar:

- Isabela não vai ser fácil você recuperar minha confiança, ainda estou muito magoada, não sei se posso te pedir isso, mas não quero que você tenha mais contato com Suzana, qualquer decisão médica que ela precise, serei eu a responsável, você trate de terminar seu projeto da tese do mestrado e adiantar seus pacientes...

- Isso quer dizer que nós vamos ainda esse ano para Boston? – disse-lhe já descendo minha mão por dentro de sua calça.

- Isso quer dizer, que a senhorita vai ter que ralar muito pra ter esse corpinho na sua cama de novo... Vai mergulhar nesses afazeres, porque sexo comigo agora só depois de casada Isabela Bitencourt! – deu-me um tapa na mão, forçando a retirada dela entre sua calcinha.

- Au Cami!

- Falando sério Isabela, preciso de um tempo, ainda me dói muito lembrar do que eu vi, do que senti... Eu te amo, tanto que nem te pediria nada em troca... Mas se eu posso esquecer meu passado pra viver um futuro e um presente com você, acho que você também pode fazer isso.

- Justa como sempre... Você só me pede o que pode me dar não é?

- Isso... Agora você... Trate de tomar um banho, você está fedendo! – Camila riu depois de fazer cara de nojo pra mim.

- Ai amor...

- Vai, corre pro banho criança – estapeou meu bumbum me empurrando para o quarto.