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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Sociedade Secreta Lesbos: Capítulo 42

Capítulo 42

Esther ficou pensativa, durante o resto do dia não procurou Amy nem esta o fez. Ficaram entretidas com as obrigações da universidade e da fraternidade. No fim da tarde, Esther procurou o mesmo lugar quieto nos jardins do campus para continuar a leitura do diário de Carmem.

-- Michelle tem me assediado agora descaradamente, Sandra tinha razão. Na festa de ontem na fraternidade, ela usou de todas as armas para me levar para sua cama, inclusive com uma bebida exótica, segundo Rebeca, essa bebida contém ingredientes alucinógenos... e por falar em Rebeca, minha irmã guia me livrou de cair na sedução de Michelle. Minha permanência na fraternidade está ficando impossível, apesar da proteção de Rebeca, sinto-me perseguida por Michelle, e como ela sabe sobre o romance entre mim e Sandra, temo pelas consequências.

Cada página daquele diário transportava Esther para uma realidade que ela conhecia, uma realidade onde os personagens da vida de sua mãe se repetiam na sua própria vida.

-- Atraí a fúria de Michelle rejeitando-a noite passada. Não posso permanecer nessa casa. Não revelei isso à Sandra, minha loirinha está tensa demais, isso a deixaria ainda mais nervosa. Ela viaja amanhã para Nova Iorque, pedirá sua parte na herança de seu avô, para alugarmos um apartamento e sairmos das fraternidades, será melhor para nós. Vai ser difícil enfrentar esses dias sem ela por aqui... Carol será nossa mensageira, já que usar os telefones da Gama-Tau será impossível, Michelle me impede de todas as formas. Enfim esse pesadelo está chegando ao fim, em breve Sandra e eu estaremos juntas para sempre.

Enquanto isso, Amy tentava se concentrar nos estudos na biblioteca, ainda irritada pela discussão com Esther e intrigada com tal caderno com o nome de solteira de sua mãe. Nenhuma hipótese que ela formulasse fazia o menor sentido, os mistérios e o comportamento da namorada era para a loirinha completamente indecifráveis. Quando menos esperava, Amy foi surpreendida por uma voz pouco familiar.

-- Amy Anderson?

Ao virar-se em direção a voz, Amy estremeceu ao constatar de quem se tratava: Michelle Roberts. A jovem disfarçou seu espanto, e até certo medo, quando a viu, e respondeu educadamente:

-- Sim, pois não.

-- Preciso falar com vocês a sós, você pode me acompanhar?

A loirinha balançou a cabeça positivamente recolhendo seus livros da mesa e seguiu Michelle até uma sala no prédio da reitoria. Chegou a sentir calafrios ao ouvi-la trancar a porta. No tom arrogante de sempre após mandar que a loirinha sentasse, Michelle disparou:

-- Quero apenas lhe dar um aviso mocinha: afaste-se de Esther. Ela pode estar se dizendo apaixonada, tendo um romancezinho ridículo com você, mas ela não é dona de si. Esther é minha, para seu bem e para o bem dela, repito: fique longe dela.

Amy arregalou os olhos, engoliu seco, mas ouvir aquelas palavras despertou na loirinha uma raiva indescritível, encheu-se de coragem e respondeu:

-- Você acha mesmo, que pode vir aqui me ameaçar? Acredita mesmo que tem algo contra mim? Ora Sra. Roberts, não sou sua refém, não tenho medo do seu poder, do seu dinheiro. Minha família tem até mais poder e dinheiro do que você, então não me venha com esse ar de superioridade, não me intimida, Esther não é sua propriedade e nosso romance é real, não tem nada de ridículo.

-- Como se atreve, sua fedelha?! Escute aqui, não vou permitir que você se intrometa entre mim e Esther, não desisto do que quero e não é um pirralha como você que vai me ameaçar.

-- Então você está se sentindo ameaçada?

-- Por você, uma pirralha? Nunca! Tenho total domínio sobre Esther.

-- Se você tivesse tanta certeza do seu “domínio” sobre Esther, não teria vindo tentar ameaçar a PIRRALHA aqui... Não te devo nada! E seu “poder” não é páreo para minha família, Sra. Roberts, então pense bem antes de vir com suas ameaças... E digo mais, Esther e eu estamos apaixonadas, e farei de tudo para livrá-la de você, sua doente!

-- Então você não tem medo de mim, não é? Vamos ver o que Esther vai achar quando ela sofrer as consequências da insolência da namoradinha dela... Vamos ver quem está no comando.

Michelle soltava faíscas de ódio pelos olhos, não esperava Amy enfrentá-la, mas as últimas frases deixaram a loirinha apavorada, temendo o que aquela mulher louca e sádica poderia fazer à sua amada. Arrependeu-se de não ter se controlado, mas não deu tempo se refazer, Michelle deixou a sala batendo a porta com toda força, desfilando pelos corredores da reitoria com sangue no olhar.

Esther passava em frente ao prédio da reitoria indo em direção da Gama-Tau, quando avistou Michelle sair de lá absolutamente transtornada, escondeu-se da sua visão, e em segundos viu Amy sair pela mesma porta, com a pele alva tomada de rubor. Conhecendo a loirinha, Esther sabia que isso era sinal do seu nervosismo e isso a deixou nervosa também. Esperou Michelle se afastar o suficiente e seguiu Amy pelo campus.

-- Amy? O que houve?

-- Esther?

-- Vem cá, você está pálida -- Esther abraçou Amy e sentiu o coração da loirinha descompassado, nem se lembraram que estavam brigadas, ficaram abraçadas, até Amy acalmar-se e então falar:

-- Esther, nem sei como dizer isso, mas Michelle Roberts me procurou agora...

-- Oh, Deus! Você está bem? Ela fez alguma coisa? O que ela queria com você, minha linda?

-- Calma, meu amor... Ela só quis me intimidar e exigiu que me afastasse de você.

-- Aquela vagabunda!

Voltou a abraçar Amy com carinho, como se quisesse protegê-la, mal sabia que a loirinha estava sim apavorada, mas não por ela mesma, mas pelo que Michelle poderia fazer a sua amada.

-- Esther, ela não me assustou... Eu até a enfrentei... Ela não sabe com quem está se metendo...

-- Não, Amy, não diga isso! Michelle é uma mulher perigosa, ela joga baixo, joga sujo, fique longe, eu me entendo com ela.

-- Mas tome cuidado... Temo que ela faça algo contra você porque eu a enfrentei. Ela fez ameaças...

-- Calma, eu sei lidar com ela... Não se angustie, vamos pra casa.

Na mansão, tudo pronto para a chegada das irmãs ilustres. Ellen e uma veterana que já fora affair de Esther, Vanessa, cochichavam pelos cantos da casa. Laurel que conhecia muito bem as armações de Ellen comentou com Rachel o comportamento estranho das veteranas. Rachel, no entanto, parecia mais preocupada com o resultado da conversa entre o casal Amy e Esther, que subiram para o estúdio assim que adentraram a mansão.

-- Eu queria te pedir desculpas pelas coisas que disse hoje de manhã -- Esther falou segurando as mãos de Amy.

-- Eu acho que também te devo desculpas, mas é que quero tanto te conhecer Esther... Às vezes me sinto tão próxima de você, seus olhos me dizem tanto. Mas outras vezes você se torna uma incógnita pra mim, fico perdida porque te amo tanto...

Esther se emocionou com a declaração de Amy, segurou o impulso de dizer que também amava a loirinha, abraçou-a e disse:

-- Espero um dia poder revelar todos os meus segredos a você Amy, sem te afastar de mim... Sobre o caderno que você viu mais cedo comigo, bem, é o diário de minha mãe.

-- Sua mãe? Mas por que o nome de minha mãe estava escrito nele? Pessoas ou nomes iguais?

-- Isso acho melhor você perguntar à sua mãe, minha linda...

Mesmo tomada de curiosidade, Amy concordou para não brigar de novo com Esther. A morena, por sua vez, esperou a loirinha dormir e voltou a ler o diário de Carmem, notando que os relatos da mãe ali começaram a ficar mais espaçados. Percebeu que o momento mais triste da história de Carmem se aproximava.

-- Esse é o dia que por mais que eu queira esquecê-lo vai me acompanhar para sempre, me trazendo toda dor desse momento. Sandra Williams me destruiu, todo amor que eu tinha por essa mulher tenho que matá-lo assim como ela fez à minha alma... Ela me fez acreditar que estava indo resolver nossa vida em Nova Iorque, mas era tudo parte de um plano para me humilhar diante da fraternidade dela e do campus. Faz uma semana que ela viajou, não me mandou um recado sequer, apesar de todos que mandei para ela por Carol. Hoje no banheiro ouvi a conversa de Carol com outras meninas da Beta-lo na qual ela dizia: “Meninas, a Sandra conseguiu! A latina da Gama-Tau está na mão dela, toda apaixonada confiando que a Sandra deixará a fraternidade para morar com ela. Ontem mesmo ela me falou sobre o casamento dela com Wiliam, acertaram tudo no jantar na casa dos pais dela... Ai, o amor não é lindo? Wiliam entendeu porque Sandra usou aquela aberração para darmos uma lição nessas Gama-Tau. A última parte do plano se aproxima... Como ela foi ingênua! Acreditar que Sandra é doente como elas...” Não pude acreditar nisso... Até ver no jornal da universidade a matéria falando sobre o jantar para marcação da data do casamento de Sandra com Wiliam, e para me humilhar ainda mais, as beta-lo espalharam pelo campus panfletos fazendo piada da minha relação com Sandra com frases que só ela e eu dissemos uma pra outra. Como ela pôde fazer isso comigo? Se ela pensa que isso vai ficar assim, ela se prepare, porque a volta dela e do noivinho será um grande evento para mim...

Esther leu aquilo não mais tomada de revolta, mas procurando detalhes para investigar a possibilidade de tudo não ter passado de uma grande armação com o dedo de Michelle no meio. Depois desse relato, os que se seguiram foram escassos, algumas frases narrando o sofrimento que ela enfrentava, a revolta e a saudade de Sandra, crises de consciência, poemas, nada que acrescentasse na busca por respostas de Esther. Depois de ler as revelações de sua própria mãe, convenceu-se que tinha que dar à Sandra ao menos o benefício da dúvida para não ser obrigada a ferir seu grande amor: Amy.

Aconteceu Você : Sétimo capítulo

Capítulo 7: Que mulher é essa?


Marisa saiu da sala antes que eu pudesse me desculpar ou relutar qualquer coisa. Percebi o quão mal educada e desagradável eu estava sendo, ao voltar para o ambulatório, não encontrei Marisa me esperando, outro médico me informou que os exames não revelaram qualquer fratura, orientou que eu mantivesse repouso, prescreveu um analgésico e me liberou.

-- Então vamos sardenta! Hoje nós dormimos com você, vamos cuidar dessa paciente. – Disse Daniel.

-- Não é necessário Dan...

-- Claro que é! Você vai ficar sob nossa observação. – Afirmou Diego.

Ainda frustrada por não rever Marisa, saí do ambulatório procurando entre as pessoas transitando no hospital, a médica que me atendeu, em vão, Marisa parecia ter evaporado dali. Beto e Luisa nos acompanharam até minha casa, o Leandro já estava nos esperando, sempre divertido, preparou um cartaz de boas vindas todo enfeitado com a foto de um cavalo e o colou na porta do meu quarto.

Meus novos amigos foram super atenciosos e fofos comigo, Leandro preparou o jantar e comemos todos juntos no meu quarto. Diego e Dan ficaram para dormir comigo depois que os outros foram embora, demorei a pegar no sono lembrando o meu reencontro com Marisa, não só pelo meu comportamento infantil, mas também por que a imagem dela linda, cuidando de mim, a lembrança do seu cheiro, da sua voz, tiravam minha paz de uma maneira inexplicável e inédita para mim.

A noite foi longa, meu corpo doía sofrendo os efeitos da queda acordei com o café na cama trazido por Diego, e com um convite do Dan:

-- Está se sentindo bem?

-- Sim meu amigo, estou bem, vocês dois são enfermeiros maravilhosos!

-- Então ótimo, vamos sair um pouco e aproveitar o sol que abriu hoje. – Convidou Dan

-- Mas vamos pra onde Dandan?

-- A minha sala está promovendo um churrasco no clube da cidade, para arrecadar uma graninha para nossa festa de formatura, vai ter uma banda de pop rock, outra de pagode, enfim, vai ser legal. – Esclareceu Diego.

Não havia como recusar o convite do meu casal de amigos. Pouco antes do almoço, saímos com destino ao clube da cidade.

O clube estava lotado, a banda de pagode já animava os convidados. Diego muito popular me apresentou a vários colegas, a maioria não era de Nova Esperança, a cidade universitária, atraía gente de todos os estados. Estava tudo muito tranqüilo para mim, apesar de ainda experimentar dores no meu corpo conseqüentes da queda no dia anterior. Para sacudir minha auto-estima, ouvi boas cantadas dos acadêmicos de medicina, entretanto, eu sequer dei importância, eles inexplicavelmente não despertavam meu interesse.

Duas horas depois de chegar à festa, fui até o banheiro, cheio de acadêmicas de medicina retocando a maquiagem, algumas já bem animadas pelo álcool, trocavam suas impressões sobre a festa e os meninos de lá. O chão escorregadio contribuía para esbarrões na saída dos boxes, em um desses incidentes a porta do box veio direto na minha cara e junto com ela uma mulher tropeçando caindo nos meus braços.

Nem pude acreditar quem estava ali mais uma vez face a face comigo, os mesmos olhos hipnotizantes, o perfume cítrico: Marisa.

-- Quem é mesmo que tem um ímã para mim?

Eu disse arrancando um sorriso tímido de Marisa. Os segundos de troca de olhares foram interrompidos por uma garota indagando:

-- Dra. Marisa desculpe-me escorreguei e empurrei a porta, machuquei a senhora?

-- Não machucou não graças a cobertura da imprensa...

Sorri com a brincadeira de Marisa, enquanto observava o olhar cheio de volúpia da tal garota para Marisa. Não sei por que aquele olhar da garota me incomodou, a tal ponto que dessa vez fui eu a interromper:

-- … melhor você ter mais cuidado, poderia ter causado um acidente desagradável.

-- Claro, mais uma vez, desculpe-me professora.

A garota saiu do banheiro deixando a sós eu e Marisa:

-- Então doutora, será que nossos papéis estão se invertendo e agora sou eu a lhe salvar de quedas?

-- Se você não estiver montando um cavalo...

Fiz careta para ela o que despertou um sorriso descontraído, deixando-a ainda mais linda.

-- Então, como você está se sentindo? Alguma dor?

-- Sinto dor no corpo, especialmente nas costas, mas nada insuportável.

-- Então você foi bem tratada suponho.

-- … os médicos de Nova Esperança parecem ser competentes...

Marisa sorriu balançando a cabeça positivamente, mais meninas foram entrando no banheiro quebrando aquele clima, disfarcei indo até a pia lavando minhas mãos sob o olhar atento da médica.

Pelo espelho continuei fitando o olhar de Marisa, notando a popularidade dela entre as meninas que entravam no banheiro, algumas a cumprimentavam até com um grau de intimidade maior, mas todas demonstravam respeito com ela.

-- Eu sei que você gosta dos banheiros de Nova Esperança, mas você ainda vai passar muito tempo por aqui? – perguntou Marisa.

-- Se a medicina não der certo, definitivamente você deveria tentar a carreira de humorista.

-- Você nem imagina quantos talentos uma boa médica tem que ter...

Fui me afastando em direção à porta de saída, enquanto Marisa me seguia:

-- Vou voltar para festa, meus amigos devem estar preocupados, achando que caí de novo.

-- Posso acompanhar você? Cuidados médicos... Só uma precaução, no caso de algum cavalo ou amontoado de ração aparecer pelo caminho...

-- Tudo bem doutora, só por isso...

Saímos do banheiro e caminhamos pelo clube, meio tímidas, pelo percurso Marisa parou diversas vezes para cumprimentar alunos, até encontrarmos Diego e Dan:

-- Dra. Marisa! Sabia que a madrinha de nossa turma ia aparecer! – Exclamou Diego.

-- Claro Diego faz parte das minhas obrigações.

-- Viu que cuidamos direitinho da Alex? Do jeito que a senhora pediu! – Diego disse inocente.

Estranhei a colocação do Diego, especialmente quando notei o Dan apertando a mão do namorado enquanto Marisa arregalava os olhos. Fingi nada ter percebido, deixando que eles se confiassem na minha famosa distração.

-- Então doutora há algum problema se eu beber uma cervejinha? – Perguntei.

-- Claro que não Alexandra. Mas não exagere...

-- Então eu vou pegar pra você sardenta! Vamos Diego. – Disse Dan.

Fiquei na companhia de Marisa, enquanto o casal se afastava, e o assédio das alunas dela me incomodava de uma maneira insana. Minha cara de poucos amigos foi notada pela própria Marisa:

-- Aconteceu alguma coisa Alexandra?

-- Não, por quê?

-- Esse bico aí... Roubaram seu doce?

Não sabia sequer o que responder a Marisa, ainda bem que Diego e Daniel apareceram de volta com as cervejas me salvando daquela saia justa. Manter-me perto de Marisa o resto do dia foi difícil, ela era requisitada constantemente nas rodinhas dos alunos, até mesmo para dançar com alguns deles. Meu humor ficou tão alterado que no meio da tarde pedi ao Dan que me deixasse em casa.

-- Mas sardenta, por quê?

-- Estou com dor no corpo Dan, quero descansar.

-- Tudo bem então... Vou avisar ao Diego que estou indo te deixar, vai pro carro e me espera lá.

Sai do clube em direção ao estacionamento, buscando no olhar a localização de Marisa, para minha tristeza não a encontrei. Encostei-me no carro do Dan aguardando-o, quando o meu celular tocou, era a Renatinha. Fofocamos por um tempo colocando os assuntos em dia, naturalmente não deixei de contar minha aventura eqüina, distraí-me no papo e nem notei o tempo passar, nem muito menos estranhei a demora do Daniel, ao desligar o telefone ouvi a voz tão familiar nos últimos dias:

-- Fugindo moça?

Era Marisa, me surpreendendo ao meu lado, com um sorriso diferente, igualmente lindo, mas seu olhar tinha um brilho incomum, ao notar a aproximação dela percebi o forte hálito de álcool, logo deduzi que a respeitada médica já tinha bebido demais.

-- Não estou fugindo não doutora, estou indo para casa descansar, esse churrasco está me deixando exausta.

-- Mas a festa está apenas começando Alexandra...

O brilho do olhar de Marisa tinha um quê de malícia, me dando a certeza que a abordagem dela era um flerte descarado o que provocou em mim reações confusas de medo e satisfação.

-- Para você está mesmo animada a festa... Mas para mim, não estou vendo nada muito interessante.

-- Jura que não está vendo nada interessante?

Inesperadamente, Marisa colocou-se de frente para mim, encostando suas mãos no carro, envolvendo-me entre seus braços. Nervosa com a proximidade do corpo de Marisa, eu gaguejei para responder:

-- Eu... Eu quis dizer que... Que... Não estou me divertindo tanto quanto você.

Marisa não se intimidou com meu sarcasmo atrapalhado, manteve-se perto de mim deixando-me com a respiração ofegante e o coração acelerado. Minhas pernas tremiam, e não conseguia desviar meu olhar do dela.

-- Acho que podemos deixar as coisas mais justas e você se divertir um pouco mais, você está precisando... Vem comigo?

Ela fez um movimento com a cabeça e puxou minha mão gelada:

-- Eu não posso, o Dan vai ficar preocupado, ele vai me deixar em casa.

-- Não se preocupe, já avisei ao Daniel que eu te levaria em casa.

Não contestei em segui-la, exceto quando notei Marisa cambalear ao andar:

-- Tenho uma exigência doutora...

-- Estava demorando... Pois não donzela!

-- As chaves do carro! Eu dirijo você não está em condições de dirigir.

-- Mas você não sabe o caminho!

-- O caminho você pode ensinar...

-- Adoro ensinar...

A malícia na voz suave de Marisa, agora tinha um teor absurdamente sensual que me arrepiava inteira. Entramos no carro, trocando olhares, o meu tímido, o de Marisa era quase indecente.

-- Siga a estrada principal, na primeira bifurcação dobre a esquerda. – orientou Marisa.

Apenas balancei a cabeça positivamente e segui a orientação de Marisa que me olhava fixamente, me deixando mais nervosa:

-- O que foi Marisa?

-- O que foi o que?

-- Está me olhando assim... Está com medo de que eu bata seu carro?

-- A minha menor preocupação nesse momento é com meu carro...

Nesse momento, Marisa tinha um sorriso arrebatador, com muito sacrifício mantive minha concentração no volante, mas quando ela roçou o dorso de sua mão macia no meu braço, senti meu corpo estremecer. Ruborizei, respirei fundo, que espécie de energia tinha aquela mulher que deixava minha sensibilidade tão evidente?

-- Está tudo bem Alexandra?

-- Han?

-- Perguntei se está tudo bem... Você parece nervosa...

-- … que... Sou fraca...

Marisa sorriu discretamente, como se saboreasse uma pequena vitória e avisou:

-- Dobre aí à esquerda e siga pela trilha da estrada de terra.

Dirigi por alguns minutos pela estrada de terra, até encontrar um portão de madeira.

-- Pare aqui, esta é minha casa.

Marisa desceu do carro e abriu o portão. Entrei com o carro avistando uma casa de campo requintada, com um alpendre espaçoso, à frente um jardim muito bem cuidado, e toda propriedade era cercada de árvores frondosas. Desci do carro encantada com a paisagem, ainda sem saber o que eu fazia ali.

-- Venha Alexandra, entre na minha humilde residência.

Tímida, coloquei minhas mãos nos bolsos de frente da calça e segui Marisa até o interior de sua casa. Contemplei a decoração rústica, mas elegante. Marisa convidou-me a sentar no sofá espaçoso e confortável e sentou-se ao meu lado.

Notei Marisa se aproximar de mim, e fiquei apavorada. Quando ela passou a mão pelo meu cabelo e deixou sua boca quase colada na minha, inventei de sentir sede... Se bem que minha boca estava mesmo seca, sedenta de algo que nunca desejei tanto: os lábios de uma mulher.

-- Quero água! Você pode me dar água?

Meio frustrada Marisa se afastou e respondeu:

-- Claro.


Marisa levantou, e eu a segui até a cozinha, bebi o copo d’água com uma voracidade desconcertante. A dona da casa não só me observava, ela me devorava com os olhos. Não tardou mais concretizar o desejo evidente. Marisa se aproximou de mim, pressionando-me contra o balcão da cozinha, acariciou meus cabelos, e tomou minha boca com sofreguidão, me deixando sem forças, sem qualquer defesa no beijo mais excitante que experimentei em toda minha vida.

Seus lábios eram os mais quentes que me beijaram até aquele dia. Um beijo perfeito, na intensidade, na velocidade... Nem muito molhado, nem seco, sua língua parecia massagear minha libido tamanha era a excitação despertada naquele momento.

Nossos lábios se afastaram lentamente, minhas pernas tremiam, e minhas mãos suavam, a respiração quente de Marisa na minha pele provocava em mim uma sensação indescritível de ansiedade misturada a um desejo incontrolável de me jogar nos braços dela e me perder outra vez na sua boca. E como se entendesse o que meu corpo clamava, Marisa segurou minha nuca puxando minha boca para perto da sua, beijando-me com volúpia.

O beijo não deixava espaço para qualquer reflexão, palavras, me entreguei como se fosse o último momento da minha vida. Marisa me conduziu pela casa sem cessar o beijo, me jogou no sofá, e sua língua roçou pelo meu pescoço, colo, despertando meu gemido. Minhas mãos pareciam cumprir a obrigação de explorar aquele corpo tão quente e delicioso. A maciez da pele de uma mulher para mim nunca me inspirou sensualidade, mas os movimentos de Marisa sobre mim roçando nossas peles era o momento mais prazeroso na minha vida até então.

As mãos de Marisa por baixo da minha roupa eriçavam cada pedaço do meu corpo, e nossos beijos eram cada vez mais intensos, e eu não podia acreditar que estava nos braços de uma mulher me derretendo de tesão.


Mas meu famoso talento para confusão deu seu ar de sua graça finalmente... O zíper da minha calça ficou preso no cinto da Marisa, e tentando me desvencilhar, acabei provocando nossa queda no chão.

-- …... Estava demorando... Nós duas juntas e nenhuma queda... – Disse Marisa esfregando a mão na cintura.

Sorri escondendo meu rosto entre minhas mãos:

-- Desculpa Marisa, eu sou muito desastrada mesmo...

Marisa abriu aquele sorriso que me desestruturava... Aproximou-se mais uma vez de meus lábios, beijando-me suavemente:

-- Onde foi mesmo que paramos?

A voz de Marisa bem perto do meu ouvido era suficiente para acender meu desejo, quando estava me entregando em outro beijo, senti minha perna tremer sem parar:

-- Alexandra... Está vibrando...

-- Está sim... Está tudo vibrando mesmo...

-- Alexandra estou falando do seu celular no bolso, está vibrando...

-- Ah!

Sorri sem jeito, pegando meu celular no bolso, era Daniel, tinha que atender.

-- Oi Dan.

-- Alex, onde você está?

-- …... Estou... Estou...

-- Você está com a Marisa?

-- Sim...

-- Amiga preciso dela, o Diego bebeu demais, passou mal, mas não posso levá-lo para o hospital, o pai dele está de plantão hoje.

-- Onde vocês estão?

-- Na minha casa, venham logo!

-- Estamos indo.

Expliquei a situação a Marisa, que se apressou em pegar sua maleta, e seguimos para a casa do Dan, a fim de atender seu namorado. No percurso não trocamos nenhuma palavra, mas meu corpo ainda queimava de desejo olhando para Marisa concentrada mexendo nos itens da sua maleta de médica.

Chegamos à casa do Dan, Diego estava desmaiado, depois de examiná-lo constatou que não era nada grave, Marisa administrou uma ampola de glicose, em minutos Diego já dava sinais de consciência, nos tranqüilizando.

Deixamos a casa do Dan, eu um pouco constrangida, pelo olhar do meu amigo para nós duas. Marisa me deixou em casa, e na porta me senti como uma adolescente que saía com um carinha pela primeira vez, em dúvida sobre como me despedir dela, na verdade, queria mesmo era convidá-la para entrar, e naquele silêncio dentro do carro, falamos ao mesmo tempo:

-- Boa noite.

Fiz menção de sair do carro, mas, minha vontade de beijá-la foi mais forte. Quando me aproximei dela, senti sua mão nos meus lábios:

-- Não faça isso...

Estranhei e não nego, me irritei com o gesto dela, deduzindo que ela poderia estar arrependida pelo que aconteceu mais cedo entre nós. Não esperei justificativas, desci do carro furiosa, batendo forte a porta, deixando Marisa com cara de interrogação.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

LEIS DO DESTINO: 1ª FASE - 22º CAPÍTULO

Sem mencionar uma só palavra, mas tomada de uma fúria avassaladora, Diana empurrou Natalia para dentro do seu carro e seguiu para o apartamento da moça que não ousou quebrar o silêncio em todo percurso.

                De frente ao prédio de Natália, o silêncio foi quebrado por uma ordem expressa de Diana:

-- Desce do carro e vê se toma juízo!

-- Eu... Não sei o que dizer, não podia imaginar que ela...

-- Se não sabe o que dizer, desce calada, entre logo, é perigoso ficar parada aqui essa hora!

-- Diana...

-- Natalia entre em sua casa agora, você já extrapolou os limites da minha paciência hoje.

                Consciente de que Diana estava certa, Natalia desceu do carro e caminhou até a porta do prédio de cabeça baixa, enquanto Diana segurava o volante com força, descarregando sua raiva.          


                A raiva que sentia não era só de Natalia e Isadora. Era principalmente dela mesma, por não conseguir controlar seus sentimentos. Não conseguia ficar indiferente a Natalia, nem ao seu corpo, nem à sua voz, nem aos seus olhos, e muito menos às suas atitudes. Todas as emoções se misturaram naquela noite quando estava diante dela, e por mais que quisesse odiá-la por não ter acreditado na sua inocência no episódio das fotos, por ter ficado ausente em seu momento mais vulnerável, e ter se comportado levianamente na boate, tudo que Diana desejava era tomá-la em seus braços e matar a saudade de sua boca, de seu gosto, de seu cheiro.

                Natalia permaneceu parada à porta do seu prédio, nutrindo o fio de esperança de Diana descer daquele carro e tirar do seu corpo as impressões digitais de Isadora. Ao invés disso, uma chuva caiu de repente, no exato momento que Diana destravava suas mãos do volante e descia do carro.

                Como se não desse conta do seu corpo ensopado pela chuva, Diana permaneceu diante do seu carro, encarando Natalia parada à frente do prédio, imóvel. No interior de ambas o duelo entre desejo e racionalidade limitava os passos de uma em direção a outra. Fácil prever quem venceria essa luta. Bastou os olhos se encontrarem, e falarem por si sós. Cada uma deu um passo, cauteloso, lento, como se caminhassem em campo minado. E quando estava óbvia a vitória do desejo, ao mesmo apressaram os passos, e sob a chuva uniram suas bocas, lânguidos seus lábios se devoraram, suas línguas se enroscaram, enquanto seus braços puxavam com força uma contra o corpo da outra, deixando explícita a necessidade que estes tinham de se fundir.

                Aquele beijo intenso se prolongou o suficiente para Diana ter um lapso de arrependimento. Afastou-se de repente desvencilhando-se de Natalia, e correu para seu carro, partindo sem olhar para trás.

******

                Nem se Natalia passasse o resto da noite naquela chuva, o calor que sentiu naquele beijo cessaria. Não conseguiu dormir, sentindo seu corpo arder, ao ressentir as sensações que Diana lhe provocava.              

                Restavam duas horas de sono até a hora do treino de vôlei, quando Natalia conseguiu se acomodar. Sem a mínima disposição física ou mental para sequer levantar-se, Natalia seguiu para o ginásio de esportes da universidade, a fim de desvincular por alguns momentos seu pensamento de Diana.

                Causando estranheza nas suas companheiras de time, Natalia não rendeu como nos treinos anteriores, estava desconcentrada, pediu desculpas às meninas dando uma justificativa qualquer e saiu antes do treino acabar.

                Na quadra vizinha Lucas treinava basquete, ao ver Natalia passar cabisbaixa, lembrando-se do comportamento da moça na noite anterior, preocupou-se, seguiu a moça e essa foi a sorte de Natalia.

                Quando caminhava para a saída da universidade, passando perto do estacionamento, Natalia foi abordada mais uma vez por Sandro, seu colega, responsável pelas fotos no trote.

-- Olha só quem veio me dar bom dia! A gatinha feroz, que quis me devorar ontem...

                Natalia paralisou por um instante, e tentou apressar os passos em seguida, mas Sandro a segurou com violência.

-- Sempre apressada essa menina... Mas, hoje nossa conversa vai ser em um lugar mais aprazível do que a porta de um banheiro...

                Natalia esperneou, mas Sandro era alto e forte, as forças da moça não foram suficientes para evitar que o rapaz a empurrasse para dentro do seu carro no estacionamento. No momento em que bateu a porta, foi surpreendido por um soco poderoso no nariz, que o fez cair no capô do seu carro.

                Sandro não teve tempo de se refazer, e já recebeu outro golpe, se desequilibrou e caiu no chão. Lucas envolveu seu braço nos ombros de Natalia que tremia apavorada.

-- Está tudo bem agora Natalia, vou dar uma lição nesse cara...

-- Não Lucas...

                Sandro pôs-se de pé, ainda tonto, com o rosto ensanguentado tentou revidar os golpes que sofrera de Lucas, mas com facilidade foi empurrado por este.

-- Cara só vou te dizer uma vez: fique longe dela, não ouse encostar em um fio de cabelo, não ouse direcionar a palavra a ela, ou vou ter que ser menos cavalheiro com você, tenho certeza que não vai querer conhecer meu lado menos educado.

-- Você acha que tenho medo de você? Só me pegou desprevenido, mas isso não ficará assim! Não sabe com quem se meteu! Isso tem volta!

-- É só dizer quando você quer apanhar mais e vou estar pronto pra você!

                Sandro entrou no carro possesso de raiva arrancando dali. Lucas deu um abraço protetor em Natalia que permanecia pálida e trêmula.

-- Natalia, o que aconteceu aqui? O que esse cara queria?

--Foi ele que tirou e espalhou as fotos Lucas. Ontem ele me perseguiu no Botecão, tentou me agarrar, eu mordi os lábios dele quando me beijou, ficou violento comigo, me fez ameaças, disse que vai colocar na internet a foto, e que pode até fazer uma montagem com essa foto...

-- Ei ei ei! Calma aí? Esse cara está te assediando, fazendo chantagem e você não conta nada? Natalia isso é crime! Temos que tomar providências mais sérias contra ele, até conseguirmos expulsá-lo da universidade, isso é o mínimo que podemos conseguir.

-- Ele agora vai querer se vingar de você Lucas...

-- Ele é só um covarde que se aproveita de mulher, não se preocupe comigo, na segunda-feira falo com o coordenador do curso, vou pedir ajuda ao Pedro, pra ver o que podemos fazer para puni-lo, quanto às fotos, vamos pensar em algo que o impeça de fazer o que ameaçou. Agora vamos, vou te deixar em casa.

-- Você está se especializando em salvar donzelas... – Natalia brincou.

-- É verdade, acha que tenho futuro?

-- Acho que você é o melhor.

                Natalia sorriu tímida, enquanto Lucas fazia pose máscula.

-- Preciso passar na quadra para pegar minhas coisas, mas é rápido, vamos?

                A menina acenou em acordo e seguiu com Lucas até a quadra. No ponto de ônibus, sentados, a moça observou a mão machucada do rapaz, certamente pelos socos que deu em Sandro.

-- Deixe-me ver sua mão, está machucada...

                Satisfeito com a preocupação da moça, e com o contato de suas mãos, Lucas não se fez de rogado, permitindo ser cuidado por Natalia. Prevenida como sempre, a moça retirou de sua mochila uma garrafinha de água e uma toalha de rosto limpa.

-- Precisamos de gelo aqui... Você quer ir até a padaria para comprarmos?

                Querendo prolongar aquele cuidado, Lucas concordou, e com diversos pretextos, acabou por conseguir permanecer até o final da manhã com Natália, restando a alternativa de convidá-la para almoçar com ele. Grata por ser salva mais uma vez pelo rapaz, Natalia sentiu-se na obrigação de aceitar, e assim seguiram para um restaurante sugerido pelo rapaz.

                A companhia de Lucas era agradável, o que acabou distraindo Natalia de suas angústias e dilemas. Almoçou em clima ameno com o rapaz, até avistar entrando no mesmo restaurante o motivo de sua insônia e inquietação: Diana. E para piorar o desconforto, a loirinha chegou acompanhada de outro rosto conhecido, sua ex-namorada Júlia.

-- Olha só quem está chegando ali!

                Lucas comentou como se fosse surpresa para Natalia, que mudou imediatamente sua expressão descontraída.

-- Hum... E veio com a Julia, devem ter voltado a namorar, Diana nega, mas sei que ela está apaixonada, e vendo-a com a ex, acho que não me enganei. E por falar em Diana, como foi a balada com ela ontem?

                Natalia não conseguia desviar o olhar das duas, e não sabia o que responder a Lucas, foi vaga na resposta.

-- Foi normal, tranquila.

                Sabendo que o rapaz não se conformara com a resposta, desconversou falando do cardápio de sobremesas, quando notou a aproximação de Diana e Julia.

-- Olá meninas! – Lucas cumprimentou simpático.

-- Oi Lucas, há quanto tempo hein? – Julia retribuiu a simpatia.

-- Faz tempo mesmo Julia, surpresa boa encontrar vocês aqui.

                Diana continuou em silêncio, a exemplo de Natalia.

-- Olá. – Julia disse a Natalia.

-- Oi, como vai? – Natalia respondeu cordialmente.

-- Que mal educado que sou! Julia essa é Natalia minha amiga caloura da faculdade. Natalia, essa é Julia, uma das artistas plásticas mais talentosas do mundo!

-- É puro exagero de gentileza dele Natalia. Muito prazer.

                Natalia foi educada, apesar de demonstrar seu desconforto com a situação.

-- Parece que o restaurante está ainda mais lotado hoje. Não há uma mesa disponível, que tal irmos para outro lugar? – Diana saiu do seu silêncio.

-- Ah Diana, só escolhi esse restaurante por que estava com saudades da comida daqui! – Julia retrucou.

-- Sentem conosco, já estamos escolhendo a sobremesa, daqui a pouco vamos embora, e vocês já ficam com nossa mesa.

-- Ótimo!

                Julia aceitou feliz o convite. Lucas usando de seu cavalheirismo levantou-se e puxou a cadeira para Diana e Julia sentarem-se.

                O clima estranho na mesa, só não era mais evidente, para Lucas, que era o mais inocente naquela situação, por isso, manteve o diálogo animado com Julia, enquanto Natalia e Diana tentavam disfarçar a troca de olhares.

-- O que foi isso na sua mão Lucas?

                Julia perguntou, atraindo o olhar de Diana para o machucado do rapaz.

-- Coisas do ofício de salvador de donzelas em perigo. – Brincou.

-- Conta aí Lucas, isso ta me cheirando a briga de meio de rua... O que foi agora? – Diana perguntou desconfiada.

-- Foi algo que me fez lembrar que te devo um pedido de desculpas.

-- Han?

-- Natalia, tudo bem se eu contar? Ela pode ajudar também...

                Lucas segurou a mão de Natalia, que não sabia o que responder, não imaginava a reação de Diana.

-- Fala Lucas! Estou ficando preocupada.

                Natalia concordou com um gesto positivo, autorizando Lucas a contar. O rapaz narrou o que acontecera, e à medida que dava detalhes das ameaças de Sandro, o rosto e colo de Diana tomavam a cor vermelha, anunciando sua fúria, que se exteriorizou com um soco na mesa, ao ouvir Lucas contar que Sandro empurrou Natalia para dentro de seu carro à força.

-- Filho da mãe!

-- Calma Diana! – Julia apertou a mão no ombro de Diana, alertando-a sobre sua reação exagerada diante de Lucas.

-- Eu acusei Diana injustamente Natalia, pensei que ela tivesse aprontado isso com você, por isso, acho justo que ela saiba. Desculpa Di.

-- A gente tem que fazer alguma coisa. Lucas isso é um absurdo, quem esse cara pensa que é?

-- Tenho uma ideia do que fazer vou precisar de sua ajuda, posso contar com você?

                Mais contida nos seus ânimos, Diana tentou esconder sua ira e interesse em resolver essa questão.

-- Quando foi que te neguei ajuda? – Diana pausou diante do olhar de Lucas que indicava uma resposta positiva para aquela indagação. – Ok, quando recusei ajuda em questões importantes?

                O rapaz sorriu.

-- Vou entender isso como um sim.

                Natalia sentia uma alegria enorme ao ver Diana preocupada com ela, entretanto, a presença de Julia ali minava qualquer esperança a respeito de um possível entendimento entre elas duas.

-- Bom, acho que a mesa é de vocês, terminamos nosso almoço, vamos Natalia?

-- Sim, vamos.

                Lucas e Natalia se levantaram juntos, Diana os acompanhou com os olhos, mastigando o ciúme pela notória intimidade entre os dois. Natalia se sentia observada por Diana, e por isso, não impôs resistência às gentilezas do rapaz.

-- Por mais que você os olhe, fuzilando-os com seu ciúme, não adianta você não conseguirá derrubá-los só com o poder da mente.

-- Ha ha, é uma piadista minha ex-namorada!

-- Diana, você é patética tentando esconder seus sentimentos sabia?

-- Ah é? O que você acha que eu deveria fazer?Eu te contei o que houve. Está vendo como o Lucas está caído por ela? E ela continua dando trela pra ele! Julia, como se não bastasse tudo que ela fez, agora volta a dar mole pro meu melhor amigo...

-- Ei! De onde saiu tanta intransigência de você? Por que você é tão dura pra julgar essa garota? Diana você já se colocou no lugar dela? Já pensou o quanto ela está apavorada? Se Lucas não tivesse livrando-a desse cara hoje, sabe-se lá o que ela teria sofrido nas mãos dele!

-- Eu quero matar esse filho da mãe!

-- Diana a cabeça dessa menina deve estar a mil! Não só pelo fato de estar se descobrindo lésbica, como essa sucessão de exposição, encarar uma vida adulta sozinha numa cidade estranha, a perseguição de um psicopata, e ainda por cima, a garota que ela está apaixonada parece não saber o que quer com ela!

-- Ah não Julia, você não vai me convencer que a culpa é minha, não mesmo!

-- Diana não se trata de achar um culpado, me diz, o que importa de quem é a culpa? Você errou, ela errou, não foi a primeira vez e nem será a última que duas pessoas que se gostam se desentendem. Há tempos em que a gente cai no erro de super dimensionar os fatos que por vezes nem os são porque não passam de meras hipóteses, atribuímos importância a palavras e discursos que nunca tiveram a pretensão de entrar pra história quando mencionados, e as transformamos em sentenças absolutas, em regras inquestionáveis, e até em castigos irreversíveis.  

-- Muito profundas suas palavras, como sempre Julia, mas, elas não mudam o que me separa da Natalia. Não gosto do jeito como ela me tira a razão e o senso, não gosto dessa sensação de não ter o controle das coisas. Perdi o controle, te traí, acabei com um relacionamento estável que me fazia feliz, estou enganando meus melhores amigos, e vivo numa luta sem fim para não agarrá-la todas as vezes que a encontro. Julia isso é absurdo, eu durmo e acordo pensando nela, não pode ser bom isso, definitivamente, não pode acabar bem, sendo assim, melhor que nem comece.

-- Você está tentando convencer a mim ou a você disso?

-- Julia não sei por que você é tão condescendente com as coisas da Natalia, você deveria odiá-la!

-- Por que odiaria a menina? Não foi ela que ofendeu, foi você! Sequer a conhecia. E ao contrário do que você afirma, não sou condescendente, apenas a compreendo, por que já tive dezoito anos, você deveria entendê-la também.

-- Nossa diferença de idade nem é tão grande, uns quatro anos só...

-- Ah para né Diana! Vai querer mesmo comparar? Esses quatros anos são toda diferença, por que você os viveu de maneira praticamente independente, um deles em Nova Iorque! Essa menina viveu a vida inteira com os pais no interior!

-- Ah... Não é bem assim... Você sabe que o que passei com meu pai não foi e não é nada fácil...

-- Cada um com seus problemas... Mas, pra encerrar essa questão, por que nosso almoço já está chegando: para de ficar aí alisando suas mágoas, para de fazer drama e trate de se entender com a Natalia, por que já tem gente na fila, esperando a caipirinha abrir um espacinho! Acorda mulher!

*************

                Lucas foi educado e cuidadoso com Natalia até deixá-la em casa, respeitando a recusa da moça em permitir sua entrada no apartamento.

-- Tudo bem, vamos deixar pra outro dia, entendo que tem o lance do seu namorado...

-- Nem sei se ainda tenho namorado Lucas, há dias não nos falamos. Mas, estou cansada, dormi muito pouco, gostaria de descansar um pouco, só isso.

-- Não posso negar que essa dúvida sobre seu namoro me anima um pouco. – Brincou – Só por isso não vou insistir pra te colocar pra dormir. Mas, em troca quero que aceite meu convite.

-- Você e suas trocas... Sempre me deixando sem condições de recusar seus convites...

-- Amanhã nossa turma vai pro sítio da Cacau, super maneiro lá, de vez em quando a gente relaxar um pouco, fazer trilha, vamos?

-- E tem jeito de dizer não depois do que fez por mim hoje?

                O rapaz comemorou.

-- Amanhã passo cedinho por aqui então.

Sociedade Secreta Lesbos: Capítulo 41

Capítulo 41

Amy tentava dormir em seu quarto, mas sabendo onde sua amada estava isso era impossível. Perdeu-se em pensamentos, tentando encontrar uma forma de livrar Esther das garras daquela mulher cruel, sem que a morena se ofendesse com a intervenção. Recebeu telefonema de seus pais e estranhou que seu pai não a tenha exortado por estar em uma fraternidade diferente da que sua mãe queria. Deduziu então que ele ainda não sabia e foi mais um fato estranho, visto que, Sandra compartilhava tudo com seu marido Peter Anderson. Sandra por sua vez, nada cobrara de sua filha, mostrou-se amorosa, preocupada, e mais um fato improvável pra Amy, perguntou sobre Esther.

-- Mãe? Aconteceu alguma coisa? A senhora me perguntando sobre Esther? Isso é no mínimo esquisito...

-- Ora Amy... estou tentando ser educada... mas estou vendo que seu humor hoje não está dos melhores, aconteceu alguma coisa?

-- Mãe... gostaria de ajudar Esther, mas ela não deixa... tem uma mulher, uma tal de Michelle que inferniza a vida dela, eu a odeio! Maltrata, chantageia Esther...

-- Michelle?

-- É mãe, uma tal de Michelle Roberts...

Um silêncio se instalou, Sandra sentiu um aperto no peito, como se pressentisse algo terrível, mais que isso, uma chuva de hipóteses sobre o passado iniciou-se. Não teve condições de prosseguir a conversa com a filha:

-- Mãe? A senhora está aí ainda?

-- Sim Amy, mas preciso desligar filha, em breve estarei aí e vamos encontrar um jeito de ajudar Esther. Não faça nada, não se envolva com essa mulher.

-- Mas mãe... mãe?

Sandra desligou o telefone angustiada. Cada vez mais novas peças do quebra-cabeças de seu passado com Carmem surgiam. Ela precisava investigar isso e o faria. Peter, seu marido, era um homem poderoso, bem-sucedido profissionalmente, sempre foi rico, mas sua fortuna não era apenas fruto da herança dos Anderson, sua firma de advocacia era a mais bem conceituada de Nova Iorque, ocupava pelo menos cinco andares de um luxuoso prédio na 5ª avenida, tinha como clientes poderosas multinacionais, além dos políticos mais influentes do estado. Entretanto, o poder não absorveu a sensibilidade e generosidade desse homem. Era um pai amoroso e marido apaixonado, sempre foi, sobretudo, um grande amigo para Sandra desde a época que esta era noiva de seu irmão mais velho: Wiliam Anderson.

Percebendo a angústia da mulher, Peter logo se preocupou, conhecia Sandra como ninguém.

-- Aconteceu alguma coisa, meu amor?

-- Não sei, meu bem... Estou preocupada com Amy... Ainda não contei alguns detalhes da minha visita a Prescott... acho que o destino está brincando com todos nós...

-- Sente-se, minha querida. Seja lá o que for, vamos resolver juntos como sempre fizemos, conte-me tudo.

Sandra então começou a narrar tudo que acontecera em sua visita à filha, seu ingresso na Gama-Tau, seu envolvimento com Esther, e o mais grave, revelou que Esther era a filha de Carmem Gonzalez e Wiliam, seu irmão. Peter Anderson ficou em choque, levantou-se do sofá e ficou andando de um lado para o outro, enquanto Sandra prosseguia.

-- Peter, tem algo muito estranho em toda a história entre Carmem, seu irmão e eu. As peças não se juntam, Esther me culpa pela desgraça que foi a vida da mãe dela e a sua também. Falou em vingança, e nossa filha está completamente apaixonada por ela.

-- Sandra... Minha sobrinha então está viva? Não morreu no acidente com Will e com o tio Joseph? Como assim a Amy está apaixonada por uma mulher e logo sua prima! É muita coisa pra assimilar, como você não me contou isso quando retornou de Prescott?

-- Meu bem, perdoe-me, você estava tão envolvido com a causa do filho do senador Benson que quis adiar essa conversa...

-- Mas Sandra, essas coisas que você me disse são graves demais! Minha sobrinha viva! Se ela atribui a você todo sofrimento de Carmem e fala em vingança, nossa Amy pode estar em perigo. Ela pode usar Amy para se vingar de você, será que você não pensou nisso?

-- Acredito que ela também ame nossa filha Peter, mas ela está confusa, perturbada, especialmente depois de nossa conversa... E tem mais...

-- O quê?

-- Encontrei Michelle na saída da casa Gama-Tau... e agora, Amy me falou que uma tal de Michelle Roberts maltrata e chantageia Esther... não acha muita coincidência de nomes?

-- Sandra, temos que agir imediatamente, minha querida... vou adiantar as coisas no escritório, passar os casos para outros advogados, e vamos para Prescott o mais rápido possível. Até a próxima semana quero ver minha sobrinha e tentar dissuadi-la dessa vingança.

-- Peter, temos que descobrir o que houve de fato, provar para Esther que eu e sua família não tivemos culpa do sofrimento de Carmem e nem o dela.

-- Qualquer fato mal contado, mentiroso, será desvendado, meu bem. Eu lhe asseguro isso!

Na mansão Gama-Tau, Esther subiu para seu quarto na certeza de encontrar Amy esperando-a em sua cama. Decepcionou-se vendo-a vazia. Pensou em procurá-la no  quarto, mas a ansiedade por continuar a ler o diário de sua mãe foi mais forte, especialmente após descobrir que a mesma Michelle que fora a cúmplice do amor entre sua mãe e Sandra era a mulher cruel que lhe mantinha refém.

-- Rebeca descobriu nosso namoro... quando imaginei que ela ficaria possessa, ela me surpreendeu com o silêncio, notei uma tristeza profunda no seu olhar... desde ontem ela não fala comigo... o que se passa na cabeça dela? Michelle tem aparecido no meu quarto nas madrugadas, confesso que estou com receio desse hábito dela...Sandra não confia nela, começo a desconfiar também, apesar de não fazer nada, os olhos dela sobre mim parecem indecentes... acho que minha loirinha tem razão, o mais sensato é morarmos num lugar nosso, deixarmos as fraternidades para viver nosso amor.

O diário de Carmem cada vez mais se revelava como decisivo para Esther compreender tudo que se passara com sua mãe e Sandra, já começava a acreditar que havia mesmo pontos obscuros principalmente pela presença de Michelle nesse cenário.

-- Acho que conquistamos mais uma amiga a nosso favor. Carol, a melhor amiga de Sandra na Beta-Lo já sabe de nós, e ao contrário do que pensávamos, não se escandalizou... minha loirinha está segura de contar aos pais sobre nós, antes que William transforme num escândalo de grandes proporções... ainda não sabemos como, mas ele descobriu nosso romance, surpreendendo-nos na nossa cabana... foi uma cena lamentável, Sandra ficou abalada, perdemos nosso cantinho secreto para nos encontrarmos, não é mais seguro para nós manter nossos encontros lá.

Ao ler o nome Carol, imediatamente Esther lembrou-se da história que sua mãe narrara ao seu avô, quando ouviu uma conversa desta com outras meninas da Beta-Lo no banheiro da universidade, palavras que desencadearam o fim do seu romance com Sandra. Sem dúvida ela tinha que procurar esses rastros do passado e ter certeza da verdade sobre Sandra e sua mãe.

O dia seguinte fora marcado por muito trabalho na Gama-Tau, as meninas quentes de Prescott estavam agitadas pela visita que receberiam. Amy esperava ansiosa pela descida de Esther do quarto, lutava contra a vontade de subir ao seu encontro e constatar que a morena não dormira em casa, mas o olhar constante para as escadas da loirinha chamou a atenção de Rachel, que se aproximou comentando:

-- Deve ter dormido demais nossa presidente... por que você não vai lá acordá-la? Além das aulas de hoje, temos muito trabalho a fazer por aqui...

Parece que Amy só precisava de um algum tipo de segurança que encontraria sua amada no seu quarto, subiu rapidamente ao terceiro andar da mansão, encontrando Esther ainda dormindo, sobre seu peito um caderno velho que obviamente atraiu a atenção da loirinha. Tentou acordar Esther com beijos e sopros suaves perto do seu ouvido assustando a morena que derrubou no chão o caderno aberto. Ao recolhê-lo, Amy viu rapidamente o nome de solteira de sua mãe, tal fato a deixou curiosa, fez menção de ler algo mais quando o caderno fora arrancado de sua mão por Esther que disparou:

-- Quem te deu o direito de ler isso?

-- O nome de minha mãe escrito aí me deu tal direito! O que é isso?

-- Não te interessa, Amy...

-- Claro que me interessa, Esther! Diga-me o que é isso?

-- Amy, já te falei não te interessa!

-- Você e seus mistérios, já estou cheia disso Esther! Já suportei demais, quer uma relação comigo? Que eu seja só sua? Então chegou a hora de você me deixar fazer parte de sua vida, chega de meias palavras, de reticências, de segredos. Chega!

-- Ah, você está cheia disso? Então estamos quites, por que também estou cheia disso: de você pegando no meu pé, me fazendo perguntas, cobranças, nunca gostei de ninguém me sufocando. Então chega! Sai do meu quarto que tenho muito que fazer.

Amy saiu batendo a porta com força, fumaçando de raiva, contendo as lágrimas, desceu as escadas e saiu da mansão implicando a mesma força à porta, despertando olhares curiosos das irmãs gama. Rachel, como sempre se fez presente junto à amiga, e subiu para o quarto de Esther, encontrando-a furiosa.

-- Olha, você nem vem!

-- Opaaa, calma aí onça! Vai me morder como mordeu a Amy, é?

-- Ai, Rachel, me deixa em paz!

A morena ia procurando uma roupa qualquer para vestir, jogando tudo para cima demonstrando seu estado nada amigável, mesmo assim Rachel insistiu.

-- Nem adianta você fazer cara de bicho, não vou sair daqui antes que você me conte o que houve.

-- Rachel, você é uma mala!

A moça sorriu ignorando a face de raiva da amiga e não se intimidou.

-- Sou sim, por isso mesmo você não vai se livrar de mim... vamos, fale logo.

-- A Amy se mete demais onde não é chamada, você acredita que ela estava lendo o diário de minha mãe?

-- Opa... como assim? Esther a Amy é um poço de educação, ela não leria nada sem permissão, especialmente um diário...

-- Ah claro, a senhorita Anderson é perfeitinha!

-- Esther, conte logo essa história direito...

-- O diário caiu aberto no chão, ela viu o nome da mãe dela e ficou me fazendo perguntas sobre ele. Não respondi, disse que não interessava a ela.

-- Ah! Como que o nome da mãe dela escrito em um caderno velho empoeirado no seu quarto não interessa a ela?

-- Rachel você é minha amiga ou não?

-- Sou, claro que sou. Só eu mesmo pra te aguentar, viu... por isso tenho todo direito de dizer quando você está errada!

-- Ah, quem ela pensa que é pra ir entrando no meu quarto, fazendo perguntas, exigindo explicações...

-- Sua namorada, Esther Gonzalez!

-- Isso não dá todo direito a ela!

-- Será possível, Esther, que vou ter que te ensinar a namorar? -- dizendo isso, Rachel não se conteve, riu divertida, conseguindo arrancar risos discretos da amiga, e continuou -- Larga mão de ser turrona! Amy merece alguma explicação, sim...

-- Ah, ótimo, Rachel! O que direi a ela? Que o nome da mãe dela está no diário de minha mãe porque elas namoraram na juventude?

-- Diga apenas que é o diário de sua mãe e que ela conheceu a mãe dela na juventude. O resto deixe que ela descubra com Sandra, se ela quiser.


Aconteceu Você : Sexto capítulo

CAPÍTULO 6: FESTA NO INTERIOR


A cidade estava linda. Decoração interiorana típica, palanque enfeitado na praça principal, povo alegre, bem vestido, a bandinha de música já animava o público, e perto da igreja várias barracas com comida regional foram armadas. Um parque de diversões também estava pronto atraindo centenas de crianças. O clima agradável da cidade contribuiu para o aspecto festivo e o humor de todos ali.

Daniel já estava na praça com alguns funcionários da secretaria de cultura quando cheguei. A Berta fez questão de me elogiar, o que claro levantou minha auto-estima, especialmente porque enfim as minhas calças 38 entraram no meu corpinho depois de meses de tentativas. Depois de alguns minutos de espera, a solenidade foi iniciada no final da manhã com a chegada do prefeito, discursos de autoridades até finalmente o Dan fazer seu pronunciamento, enfatizando o lançamento da Folha de Nova Esperança, nesse momento funcionários da secretaria de cultura além de mim e minha enorme equipe nos espalhamos entre a pequena multidão distribuindo os exemplares.

Não posso negar que me esforcei para ficar perto das pessoas que folheavam o jornal ansiosa pela reação delas. Insegura, não esquecia as palavras da minha ex-chefe ao me demitir, quando afirmou que eu não tinha vocação pro jornalismo. Meu editorial foi lido pelo Daniel no palco, o que me deixou particularmente nervosa, entretanto meu alívio se deu quando os aplausos tomaram de conta da praça.

Minha carreira como editora-chefe estava oficialmente lançada, a sensação de otimismo que me preencheu se tornou visível para minha equipe e especialmente para meu amigo Daniel que me abraçou, demonstrando todo seu orgulho. Diversas atrações da região se apresentaram no palco armado, enquanto as pessoas caminhavam pelas ruas em festa. Daniel me apresentou ao prefeito, a vereadores, todos me parabenizando pela qualidade do jornal.

-- Pronto amiga, agora começa nosso trabalho de fato! Correr atrás de notícias, e próxima semana lançar outro número, quero cobertura completa da festa heim! -- Disse Daniel animado.

-- Pode deixar amigo, minha equipe já está por aí trabalhando.

-- Vamos almoçar na casa do prefeito, depois encontramos o Diego e o resto da turma no Aconchego, para nossa festa de verdade.

-- Aconchego?

-- Sim, é um hotel fazenda, perto da serra, você vai gostar de lá.

E assim aconteceu, para cumprir o protocolo, almoçamos na casa do prefeito da cidade, homem muito simples, assim como sua família, extremamente popular, mas muito culto, nossa conversa sobre grandes escritores foi bastante agradável, especialmente por que o Sr. Joaquim Lopes não poupou elogios para o editorial que escrevi. Depois do almoço seguimos para a serra, para o tal hotel fazenda Aconchego, onde a turma de amigos do Dan estava reunida numa comemoração mais íntima.

O clima serrano do hotel fazenda era maravilhoso, perto de um lago, uma palhoça com uma grande área para churrasco abrigava a turma animada do Dan, todos que estavam na noite que os conheci, e mais alguns rostos conhecidos da secretaria de cultura, inclusive parte da minha equipe do jornal.

O Beto já estava com o violão na mão, tocando seu repertório de muito bom gosto, Leandro fez aquela festa ao me rever, parecia um amigo de longa data, e logo tratou de me deixar à vontade entre os que já estavam lá enquanto Daniel ia ao encontro de Diego que estava numa cachoeira perto dali.

Há muito tempo não me sentia tão leve, dei boas risadas com meus mais novos amigos, já nem me chocava mais com os selinhos trocados entre Clara e Isabelle. No final da tarde, o filho do dono do hotel, namorado do Beto, chegou oferecendo um passeio a cavalo pelos campos da fazenda. Não sei de onde me veio à inspiração de aceitar o convite, afinal há mais de 15 anos não montava. Talvez tenha sido o excesso de otimismo que aquele dia estava me proporcionando.



Eis que meu contato com o campo foi iniciado, montei no cavalo, e segui com Beto, Leandro, Tarcísio o namorado do Beto e a Luísa. Tudo estava muito tranqüilo, até que, excessivamente confiante com meu bom desempenho na montaria, acelerei o galope, e como era de se esperar dada minha destreza sempre “impecável”, perdi as rédeas do animal, quando enfim as tive de volta, puxei o arreio com força e fui lançada por cima do cavalo, caindo por cima de um amontoado de ração.

A última imagem que tenho lembrança foi à vista de cima enquanto eu era lançada pelo ar. Ao cair e bater a cabeça desmaiei imediatamente. Segundo o relato das testemunhas a queda teria sido cômica se não fosse à apreensão que todos sentiram ao me verem cair inconsciente. Chamaram Diego a fim de que ele como acadêmico de medicina, desse as orientações corretas diante do meu estado. Em pouco tempo, Daniel conseguiu que uma ambulância me removesse dali, a essa altura eu já esboçava alguma consciência, percebia que eu estava sendo conduzida numa maca para um veículo, mas não conseguia abrir os olhos, e mesmo ao conseguir, não via as coisas com nitidez.

Não sei exatamente em que momento, nem quanto tempo depois, mas minha consciência retornou aos poucos, e a primeira imagem embaçada que identifiquei diante de mim foi a do rosto de Marisa bem próximo do meu, sua voz que tanto mexeu comigo tinha um som incompreensível, deduzi que pudesse ser algum delírio meu, ou alucinação sei lá... O fato é que fui apertando os olhos e gradualmente minha visão ficava mais nítida, e tive a certeza, não era delírio, Marisa estava ali na minha frente.


Vestida num jaleco justo, cabelos presos, Marisa me perguntava:

-- Alexandra? Você está me ouvindo?

A voz parecia tão longe, e responder era difícil, mas Marisa insistiu:

-- Alexandra, você está no hospital, sofreu uma queda, se você estiver me entendendo, aperte minha mão.

Segui a orientação de Marisa mesmo não entendendo o porquê de ela estar ali, após apertar a mão dela, escutei alguns burburinhos de comemoração, e aos poucos eu começava a voltar a minha consciência, abri os olhos e vi claramente em volta de mim o Dan, Diego, Beto, Leandro e Luiza, além de Marisa ao meu lado.

-- Consegue falar Alexandra? – Perguntou Marisa.

-- Sim.

Notei o suspiro aliviado de todos na sala quando falei.

-- Vou fazer algumas perguntas a você. Qual o seu nome completo? – Perguntou Marisa.

-- Alexandra Alcântara Torres.

-- Que dia é hoje?

-- Não faço a menor idéia... Sei que hoje é sábado, e estamos no mês de maio, mas o dia não lembro.

-- Onde você mora?

-- Em Nova Esperança, interior do estado.

-- Você sabe quem é o presidente do Brasil?

-- Deeer, claro né, sou uma jornalista, não ia saber disso? Luiz Inácio Lula da Silva. O interrogatório terminou? O que mais você quer saber de mim Marisa?

Notei o espanto de todos quando me dirigi a Marisa pelo nome dela.

-- Calma Alexandra, essas perguntas fazem parte do exame neurológico, você sofreu um trauma na cabeça, esses testes são protocolo.

-- E quem é você pra fazer esses testes comigo?

-- Sua médica Alexandra, estou de plantão hoje aqui na urgência.

Que idiota eu sou! Claro que ela era médica! Chefe do departamento de ciências da saúde era isso que estava escrito na placa na porta da sala dela na universidade. Completamente constrangida pela minha estupidez, não consegui me desculpar, notei um sorriso de canto de boca em Marisa, e fui salva daquele momento mico pelo Dan que se aproximou de mim falando:

-- Sardenta você me mata do coração assim! O que deu em você pra sair galopando daquele jeito?

-- Dandan aquele cavalo era maluco! Tudo bem que me empolguei, e perdi as rédeas também... Mas que ele era maluco, isso ele era!


Todos riram do meu jeito desajeitado de me justificar, inclusive Marisa, e foi ela mesma que falou em seguida:

-- Bom você aparentemente está bem, mas para nos assegurarmos vamos fazer uma tomografia cerebral, e um raio x do seu tórax.


-- … preciso mesmo doutora? – Perguntou o Beto.

-- Sim é.

-- Não vai doer nada Alex, tira essa cara de espanto! – Diego disse apertando minha mão.

Diego e Dan ajudaram a me transferir para a maca, e Marisa fez questão dela mesma me levar até o setor de imagens do hospital. Meu comportamento beirava o ridículo, deitada olhava para cima observando Marisa empurrando aquela maca, e ao notar que ela desviava o olhar para mim eu fechava os olhos rapidamente, como se fingisse dormir.

Chegando enfim para fazer os tais exames, Marisa me deixou sozinha, o que claro me assustou, obrigando-me a falar:

-- Você vai me deixar sozinha aqui?

-- Ué, pensei que você estivesse dormindo. – Marisa falou sorrindo.

Fingi ignorar o comentário irônico de Marisa e insisti:

-- Você vai me deixar mesmo sozinha nessa sala branca e fria?

-- Nossa que dramática! Tem certeza que você é jornalista? Tem talento para atriz... Já para amazona...

-- E você tem certeza que é médica? Tem talento para humorista!

-- Eu que não vou ficar aqui nessa sala com uma criatura tão mal-humorada assim!

Marisa saiu da sala me deixando irritada. Entrei naquele tubo que era o tal tomógrafo, ansiosa, ouvi a voz de Marisa me pedindo:


-- Não se mova Alexandra, não vai demorar muito.

Em outro momento eu pensaria que era mais uma alucinação ou delírio meu, mas se assim o fosse, não era bem isso que eu ouviria... Os minutos ali naquela posição pareceram uma eternidade, até enfim a plataforma se mover e eu reencontrar Marisa do meu lado:

-- Você teve muita sorte, eu não estava lá para lhe salvar dessa queda, mas os sacos de ração protegeram essa cabeça dura que você tem, não há lesão no seu cérebro.

Mantive meu bico qual menina mimada fazendo birra. Recusei ajuda dela para me levantar, tonta acabei caindo mais uma vez nos braços de Marisa, por alguns segundos nossos olhos se encontraram, parecia que uma força me atraía para os lábios daquela mulher ainda mais linda tão de perto.

-- Estava me perguntando quanto tempo mais ia demorar até você cair nos meus braços de novo.

Nosso momento de intimidade foi interrompido pelo técnico de radiologia que já me aguardava no setor de raios-X, já trazia uma cadeira de rodas, não era mais necessária a maca. Marisa continuou me conduzindo, e pra contribuir para meu momento constrangimento total, fui obrigada a tirar a parte de cima da minha roupa para realizar o exame, na frente de Marisa.

-- Não precisa ficar tímida Alexandra, não há nada aí que eu não tenha visto antes.

-- Hã! Como assim?

-- Alexandra eu precisei examinar você, esqueceu?

-- Então você se aproveitou de mim enquanto eu estava inconsciente para tirar minha roupa?

-- Alexandra assim você me ofende! Sou médica! Vou chamar um colega para atender você. Célio quero um raio X de tórax posterior, anterior e de perfil, por favor, leve-a ao ambulatório depois que concluir o exame, o Dr. Marcos a atenderá.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Aconteceu Você : Quinto capítulo

CAPÍTULO 5: EU, EDITORA


Meu fim de semana foi inteiro curtindo minha nova casa, além de deixar as coisas mais parecidas comigo, do meu jeito. A Berta muito gentil, mas, muito bisbilhoteira, apareceu por lá com a típica política de boa vizinhança, trazendo uma torta feita por ela mesma, olhou a minha arrumação e deu pitaque em tudo.

Apesar de me manter ocupada, lembrei-me de ligar para meus pais e claro para minhas amigas inseparáveis que ficaram na capital, mas em todo instante minha memória trazia a tona o cheiro, a voz e a imagem de Marisa. Mas que coisa mais estranha, ter uma mulher ocupando meus pensamentos... Acho que a revelação do Dan me afetou mais do que eu pensava, e o ambiente alternativo contribuiu para meu suposto encantamento por Marisa, essa era a única explicação que eu inocentemente me enganava.

Logo na segunda-feira de manhã, minha equipe já me esperava no escritório improvisado dentro da secretaria de cultura. Minha grande equipe era animada, a mesa no centro da sala já estava repleta de guloseimas típicas do interior, e num clima bastante agradável rapidamente traçamos a pauta do que trabalharíamos na nossa primeira edição. Enviei nossa única repórter para fazer um levantamento das personalidades históricas da cidade junto com o Artur nosso fotógrafo, enquanto nosso estagiário, o Marcos, foi às escolas da cidade lançar o concurso de poesias proposto entre os alunos do nível fundamental.

Eu e Luiza fomos à universidade, lançar o desafio para os alunos de jornalismo, enviar uma crônica para nossa redação a fim de publicar na edição especial de estréia, registrando o centenário da cidade.

O campus da universidade era enorme, prédios diferentes para cada área, Nova Esperança tinha a característica de cidade universitária, talvez por isso fosse tão desenvolvida intelectualmente. Seguimos para o departamento de ciências humanas, Luiza já conhecia a maioria dos professores, uma vez que não fazia muito tempo que se formara ali, assim não foi difícil nossa proposta ser logo encaminhada aos últimos semestres dos cursos de jornalismo e comunicação social.

O coordenador do curso de jornalismo para meu constrangimento me reconheceu das revistas de fofoca, e foi colega de faculdade de meu ex-noivo Fernando, talvez por isso, se rendeu em gentilezas, estabanada como sempre fui, acabei derramando café na blusa, saí da sala em direção ao banheiro do andar para tentar minimizar o estrago em minha roupa.

Murphy sempre me perseguiu: fato! Escolhi justamente a pia com defeito, e a torneira liberou um potente jato d’água me banhando, piorando ainda mais a mancha que antes era só de café. Na minha luta corporal com o jato d’ água piorei minha situação, espalhando a água pela calça e pelo rosto, em meio a essa luta, de repente o jato foi cessado, enxuguei meus olhos com as mãos, e quando os abri diante de mim estava ela: Marisa.

Como se fosse possível, ela estava ainda mais linda. Com um sorriso enorme naquele rosto que não saiu da minha mente desde a noite de sexta, Marisa estendeu algumas folhas de papel toalha me dizendo:

-- Parece que estou mesmo conquistando meu papel de super heroína na sua vida... Sempre te livrando de apuros não é?

Peguei as folhas de papel e fui tentando me secar com elas, mas o estrago era grande. Sem graça eu sorri e sem pensar direito disse:

-- E nós precisamos parar de nos encontrar nos banheiros de Nova Esperança.

-- Concordo, quando podemos nos encontrar então?

Arregalei os olhos instintivamente, e quase escorrego na água derramada no chão pelo incidente da torneira, reação que despertou risos de Marisa:

-- Ei Alexandra, calma, foi só uma brincadeira... Não quero sair com você.

-- Não quer?

Minha expressão de decepção deve ter ficado evidente, tanto que Marisa calou-se por segundos sorriu discretamente afirmando:

-- Não. Minha função de super heroína não inclui esse tipo de encontro.

-- Ah... Ainda bem então, por que eu me sentiria obrigada a aceitar em agradecimento, e não quero sair com você também.

-- Então, estamos entendidas.

-- Claro.

Saí pela porta ainda ensopada, e atordoada com o fora que acabara de levar de Marisa, obviamente as pessoas olhavam para mim naquele estado, quando ouvi a voz suave que me marcara chamando meu nome no corredor:

-- Ei moça! Alexandra! Espere um pouco.

Parei irritada:

-- Pois não Marisa!

-- Você vai sair assim que nem um pinto molhado?

-- Acho que não tenho opção não é?

-- Pra que serve uma super heroína como eu se te deixasse assim nesse estado? Venha comigo, vou te emprestar pelo menos uma camiseta.

-- Não obrigada. Não quero mais incomodar você.

Eu estava irritada pela rejeição que meio sem querer recebi de Marisa, estava envergonhada por que supostamente dei a entender que queria me encontrar com ela em outra situação... Queria sumir da frente dela, Marisa me deixava insegura, nervosa, não sabia lidar com essas sensações diante de uma mulher.

-- Não vai me incomodar, vamos, minha sala é aqui no prédio de frente.

A contragosto, a segui, notando o ar de riso do seu rosto, certamente por causa de minha cara emburrada misturada a minha aparência de cachorro na chuva. Entramos no prédio de frente, ali funcionavam os cursos de saúde. No terceiro andar, na sala no fim do corredor, vi na porta: Dra. Marisa Becker – diretora do centro de ciências da saúde.

Seu escritório era elegante, um pequeno armário, uma estante com alguns livros, e na mesa seu notebook e poucos papéis. Um sofá de dois lugares com duas poltronas de couro com uma pequena mesa de centro, na parede clara um quadro com uma pintura de aspecto cubista acenava seu gosto requintado. Abriu o armário, retirou uma bolsa de academia, e me entregou uma camiseta justa de gola pólo.

-- Tome, está limpa e seca, ia usar para jogar tênis ao sair daqui, mas tenho outra guardada. Vista antes que você fique resfriada.

-- Obrigada, mas não quero incomodar, daqui a pouco minha roupa estará seca.

-- Não seja orgulhosa menina! Vista! Ali é um banheiro, pode se trocar lá.

Tímida, peguei a camiseta e fui até o banheiro, e vesti a peça que Marisa me deu, me deliciando o cheiro cítrico que a roupa tinha o cheiro dela... De volta à sala, agradeci a Marisa me comprometendo a devolver o quanto antes a tal camiseta.

-- Não há pressa, é só uma camiseta. Quer tomar alguma coisa? Café, água...

-- Nem café, nem água... Já tive o suficiente dos dois por hoje...

Sentei em uma das poltronas depois do convite de Marisa que me encantava ainda mais com seus gestos delicados.

-- Então, além de conhecer o banheiro da universidade de Nova Esperança, o que mais faz por aqui Alex?

-- Vim lançar uma espécie de concurso de crônicas sobre o centenário da cidade entre os alunos dos cursos de jornalismo e comunicação social para a edição de estréia do jornal de Nova Esperança.

-- Interessante... Você vai trabalhar nesse jornal?

-- Sim, fui convidada pelo secretário de cultura para ser a editora-chefe do jornal.

-- Então você deve ter chegado há pouco tempo na cidade não é?

-- E você é detetive, policial ou jornalista investigativa?
Disse demonstrando indignação.

-- Calma Alex, só estou tentando estabelecer um diálogo, conhecer mais de você.

-- Conhecer mais de mim? Estou me sentindo interrogada desde que entrei aqui.
Marisa balançou a cabeça negativamente e disse:

-- Você reage sempre assim na defensiva?

-- Não estou na defensiva... Mas se é um diálogo, então me fale de você. O que você faz aqui além de salvar donzelas de torneiras inconvenientes no banheiro?

-- Eu trabalho aqui. Estava no prédio de ciências humanas porque lá funciona a rádio do campus, e fui dar uma entrevista em um programa.

-- Interessante... E você é alguma celebridade aqui para conceder entrevistas?

Marisa abriu um sorriso irônico respondendo:

-- Não tão famosa quanto você, mas sou conhecida aqui no campus sim.

Imediatamente percebi a que Marisa se referia, certamente ela conhecia o escândalo que antecedeu minha vinda para Nova Esperança, e isso me irritou profundamente.

-- Deve ser famosa por sua indiscrição! Com licença Marisa, tenho trabalho a fazer.

-- Ei você é esquentadinha heim! Calma...

-- Olha só Marisa, obrigada pela camiseta, pelo salvamento de novo, tenha um bom dia.

Saí da sala de Marisa pisando forte, me enrolando toda na hora de abrir a porta, puxei com tanta força que acabei por me chocar contra ela. Nem deu tempo Marisa se aproximar, saí esfregando minha mão no rosto, certa que a marca da pancada estava evidente na minha testa. Encontrei Luiza na praça do campus de frente ao prédio das ciências da saúde, preocupada com meu sumiço.

-- Onde você estava chefinha? O que aconteceu com sua testa? Onde você conseguiu essa camiseta?

-- Tem certeza que você é diagramadora? Acho que vou aproveitar seu talento investigativo em reportagens! Quantas perguntas Luiza!

-- Nossa... Você está nervosa.

-- Vamos voltar ao jornal, temos muito que fazer por lá.

Luiza tinha razão, eu estava nervosa. Marisa definitivamente me provocava isso. No final do dia, nos reunimos mais uma vez e concluímos que foi um dia produtivo, cumprir o prazo que o Dandan nos impôs seria possível com algum sacrifício.

E a semana passou nesse ritmo, de plantões, de muito trabalho, minha equipe era de fato muito boa, todos se esforçaram para que na sexta-feira, a edição piloto da Folha de Nova Esperança estava nas mãos do Daniel.

A lembrança do meu novo encontro com Marisa volta e meia me distraía, e um misto de sentimentos surgia. Sentia raiva dela, pela rejeição que sofri, e por ela saber da minha fama exposta nas revistas de fofoca nacionais. Mas inexplicavelmente sentia uma vontade imensa de revê-la, de estar perto dela, eu a desejava? Não... Impossível! O que é isso Alexandra? Toma vergonha nessa cara mulher! Você não é lésbica!

O final de semana reservava uma grande festa na cidade. Era o início das comemorações do centenário de Nova Esperança. Daniel aprovou de cara nosso trabalho e a noite foi de trabalho para a gráfica oficial da prefeitura, para no sábado, como parte dos festejos, o nosso jornal fosse lançado.

Sociedade Secreta Lesbos: Capítulo 40

Capítulo 40

-- Isso é jeito de atender meu telefonema? Acaso ainda não aprendeu a lição sobre como deve me tratar? -- disse Michelle.

-- Desculpe-me, pois não, Michelle.

-- Quero ver você hoje, e aproveita para levar esse ferro velho que você chama de transporte da minha garagem.

-- Estou cheia de compromissos hoje Michelle...

-- Não me interessam seus compromissos, Esther. Trate de aparecer na hora de sempre, ou se prepare para sofrer as consequências...

Cada vez mais, Esther tinha consciência que não suportaria essa situação com Michelle por mais tempo. Sua vida atingira o momento de decisões cruciais, seu passado ressurgia com todas as lacunas a serem preenchidas e mentiras a serem desvendadas; seu futuro se desenhava como uma grande incógnita, porque seu presente se definia como um emaranhado de fios soltos e dúvidas sobre si mesma e sobre seus sentimentos. Libertar-se de Michelle era uma necessidade urgente.

Saiu apressada para encontrar Rachel e Laurel na mansão a fim de tratar dos preparativos para receber Rebeca Travis e a representante nacional da fraternidade. Aproveitou enquanto mexia nos arquivos da Gama-Tau para procurar alguma presidente com nome Michelle. Ficou ainda mais intrigada ao constatar que entre os anos 1985 e 1986, simplesmente não constava nenhuma presidente de fraternidade.

Tentou se esquivar de Amy para não ser obrigada a dizer aonde iria à noite, mas foi inútil. A loirinha a aguardava em seu quarto e tão logo a morena entrou, Amy já se jogou nos seus braços arrancando-lhe um beijo apaixonado.

-- Amy... Você não tinha um aula no laboratório essa hora?

-- Não resisti de saudades de você. Vim mais cedo, estava chata demais a aula.

-- Minha linda, você não pode fazer isso. Nós não podemos ter faltas não justificadas no nosso histórico escolar...

-- Tá, tudo bem... Mas já que estou aqui...

Amy foi dizendo isso, descendo com sua mão por dentro da calça de Esther, que fechava os olhos sem nada conseguir dizer, muito menos conseguir fugir daquele prazer. Michelle ia ter que esperar...

Amaram-se com intimidade, já conheciam cada ponto sensível do corpo da outra. Entre gemidos, sorrisos expressando prazer óbvio. Meio desconfiada, Esther foi se levantando da cama enquanto Amy parecia cochilar abraçada a sua cintura.

-- Meu bem aonde você vai?

-- Ah... Preciso resolver umas coisas da fraternidade minha linda, tentarei voltar logo.

-- Quer ir no meu carro?

-- Ah não... Vou pegar minha moto...

Só depois de dizer isso Esther percebeu que falara demais, uma vez que Amy sabia que sua moto estava na casa de Michelle.

-- Então as coisas da fraternidade serão resolvidas com aquela mulher agora?

-- Amy, minha linda, desculpe-me, não disse a verdade para não chatear você. Mas eu tenho obrigações com essa mulher. Além do mais, preciso pegar minha moto.

-- Não entendo essas obrigações... Isso tem que acabar, Esther! Não vou tolerar isso!

Amy demonstrava uma revolta não só motivada por ciúme, era algo mais profundo. A própria Esther percebeu o tom exasperado da loirinha que pela primeira vez se impunha deliberadamente no relacionamento delas. A morena então tentou ponderar:

-- Amy, isso vai acabar. Me dá mais um tempinho pra tentar resolver as coisas do meu jeito, ok?

A morena se despediu com um selinho, deixando-a emburrada na cama e seguiu par a casa de praia de Michelle Roberts. Naquela noite, mais do que cumprir obrigações, Esther queria sondar acerca da possível passagem daquela mulher pela presidência da Gama-Tau.

Michele, como sempre, reclamou do atraso de Esther, que por sua vez nem se deu ao trabalho de se desculpar. Enquanto a Sra. Roberts se servia no bar, Esther disparou:

-- Michelle, você estudou em Prescott, certo?

--Sim, por quê?

-- Pertenceu a alguma fraternidade?

Michelle parou o olhar, tomou mais um gole de sua bebida, e numa tentativa de cessar aquele assunto retrucou:

-- O que deu em você hoje? Puxando conversa comigo, querendo saber do meu passado? Acaso pensa que te chamo aqui para conversar? Para isso pago meu analista, com você o assunto é outro...

Dizendo isso, foi se aproximando da morena, exigindo seu beijo. Esther conhecia muito bem Michelle, fugir de perguntas era o mesmo que confessar que o assunto era proibido. Convencida de que Michelle escondia algo, Esther tratou de usar de suas armas de sedução para embriagá-la na tentativa de arrancar algumas informações. Serviu doses generosas da bebida preferida daquela mulher: whisky, enquanto se despia e dançava sensualmente diante de Michelle.

Excitada pela situação, Michelle não percebeu as segundas intenções da morena. Ingeria as doses inteiras da bebida num gole único, cheirando as roupas que Esther se desfazia e as atirava no rosto dela. Esther, certa que já tinha domínio da situação, sentou-se no colo de Michelle segurando uma garrafa de whisky e foi despejando na boca da mesma enquanto mordia os seus lábios, levando aquela mulher à loucura.

Em poucos minutos, Michelle já não tinha domínio sobre alguns gestos, sorria sem motivos, enquanto Esther se esquivava das investidas dela. Por vezes a morena permitia que ela a beijasse, ou a tocasse, até segurar seus braços e roçar sua língua pelas orelhas de Michelle sussurrou:

-- Então você foi uma Gama-Tau como eu é?

-- Eu sempre te disse que nós somos iguais em muitas coisas minha morena... -- Michelle dizia ofegante tomada de tesão e sob efeito do álcool.

-- Agora entendo porque você dizia isso... Mas por que você nunca me disse que foi presidente da Gama-Tau?

-- Porque essa fraternidade de merda... nunca me deu o que eu queria e precisava...

-- Ah é? O que você precisava e queria, hein?

-- Dar vazão aos meus desejos mais profundos e secretos, satisfazer meu corpo... E isso encontrei de outra forma. Então, saí da Gama-Tau.

-- Encontrou outra forma?

-- Sim... Tão eficiente que até hoje usufruo dos seus benefícios...

-- Benefícios? Do que você está falando?

Esther instigava Michelle movimentando-se sobre ela e falava de uma maneira extremamente sexy junto ao ouvido da Sra. Roberts.

-- Sim, minha morena, benefícios. Aprendi muito, lá sim aprendi sobre poder, domínio, tudo que a Gama-Tau se vangloria de ter no lema, e na prática não dá nada...

-- Lá? Onde você aprendeu tanto? Como posso aprender? Você pode me ensinar?

-- Eu posso lhe ensinar qualquer coisa, morena. Mas você tem que me provar que merece... Aí sim te apresento à sociedade...

-- Sociedade?

-- É, sociedade secreta. Agora chega de papo... Me faça gozar...

Esther sabia que não conseguiria mais informações do que aquilo naquela noite. Michelle já se complicava pronunciando as palavras, mas definitivamente não se submeteria a ela. Tratou então de oferecer mais bebida à Michelle, enquanto brincava com os seios dela, massageava o clitóris daquela mulher que agora para ela era cheia de mistério.

Como Esther planejava, Michelle não resistiu a tanto álcool. Depois de deixar escapar uma série de palavras sem sentido, e a gestos perdidos, Sra. Roberts caiu no sono nos braços da morena. Sem qualquer peso na consciência, a jovem a deixou dormindo na poltrona, vestiu-se, pegou sua moto e retornou à Gama-Tau.