segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sociedade Secreta Lesbos: Capítulo 40

Capítulo 40

-- Isso é jeito de atender meu telefonema? Acaso ainda não aprendeu a lição sobre como deve me tratar? -- disse Michelle.

-- Desculpe-me, pois não, Michelle.

-- Quero ver você hoje, e aproveita para levar esse ferro velho que você chama de transporte da minha garagem.

-- Estou cheia de compromissos hoje Michelle...

-- Não me interessam seus compromissos, Esther. Trate de aparecer na hora de sempre, ou se prepare para sofrer as consequências...

Cada vez mais, Esther tinha consciência que não suportaria essa situação com Michelle por mais tempo. Sua vida atingira o momento de decisões cruciais, seu passado ressurgia com todas as lacunas a serem preenchidas e mentiras a serem desvendadas; seu futuro se desenhava como uma grande incógnita, porque seu presente se definia como um emaranhado de fios soltos e dúvidas sobre si mesma e sobre seus sentimentos. Libertar-se de Michelle era uma necessidade urgente.

Saiu apressada para encontrar Rachel e Laurel na mansão a fim de tratar dos preparativos para receber Rebeca Travis e a representante nacional da fraternidade. Aproveitou enquanto mexia nos arquivos da Gama-Tau para procurar alguma presidente com nome Michelle. Ficou ainda mais intrigada ao constatar que entre os anos 1985 e 1986, simplesmente não constava nenhuma presidente de fraternidade.

Tentou se esquivar de Amy para não ser obrigada a dizer aonde iria à noite, mas foi inútil. A loirinha a aguardava em seu quarto e tão logo a morena entrou, Amy já se jogou nos seus braços arrancando-lhe um beijo apaixonado.

-- Amy... Você não tinha um aula no laboratório essa hora?

-- Não resisti de saudades de você. Vim mais cedo, estava chata demais a aula.

-- Minha linda, você não pode fazer isso. Nós não podemos ter faltas não justificadas no nosso histórico escolar...

-- Tá, tudo bem... Mas já que estou aqui...

Amy foi dizendo isso, descendo com sua mão por dentro da calça de Esther, que fechava os olhos sem nada conseguir dizer, muito menos conseguir fugir daquele prazer. Michelle ia ter que esperar...

Amaram-se com intimidade, já conheciam cada ponto sensível do corpo da outra. Entre gemidos, sorrisos expressando prazer óbvio. Meio desconfiada, Esther foi se levantando da cama enquanto Amy parecia cochilar abraçada a sua cintura.

-- Meu bem aonde você vai?

-- Ah... Preciso resolver umas coisas da fraternidade minha linda, tentarei voltar logo.

-- Quer ir no meu carro?

-- Ah não... Vou pegar minha moto...

Só depois de dizer isso Esther percebeu que falara demais, uma vez que Amy sabia que sua moto estava na casa de Michelle.

-- Então as coisas da fraternidade serão resolvidas com aquela mulher agora?

-- Amy, minha linda, desculpe-me, não disse a verdade para não chatear você. Mas eu tenho obrigações com essa mulher. Além do mais, preciso pegar minha moto.

-- Não entendo essas obrigações... Isso tem que acabar, Esther! Não vou tolerar isso!

Amy demonstrava uma revolta não só motivada por ciúme, era algo mais profundo. A própria Esther percebeu o tom exasperado da loirinha que pela primeira vez se impunha deliberadamente no relacionamento delas. A morena então tentou ponderar:

-- Amy, isso vai acabar. Me dá mais um tempinho pra tentar resolver as coisas do meu jeito, ok?

A morena se despediu com um selinho, deixando-a emburrada na cama e seguiu par a casa de praia de Michelle Roberts. Naquela noite, mais do que cumprir obrigações, Esther queria sondar acerca da possível passagem daquela mulher pela presidência da Gama-Tau.

Michele, como sempre, reclamou do atraso de Esther, que por sua vez nem se deu ao trabalho de se desculpar. Enquanto a Sra. Roberts se servia no bar, Esther disparou:

-- Michelle, você estudou em Prescott, certo?

--Sim, por quê?

-- Pertenceu a alguma fraternidade?

Michelle parou o olhar, tomou mais um gole de sua bebida, e numa tentativa de cessar aquele assunto retrucou:

-- O que deu em você hoje? Puxando conversa comigo, querendo saber do meu passado? Acaso pensa que te chamo aqui para conversar? Para isso pago meu analista, com você o assunto é outro...

Dizendo isso, foi se aproximando da morena, exigindo seu beijo. Esther conhecia muito bem Michelle, fugir de perguntas era o mesmo que confessar que o assunto era proibido. Convencida de que Michelle escondia algo, Esther tratou de usar de suas armas de sedução para embriagá-la na tentativa de arrancar algumas informações. Serviu doses generosas da bebida preferida daquela mulher: whisky, enquanto se despia e dançava sensualmente diante de Michelle.

Excitada pela situação, Michelle não percebeu as segundas intenções da morena. Ingeria as doses inteiras da bebida num gole único, cheirando as roupas que Esther se desfazia e as atirava no rosto dela. Esther, certa que já tinha domínio da situação, sentou-se no colo de Michelle segurando uma garrafa de whisky e foi despejando na boca da mesma enquanto mordia os seus lábios, levando aquela mulher à loucura.

Em poucos minutos, Michelle já não tinha domínio sobre alguns gestos, sorria sem motivos, enquanto Esther se esquivava das investidas dela. Por vezes a morena permitia que ela a beijasse, ou a tocasse, até segurar seus braços e roçar sua língua pelas orelhas de Michelle sussurrou:

-- Então você foi uma Gama-Tau como eu é?

-- Eu sempre te disse que nós somos iguais em muitas coisas minha morena... -- Michelle dizia ofegante tomada de tesão e sob efeito do álcool.

-- Agora entendo porque você dizia isso... Mas por que você nunca me disse que foi presidente da Gama-Tau?

-- Porque essa fraternidade de merda... nunca me deu o que eu queria e precisava...

-- Ah é? O que você precisava e queria, hein?

-- Dar vazão aos meus desejos mais profundos e secretos, satisfazer meu corpo... E isso encontrei de outra forma. Então, saí da Gama-Tau.

-- Encontrou outra forma?

-- Sim... Tão eficiente que até hoje usufruo dos seus benefícios...

-- Benefícios? Do que você está falando?

Esther instigava Michelle movimentando-se sobre ela e falava de uma maneira extremamente sexy junto ao ouvido da Sra. Roberts.

-- Sim, minha morena, benefícios. Aprendi muito, lá sim aprendi sobre poder, domínio, tudo que a Gama-Tau se vangloria de ter no lema, e na prática não dá nada...

-- Lá? Onde você aprendeu tanto? Como posso aprender? Você pode me ensinar?

-- Eu posso lhe ensinar qualquer coisa, morena. Mas você tem que me provar que merece... Aí sim te apresento à sociedade...

-- Sociedade?

-- É, sociedade secreta. Agora chega de papo... Me faça gozar...

Esther sabia que não conseguiria mais informações do que aquilo naquela noite. Michelle já se complicava pronunciando as palavras, mas definitivamente não se submeteria a ela. Tratou então de oferecer mais bebida à Michelle, enquanto brincava com os seios dela, massageava o clitóris daquela mulher que agora para ela era cheia de mistério.

Como Esther planejava, Michelle não resistiu a tanto álcool. Depois de deixar escapar uma série de palavras sem sentido, e a gestos perdidos, Sra. Roberts caiu no sono nos braços da morena. Sem qualquer peso na consciência, a jovem a deixou dormindo na poltrona, vestiu-se, pegou sua moto e retornou à Gama-Tau.

LEIS DO DESTINO: 21º CAPÍTULO

CAPITULO 21: Bellum interius
*Batalha interior



                Uma semana se passou. Nesse período, Natalia conteve por diversas vezes o impulso de ligar para Diana a fim de saber notícias suas. A falta de informações sobre a saúde da mãe dela, e sobre a própria Diana deixou Natalia uma pilha de nervos naqueles dias. Não podia sondar notícias com Pedro ou Lucas, isso despertaria a curiosidade dos dois, mas, essa era sua única opção.

                Procurou pelos gêmeos na universidade, justamente quando precisava nem o acaso, nem sua busca foram seus aliados. Esperou até a sexta-feira, certamente encontraria os meninos no Botecão, arranjaria uma forma de obter alguma informação.

                Como esperava, a turma de amigos da república Álibi estava mesmo no bar. Logo, as meninas do time de vôlei acolheram animadas Natalia. Lucas e Pedro reticentes foram econômicos na simpatia e atenção corriqueiras com a moça.

                O comportamento dos gêmeos obrigou Natalia a tomar a iniciativa de se aproximar deles, fato que obviamente causou estranheza em ambos.

-- O que foi que deu em você hoje para aparecer por aqui? – Lucas perguntou.

-- Nada demais, só precisava me distrair um pouco.

-- E o namorado? Não se chateia com o fato de você sair assim? – Pedro indagou.

-- Pedro você acha mesmo que sou do tipo de mulher que homem manda?

                Lucas gargalhou, zombando da cara de Pedro ao receber a resposta insolente da moça. Constrangida, Natalia desconversou indo direto ao assunto que lhe levou até ali:

-- Como está a mãe da amiga de vocês?

-- Está falando da Diana? – Lucas interrogou.

-- Sim.

-- Ah, está melhor, saiu da UTI, mas, precisará de muitos cuidados, não pode sofrer grandes emoções, Diana nem voltou ainda, está lá cuidando dela. – Pedro respondeu.

                Aliviada pelo fato da mãe de Diana estar melhor, Natalia questionou finalmente a si mesma sobre tanto empenho para ter notícias de Diana e a preocupação com o bem-estar dela. A verdade é que ela sofria não só a falta de notícias ou a apreensão sobre a saúde da mãe de Diana, mas também sua ausência. Chegou a se condenar por não conseguir simplesmente ficar indiferente aos problemas de Diana.

                Com seu objetivo alcançado, Natalia concluiu que não tinha nada mais o que fazer ali. Enquanto seguia para o banheiro, foi abordada por Sandro, seu colega de sala, o típico filhinho de papai, com uma irreverência inconveniente. No episódio da foto do trote, ele chegou a discutir com Diana sobre a atitude da moça de recolher as fotos na sala.

-- Opa! Olha só quem resolveu se juntar aos bons hoje! Natalia, a gostosa da capa! Aquela sua foto deveria ser capa de revista sabia? Com menos roupa, quem sabe até a Playboy, já pensou?

-- Não enche Sandro! – Natalia empurrou o rapaz irritada.

-- Ei! Você é muito estressadinha, só fiz um elogio.

-- Dispenso seus elogios, me dá licença, preciso passar!

                Sandro cercava Natalia com insistência.

-- Pra que a pressa? Está fugindo de mim?

-- O que? Se toca garoto!

-- Sabe, eu conheço um remédio ótimo pra sua irritação...

                Sandro avançou no corpo de Natalia, lhe roubando um beijo. A moça esperneou, e sem defesas mordeu os lábios do rapaz, que se afastou bruscamente transtornado notando o sangue escorrer por sua boca.

-- Está louca sua vadia?!

-- Louco é você! Fique longe de mim!

-- Você vai se arrepender de me rejeitar assim! Você não sabe com quem se meteu.

-- Está me ameaçando? Não tenho medo de ameaças de covardes como você.

-- Vai acreditando nisso sua caipira ridícula... O que você faria se aquela foto caísse na internet?

-- Você está louco? Eu te processo!

-- Sabe que tem muitos recursos de edição que fácil consigo tirar até a pouca roupa que você usava na foto?

-- Eu te denuncio!

                Natalia estava completamente transtornada, tentava agredir fisicamente o rapaz. Sandro a segurou com violência e revelou:

-- Muito cuidado comigo, posso fazer da sua vida um inferno, do mesmo jeito que espalhei as fotos pela universidade, posso espalhar pelo mundo todo, basta um clique.

-- Então foi você?

                Natalia apertou os olhos, enquanto uma lágrima percorria sua face.

-- E não hesitaria em fazer de novo.

                Sandro empurrou Natalia, e se afastou limpando o sangue da boca.

                Natalia não sabia o que lhe doía mais, se a ameaça de Sandro e sua revelação ou o fato de atestar que Diana não mentira. Entrou no banheiro, e permaneceu por um longo tempo entregue a um pranto sentido, culpado, solitário.

                Demorou a se recompor, lavou o rosto e decidiu ir embora dali, em casa, ligaria para Diana, estava decidida a obter o perdão dela.

                Quando se despedia das colegas e dos gêmeos, ouviu a movimentação de outras pessoas da mesa, uma algazarra que atraiu os demais para a calçada. Natalia seguiu os e por pouco seu coração não saltou pela boca quando viu sair de um carro esporte importado a dona dos seus desejos: Diana.

-- Aeee Diana olha a responsa da caranga!

-- Arrasou menina!

                Eram os comentários dos colegas que recepcionaram Diana. Natalia pouco se importava com o luxo do carro que atraiu a atenção de todos, seus olhos tinham um só alvo: Diana. Ficou paralisada, observando cada movimento da loirinha que esbanjava a simpatia entre os amigos, não notando Natalia no meio deles.

-- De onde surgiu essa máquina Diana?

-- Ah... Exigência de minha mãe jogou baixo comigo, me obrigando a me desfazer da moto, por que isso a preocupava demais... Como ela não pode passar por contrariedades, aceitei minha cota de sacrifício.

                Diana falou em tom jocoso.

-- E você veio de Brasília com essa belezura? – Lucas perguntou acariciando o carro.

-- Imagina... Meu pai autorizou a compra em uma concessionária daqui, cheguei hoje de manhã e passei o dia resolvendo os detalhes da compra, documentação...

-- Precisamos estrear esse carro Di! – Uma das meninas mais afoitas berrou.

-- Quando você quiser gatinha!

                Com o intuito de ser vista, tomada de ciúme, Natalia pôs-se à frente dos que cercavam Diana, foi quando esta finalmente a viu. Durou apenas segundos a troca de olhares, o suficiente para Natalia ler algo que lhe doía muito reconhecer: a mágoa de Diana.

                Diana desviou o olhar e entrou no bar, Natalia baixou os olhos e seguiu também a turma, naquela situação desistira de ir embora, precisava falar com Diana, e seria naquela noite.

                Durante o resto da noite, Diana parecia fazer questão de ignorar Natalia, mas era puro fingimento, pois, a observava com o canto do olho, e se aproveitava da vigília da moça para provocar seus ciúmes, enrolando nos seus dedos o cabelo das meninas que se aproximavam, simulando um flerte.

                A saída de Natalia era beber. As rodadas de tequila se acumulavam alterando o estado normal da menina do interior.

-- Natalia sei que não tenho nada com sua vida, mas você passou mal da ultima vez que bebeu tanto, não acha que devia ir com calma? – Lucas foi cauteloso com as palavras.

-- Estou bem Lucas, obrigada por se preocupar.

                Preocupado com a moça, Lucas sentou ao seu lado, na tentativa de regular o instinto alcoólico de Natalia. A cada minuto que passava, mais aumentava a necessidade de Natalia falar com Diana, sua vontade era cometer uma loucura, e arrastá-la na frente de todos e lhe roubar um beijo, fantasiando que isso fosse o suficiente para selar a paz entre elas. Não podendo se render a tal vontade teve a brilhante ideia de enviar mensagem de texto para Diana.

-- “Preciso falar com você agora”.

                Diana leu a mensagem, mas não respondeu. Mentalmente estava decidida a não facilitar as coisas para Natalia. Estava ferida, por ela não ter confiado, por acreditar que Diana seria capaz de espalhar as tais fotos e principalmente, pela ausência de Natalia durante o período crítico que foi a doença da mãe. Nesses dias, recebera telefonemas de Lucas, Pedro, Julia e até de colegas da faculdade, mas, seu desejo era ouvir o consolo mesmo que à distância de Natalia.

                Ansiosa, Natalia encarava Diana cobrando uma resposta, mas a loirinha não estava nem um pouco disposta a dar o braço a torcer. Não respondeu à mensagem, nem muito menos deu importância aos sinais que Natalia dava.

                Aos poucos o bar se esvaziava, apenas os moradores da república, algumas meninas mais íntimas além de Diana e Natália, permaneciam ali na mesa antes lotada.

-- Natalia está ficando tarde, você quer que eu te acompanhe até o ponto de ônibus, ou chame um táxi? – Pedro perguntou preocupado.

-- Está me expulsando daqui Pedro? – Natalia falou com a voz lentificada.

-- Claro que não, nem o dono do bar sou para fazer isso, só me preocupo com sua segurança.

                Natalia fez uma expressão indiferente, com o olhar fixo em Diana, sem se preocupar mais em disfarçar sua atenção na loirinha.

-- E aí gente? Vamos esticar? Baladinha numa boate? – Diana convidou.

-- Eu topo! – Uma das meninas disse sorrindo para Diana.

-- Vai ficar pra outra vez Di, amanhã temos treino do time de basquete pros jogos universitários. – Lucas se justificou.

-- Então vamos só nós duas Mônica? – Diana sorriu para a garota.

                Natalia virou a tulipa de Chopp como se fosse um energético para dar a coragem de anunciar:

-- Eu também vou!

                A reação de todos na mesa foi de perplexidade. A moça comedida do interior, aceitar justamente um convite de Diana para uma balada, era no mínimo estranho, especialmente por que, não era segredo para os amigos da loirinha o tipo de ambiente que esta selecionava para suas conhecidas “esticadas”.

-- Natalia, não acho uma boa ideia... Você não vai gostar do lugar e você já bebeu demais... – Pedro praticamente cochichou para a moça.

-- Pedro, eu sei me cuidar, mas obrigada pela preocupação. Vamos meninas?

                Diana e Mônica entreolharam-se surpresas, quando Natalia se levantou da mesa convidando-as.

-- Vamos lá então caipira.

                Diana pegou as chaves do carro e foi seguida por Mônica e Natália, entraram no automóvel, onde contrariada, Natalia ficou no banco de trás, rumando para um destino desconhecido para ela.

*******

                Natalia praticamente fuzilava Mônica pelo olhar, vendo a moça se derreter para Diana que não impunha resistências a isso, interiormente se divertia observando a tromba de Natalia pelo retrovisor.

                Chegaram a uma boate no lado oposto da cidade. Diana parecia conhecer todos que esperavam na fila para entrar, mas, não se juntou aos conhecidos diante da entrada, seguiu para a esquina, onde a entrada dos fundos era guardada por dois seguranças.


                Bastou um sorriso e um cumprimento íntimo para os dois engravatados abrirem espaço para Diana e suas acompanhantes passarem.

-- Quando dizem que sobrenome abre portas, eu não sabia que era uma expressão tão literal! – Brincou Mônica.

-- Deixa de ser boba garota! Eu tenho passe livre, por que toco aqui!

                Diana caminhou direto para a área VIP da boate, no trajeto, parou inúmeras vezes, cumprimentando conhecidos e conhecidas, algumas demonstravam uma intimidade que não agradou nem um pouco Natalia.

                A menina do interior estava atordoada naquele ambiente. O jogo de luzes intermitentes e coloridas, as batidas da música alta, e aquela pequena multidão de gente alternativa eram novidades para Natalia. Como se não bastasse seu estado tocado pelo álcool, todo aquele alvoroço de acontecimentos à sua volta naquele cenário aumentou sua tontura. Nem conseguia enxergar as coisas com nitidez, mas era capaz de notar que a maioria dos casais que se agarravam na pista não eram convencionais: eram casais de homens, casais de mulheres, algo que de onde Natalia vinha, nunca veria.

                Na área VIP, um pouco mais afastadas da confusão de pessoas se esbarrando e dançando, as três se acomodaram perto do bar, se serviram das bebidas oferecidas gratuitamente aos convidados daquele setor. Mônica, a mais empolgada, insistia para Diana dançar com ela, entretanto, a loirinha agora parecia mais preocupada com Natalia, que estava visivelmente perdida naquele lugar.

-- Ah, você não vai? Então eu vou! – Mônica anunciou, pegando mais uma dose de bebida, descendo para a pista de dança em seguida.

                Não exatamente como queria, mas enfim, Natalia estava “a sós” com Diana.

-- Então você toca aqui? – Natalia se aproximou puxando assunto.

-- Ahan. – Diana não olhou para Natalia enquanto respondia indiferente.

-- Eu te mandei uma mensagem, não recebeu? – Natalia perguntou tímida.

-- Recebi. Mas, acho que sua mensagem chegou com uns dez dias de atraso.

-- Eu pensei em ligar quando soube da sua mãe, mas...

-- Olha só caipira, você deixou muito claro que não queria mais me ver, nem ao menos falar comigo, eu só te devo uma coisa, por uma questão de honra: provar que não fui eu que tirei aquelas fotos e as espalhei.

                Diana disse com um tom magoado e olhar frio.

-- Você não precisa provar nada. – Natalia falou com os olhos baixos.

                A loira franziu as sobrancelhas estranhando a fala da outra.

-- Impressão minha ou você está sabendo de alguma coisa que eu não estou sabendo?

-- Eu descobri quem fez isso.

-- Descobriu? Então por isso você está falando comigo não é? Que tonta que fui, pensei por um instante que você estivesse arrependida de ter duvidado de mim, que queria conversar comigo pra me pedir desculpas por ter me acusado, e por ter ficado ausente esses dias apavorantes pra mim...

-- Eu queria estar perto de você...

-- Natalia chega, não gaste seu latim comigo, não vai adiantar, nada do que você disser vai desfazer seu vacilo. Agora sou eu que digo: deixe-me em paz.

-- Diana espera...

                Natalia segurou o braço de Diana que ameaçou se afastar dela.

-- Estou aqui pra você... Por você.

                As palavras sinceras acompanhadas de um olhar suplicante de perdão quase amoleceu Diana, que encarou Natalia desarmada. Mas, aquele momento foi interrompido por uma mulher conhecida que se agarrou no pescoço de Diana, fazendo algazarra.

-- Di! Saudade! Onde você se escondeu?

-- Luciana tinha que ser você pra me assustar assim! – Diana brincou.

-- Ah você me conhece, tudo é festa pra mim.  E você... Eu te conheço... – Luciana apertou os olhos em direção à Natália. – Ah claro! Você estava com a Diana naquele dia que a esqueci presa no arquivo...

                Natalia balançou a cabeça confirmando.

-- Nossa você era a última pessoa que esperava encontrar aqui. – Luciana comentou divertida.

                Natalia ficou tímida, o álcool que ingerira parecia não provocar mais a desinibição que a moça objetivara ao fazer seu uso descontrolado. Por algum tempo permaneceu reclusa apenas escutando o papo animado entre Luciana e Diana, sofrendo a aparente indiferença da loirinha. Afastou-se sem alarde para o bar, pediu uma bebida, que mais serviu de distração para o passeio dos seus dedos nos cubos de gelo do que propriamente para beber, sentia-se nauseada, frustrada, dolorida pelo tratamento que recebera de Diana.

                Diana fingiu não se dar conta que Natalia se afastara, mas acompanhou a moça com os olhos, tal atitude não passou despercebida pela amiga:

-- Ok desembucha! O que está rolando entre você e essa menina?

-- O que? Rolando nada, ta doida Lu?

-- Não insulta minha inteligência, você sabe perfeitamente que meu jeito distraído é puro charme! Você pensa que eu não captei a energia?

-- Ai lá vem você com esse lance de energia... Acho que você tem que sintonizar melhor então seu para-raios!

-- Diana não enrola... Primeiro você e Julia rompem o namoro, depois você aparece no fórum pra fazer um trabalho de faculdade, fica horas trancada com essa menina lá, ela sai correndo e você nem explicações me dá pra sair correndo atrás dela, agora você reaparece nessa boate acompanhada dela, encontro o maior climão entre vocês, e agora você está aí, roendo as unhas louca pra olhar pro bar onde ela está só não fez isso ainda pra não reconhecer que estou certa!

                Diana revirou os olhos.

-- Não sei o que você usou naquele banheiro hoje, mas provavelmente estava estragado, você está surtando!

-- Ah então ta, estou enganada... Sendo assim, você não vai se importar se eu disser que a Isadora já está com a armadilha pronta para pegar girino...

                Diana se virou abruptamente e viu o que torcia ser apenas uma brincadeira de Luciana: Isadora, a “bar girl” da boate, famosa por promover o “test-drive” em muitas clientes dali.

-- Cara essa Isadora não tem jeito. Não ta vendo que é só uma menina que está perdida aqui? Vou lá.

-- Opa opa opa! Como assim uma menina perdida? Vai lá fazer o quê?

-- Luciana a garota veio comigo, é uma caipira, o máximo de luzes coloridas que ela viu até hoje foram de ambulâncias ou da polícia! Sei lá o que a Isadora vai servir pra seduzi-la!

-- Desde quando você virou Wendy, a irmã mais velha das garotas perdidas? Simplesmente não combina com você essa proteção com uma caipira, em outra situação você estaria dando corda pra Isadora catar a guria.

-- Não quero que essa novata saia espalhando pelo campus que virou sapa por minha causa, Lucas e Pedro me matariam, estão apaixonados por ela!

-- Só Lucas e Pedro?

-- Não começa Luciana!

-- Diana, você quer mesmo que eu acredite que você não prestou atenção nessa menina?

-- Ah, por que deveria?

-- Você já teve o olho mais clínico... Pode até ser meio mal arrumadinha meio jeca ainda, mas é linda! Se você não viu isso, a Isadora já viu, e olha que eu nunca soube de nenhuma que resistiu ao charme dos coquetéis dela...

                No balcão do bar, Isadora não economizou sedução para conquistar a simpatia de Natalia, que já se mostrava mais receptiva ao papo da bar girl.

-- Está perdida aqui?

-- Depende do que você considera uma pessoa perdida... – Natalia respondeu mirando o copo.

-- Uma pessoa no lugar errado, na hora errada, que se pergunta o que está fazendo nesse lugar, mas não sabe ao certo aonde quer ir. Acertei?

-- É, acho que você me definiu bem nesse momento.

-- Então nesse caso, tenho uma notícia boa para você - Isadora se aproximou cochichando - as pessoas perdidas que vem para o Armazém, sempre são encontradas.

                Natalia ruborizou, não pelo conteúdo da frase, mas pelo que a bar girl deixou evidente nas entrelinhas, com o tom de voz usado e o olhar libidinoso.

-- Não perde tempo em Isadora! – Diana chegou encostando-se no balcão.

-- Tempo foi feito pra ser gasto, não perdido. Como vai Diana?

-- Não tão bem quanto você, a menina aí é quarta ou quinta da noite?

-- Depende a que você está se referindo, se está falando se ela é quarta ou quinta cliente que sirvo bebida, a resposta é não, já servi dezenas de clientes essa noite.

-- Você ao menos perguntou se ela tem idade pra beber? Não está vendo que é só uma menina?


                Diana se esforçava para não demonstrar irritação, mas isso estava claro na troca de farpas com Isadora. Notando ser o centro da discussão, e vendo a oportunidade de despertar os ciúmes de Diana, Natália se intrometeu na conversa:

-- Não estou vendo nenhuma menina aqui, tenho idade e vontade própria para beber o que quiser.

-- Você já bebeu demais essa noite, não pense que vou levar você bêbada para casa, pra você vomitar meu carro todo!

                Foi o único argumento que Diana encontrou para justificar sua censura com Natalia.

-- Se é esse o problema, não se preocupe, não volto no seu carro.

-- Posso saber como você vai voltar? Você nem sabe em que parte da cidade está caipira!

-- A garota já disse pra você não se preocupar Diana, mas, se você fica mais tranquila, me responsabilizo a colocá-la em um táxi, meu turno acaba em uma hora.

                Isadora disse sarcástica. Diana bufou. Encarou Natalia fixamente, deixando transparecer sua insatisfação com aquilo, mas, a moça não se intimidou, afinal conseguiu o que queria: arrancar Diana da indiferença com a qual ela afastou-a naquela noite.

-- Pois muito bem, lavo minha mão com você caipira.

                Diana saiu a passos rápidos e firmes contrariada. Aquela frase parecia estar mais carregada de mensagens subentendidas do que simplesmente um aviso casual. Apesar de sentir-se incomodada com tal percepção, Natalia decidiu prosseguir com sua estratégia de provocar ciúmes em Diana, e Daniele por sua vez, estava convicta que ganhara a confiança da garota.

-- Não sabia que você estava com a Diana, fiz mal em me meter? Ela saiu fumaçando daqui...

-- Fica tranquila, eu só vim de carona com ela, estudamos na mesma faculdade.

-- É só isso mesmo? Ou ela é o motivo de você estar tão atenta ao fundo do copo desde que se sentou aí?

                Natalia sorriu tímida.

-- É só isso mesmo.

-- Então assim fico mais tranquila. Daqui a pouco te mostro como as pessoas “se encontram” no Armazém menina perdida.

                Sedutora como ela só, Isadora beijou o canto dos lábios de Natalia, que não teve outra reação que não fosse paralisar. Sem saber ao certo no que estava se metendo, temeu como aquela noite poderia terminar. Depois que a bar girl se afastou para servir outras clientes, começou a observá-la, seu corpo, suas tatuagens espalhadas estrategicamente nos pontos mais sensuais, seu corte cabelo assimétrico, sua desenvoltura com os copos, garrafas e coqueteleira, o conjunto de características que justificavam o ciúme de Diana e a fama da garota de sedutora.

                Por mais que tentasse, Diana não conseguia afastar o pensamento do bar onde Natalia estava. Uma ideia martelava todo tempo: o corpo de Natalia que ela tratava com tanto respeito e admiração, para Isadora ia ser só mais um na sua extensa lista de conquistas. Enquanto tentava se distrair na pista da dança com Luciana e Mônica, ignorou os possíveis olhares de cobiça os quais era alvo, o que ela desejava na verdade era arrancar Natalia dali, protegê-la daquele movimentado mundo de vaidades onde impera a busca do prazer pelo prazer, e pior, a exposição a perigos os quais Natalia não estava preparada para distinguir e enfrentar.

                Puxou Luciana da pista de dança e pediu:

-- Você tem que tirar a Natalia de lá, aquela caipira não sabe no que está se metendo!

-- Diana vá você mesma e faça o que tem que fazer! Você está louca por ela!

-- Não viaja Luciana! Você sabe perfeitamente o que a Isadora vai fazer quando sair do turno de trabalho dela, a Natalia nem sabe que isso existe! Não quero a culpa de saber que a menina foi drogada, sabe-se lá o que fará depois disso.

-- É... Se a Isadora der uma balinha azul pra caipira, ela não vai saber é o que a Isadora vai meter nela...

                Diana arregalou os olhos apavorada.

-- Luciana a gente tem que fazer alguma coisa!

-- A gente quem cara pálida? Você tem! Por que eu to me mandando, com a sua outra companhia, que, aliás, você já deveria ter nos apresentado há muito tempo!

                Diana resmungou xingamentos contra as amigas vendo-as deixarem a boate abraçadas. Deu-se conta que nem Natalia, nem Isadora estavam mais no bar, deduziu que o turno da bar girl se encerrara, e assim partiu desesperada em busca das duas, não precisou gastar muito tempo para avistá-las na pista de dança: agarradas, envolvidas. Isadora segurava a moça pela cintura por trás, esfregando seu corpo no dela para a fúria de Diana.

                A loirinha avançou na direção das duas, empurrando os demais na pista, ao se aproximar, Natalia foi puxada por Isadora para um corredor que dividia os ambientes da boate. Diana sabia o que a bar girl pretendia, ali era um dos lugares mais utilizados para amassos mais tórridos pelos casais, além de também ser o ambiente que dava alguma segurança para o uso discreto de extasy ou outras drogas orais.

                Diana acertou na mosca, flagrou Isadora empurrando delicadamente um comprimido na boca de Natalia que parecia alheia a tal perigo. Como uma super heroína dos filmes de ação, empurrou a bar girl com violência.

-- Cospe isso Natalia!

                Assustada, a moça pinçou o comprimido azul ainda na sua língua, e foi arrastada pela mão por Diana para fora da boate.

domingo, 4 de dezembro de 2011

LEIS DO DESTINO - AVISO

Olá minhas queridas,

Impossível não perceber que o número de visitas por aqui aumentou, as estatísticas não mentem!rsrs
Bom saber que vocês me seguiram até aqui,e pelo mesmo respeito que sempre tive por vocês, aproveito para avisar para aquelas que já leram no HD a primeira fase do romance Leis do Destino, a segunda fase será postada a partir dessa terça dia 6.

Vou tentar postar em uma página separada para não confundir aquelas que estão acompanhando ainda a primeira fase.

Bjos a todas

LEIS DO DESTINO: 19º e 20º CAPÍTULOS

CAPÍTULO 19 VEXATA QUAESTIO -

*Questão em debate
Por Têmis


Aula de IED finalmente. Os alunos do primeiro período de Direito, pareciam ansiosos para testemunhar um debate político em véspera de eleição. Tanta expectativa acentuava o nervosismo de Natalia, que ainda se perguntava como conseguira se envolver no embate pessoal entre a professora e a aluna repetente e petulante.

O nervosismo de Natalia só não era maior do que a ansiedade por rever Diana, remexia-se na cadeira olhando para o relógio, relia suas anotações, tentando ignorar os comentários dos colegas que formulavam hipóteses sobre o comportamento das protagonistas no debate. Seu coração por pouco não lhe saltou à boca, quando viu a loirinha adentrar com seu estilo único. Naquele dia, Diana usava um suspensório para compor seu visual despojado, nunca fora referência de moda, mas entre as alunas, a opinião era uma só: o que ela veste sempre cai bem.

Trocaram olhares cúmplices, tentando esconder o brilho de felicidade que eles tinham ao se encontrarem.

-- E aí? Preparada? – Natalia perguntou quando Diana se sentou na fila paralela.

-- Aprenda uma coisa caipira: você nunca está preparada para enfrentar Madimbú.

Natalia franziu a testa diante do jeito frio que Diana respondeu, especialmente por que fora chamada pelo apelido irritante mais uma vez.

-- E você, trate de pelo menos não me atrapalhar, enquanto apresento o trabalho.

Diana concluiu sem encarar Natália que estava estarrecida com o tratamento dirigido a ela, sem cor na face ainda teve que ouvir o comentário de Ruth que cochichou:

-- Não se preocupe, é só uma grossa, recalcada por que a colocamos no devido lugar, não nos intimidamos com o assédio dela.

Natalia engoliu os desaforos que Ruth merecia ouvir, ruminando o tom ríspido de Diana, quando ouviu a campainha de mensagem do texto do seu celular:

-- “Controlando minha vontade de te beijar, difícil fingir que não estou caída por você. Saudades, obrigada por ficar do meu lado”.

Ao ler, Natalia olhou para o lado discretamente, deixando escapar um sorriso extremamente discreto quando Diana lhe deu uma piscadela, acenando que sua antipatia era puro teatro.

Contra as expectativas, naquele dia, a doutora Dorothea demorou a chegar, aumentando a tensão de Natalia e Diana. Com mais de meia hora de atraso, a professora chegou tranquila, seu comportamento sereno parecia ensaiado para despertar o pavor das alunas que não se prepararam para uma simples apresentação de um trabalho, e sim um duelo desigual.

-- Diana fez a tarefa que lhe incumbi?

-- Claro Meritíssima.

-- Pois bem, estou esperando a explanação.

Doutora Dorothea não deixou que nenhuma emoção transcendesse sua expressão. Sentou-se na cadeira atrás da mesa da sala, com a mesma postura de magistrada no Tribunal do Júri, deixando subentendido para a aluna que ali ela era a ré a receber sua sentença.

Diana pôs-se de pé altiva, fazendo sinal para que Natália fizesse o mesmo.

-- Elegemos um caso que já fora arquivado, julgado na 18ª Vara Cível da Comarca de São Paulo – SP, já transitado em julgado, encontrando-se atualmente arquivado.


Natalia leu o relatório do processo eleito: “Tratam-se os autos de uma Ação de Obrigação de Fazer c/c Indenização por Danos Morais manejada por ANTÔNIO SOUTO em face do CONDOMÍNIO COLISEU, alegando em suma que o tratamento direcionado a sua pessoa, pelos demais condôminos e funcionários, a saber, “Você”, vem lhe causando danos de ordem moral, uma vez que não condiz com o tratamento digno com o cargo que ocupa razão pela qual requer que os moradores do supracitado condomínio sejam obrigados a tratá-lo formalmente de “Senhor” ou “Doutor”, bem como os seus convidados, sob pena de multa diária na importância a ser fixada judicialmente. Por fim, requereu a condenação dos réus ao pagamento a título de Indenização por Dano Morais no valor de 100 salários mínimos.”.

Como esperado, os demais alunos se manifestaram abismados com tamanho despautério cometido por um magistrado, os cochichos e risos tomaram de conta da classe, irritando Dorothea, que percebera o intuito de Diana ao escolher tal processo. A professora, traída pelo costume de ditar palavras de ordem em um tribunal deixou escapar:

-- Ordem! Ordem no recinto!

Espalmou a mesa com violência, como se sua mão fosse seu martelo.

O silêncio enfim se fez na sala, enquanto as bochechas de Dorothea se coravam ainda mais evidenciando que sua aparente passividade caíra por terra, Diana deixava escapar um sorriso no canto dos lábios, comemorando interiormente o sucesso do seu primeiro ataque: desfizera a simulada indiferença de Dorothea.

-- Conforme se vislumbra no relatório, o meio a que somos pretensos ingressos é permeado por um jogo de vaidades. Alguns dos que exercem a Ciência do Direito são movidos por soberba, o ideal de Justiça, insculpido em nossa Constituição Federal, onde todos são iguais perante a lei sem qualquer distinção, é suplantado por um ego buscando ser ovacionado. O Princípio da Isonomia foi deturpado, o Senhor Antônio Souto, contrariando a Carta Magna, se julga diferente, se considera melhor, tal qual os semi deuses da mitologia grega, investido no poder que o cargo lhe proporciona, merecendo, portanto, tratamento diferenciado em seu, frise-se, ambiente social.

Notando a perplexidade da professora com sua explanação, Diana prosseguiu:

-- Como todos podem atestar, a soberba de alguns que exercem o Direito, em nada faz valer a justiça e o bem comum, normas éticas dão lugar a um jogo de vaidades por vezes esdrúxulo como esse relato. O princípio equânime de que a justiça trata os iguais de maneira igual e os diferentes de modo diferentes, aqui foi deturpado, uma vez que o Meritíssimo Antônio Souto se julgou não só diferente pelo cargo que exercia, mas, principalmente, se acha superior, pelo poder que o Direito lhe outorgou, assim merecia tratamento diferenciado. Afinal quem esses cidadãos comuns? Reles mortais ignorantes que pensam que podem se reportar a mim como um igual? Acaso não reconhecem meu merecimento? Que país injusto! Qual será o próximo disparate? Um grupo de crianças ousando interromper meu sono com jogos na área de lazer do condomínio? Tenho a impressão que o Meritíssimo Antônio Souto se viu obrigado a dar uma lição a todos com sua iniciativa.

Diana usou da eloquência e desenvoltura que Dorothea não esperava de alguém que ela classificava como incapaz de até mesmo cursar sua disciplina. Entretanto, o que claramente desconcertou a professora, foi o tom de ironia, e em muitos trechos, o caráter sarcástico do discurso da aluna que arrancou não só risos dos colegas, mas, sobretudo a concordância destes acerca do absurdo embutido naquele processo.

Natalia lutava para conter o orgulho que sentia de Diana, deteve-se no seu papel de coadjuvante naquele duelo.

-- Então foi esse grande exemplo que você me trouxe? Isso é o máximo que você consegue expor sobre o quanto o Direito manipula o sistema para o benefício de uma minoria? O devaneio de um deslumbrado?

Diana precisou de frieza para rebater o golpe de Dorothea que desmereceu o fruto da pesquisa da estudante.

-- O que a Meritíssima considera como devaneio de um deslumbrado, eu vejo como um desrespeito aos Princípios Gerais do Direito, que são as ideias de justiça, liberdade, dignidade, democracia, etc. Enunciados normativos, muitas vezes de valor universal, que orientam a compreensão do ordenamento jurídico, que servem de alicerce para a construção do Direito. Se a Senhora não observa a gravidade do desrespeito a tais princípios, considerados a alma das leis, qualquer outro conduta que vá de encontro a tais ideias são justificáveis.

Se Dorothea fosse de fato Madimbú, ela avançaria em Natália naquele momento para golpeá-la com sua barriga avantajada enviando-a para um planeta anos luz distante da Terra. A intercessão da novata como elemento surpresa naquele entrave foi o golpe de misericórdia que definiu aquele round. Até Diana se surpreendeu com a segurança e a propriedade que Natalia demonstrou, anulando qualquer reação da professora.

-- Vejo que se aprofundou no conteúdo da disciplina. Como é mesmo seu nome?

-- Natalia, professora.

-- Obrigada pela contribuição com a aula às duas. Podem se sentar. Aproveitando o gancho que Natalia nos apresentou, vamos discutir hoje os fins sociais das normas e a Teoria Tridimensional de Miguel Reale: fato, norma e valor.

Se restava alguma dúvida, agora era oficial: Natalia estava na lista negra da doutora Dorothea. Isso não parecia intimidar a moça do interior, que no momento estava mais empolgada em comemorar com Diana, aquela pequena vitória sobre a soberba e a intransigência da professora.

Trocaram mensagens de texto combinando de se encontrarem na rua atrás da universidade. Saíram apressadas, ansiosas para se renderem à saudade, e celebrar o sucesso da parceria das duas contra o que Diana acreditava ser uma má representação do Direito no país.

Ao encontrar Diana à sua espera, montada em sua moto, Natalia teve o impulso de envolvê-la em seus braços e mergulhar na sua boca, mas, teve que conter o impulso, se escondeu atrás da banca de jornal a qual Diana estava estacionada, quando viu Lucas se aproximar da amiga.

-- Di! O que faz aqui?

Atordoada e tensa, temendo que o rapaz encontrasse Natalia, Diana desconversou.

-- Vim comprar uma revista que meu professor de fotografia indicou, mas aqui não tem.

-- Que pena... Estava mesmo precisando falar com você.

-- Aconteceu alguma coisa?

-- Não sei, gostaria que você me ajudasse a descobrir o que aconteceu.

Com uma expressão enigmática, o rapaz encarou Diana. E como quem deve, teme, a loirinha chegou a suar frio diante da abordagem do amigo.

-- Como assim Luc?

-- Como a gente sabe quando está apaixonado?

A expressão do rapaz mudou, desfazendo o olhar antes misterioso, dando lugar a timidez nada coerente com sua personalidade.

-- Estou enlouquecendo Diana. Natalia não me sai da cabeça, depois do aniversário do Ricardo então... Nossa! Procurei-a feito louco, ela simplesmente sumiu, mal dormi ansioso para no outro dia procurá-la com a desculpa mais esfarrapada, ajudá-la na faxina do apartamento dela, você tem noção do “caô" que usei só pra chegar à menina?

Diana fingia surpresa, encarando o amigo com os olhos esbugalhados.

-- Não me olhe assim, por que você ainda não sabe o pior!

-- Ah não me diga que isso ainda vai piorar...

-- Estou sofrendo desde que fui até o apartamento dela em plena manhã de domingo, pra fazer faxina, e ela me disse que estava acompanhada do ex-namorado jeca, e que os dois voltaram a namorar.

A loirinha ria por dentro calculando a piada da situação, ela sendo intitulada de jeca pelo amigo.

-- Sei que você quer rir, mas nem me importo, pode rir! Eu estou caidasso pela caipira como você a chama... O que faço?

Diana respirou fundo, e disse:

-- Esqueça! Desista! Essa menina só vai trazer problema, não serve pra você, além do mais, o Pedro também está afim dela, isso seria um desastre completo!

-- Não entendo o que você tem contra ela sabia? Isso tudo é ciúme de nós?

-- Não viaja Lucas! Que ciúme o que! Desde o começo vi que essa menina não era pra você, nem pro Pedro!

-- Você antipatizou com a menina desde o trote! Encarnou na menina sem pena, até aprontou com ela que eu sei!

-- Surtou Lucas?

Diana agora saltou da tensão para o desespero.

-- Ah Diana! Eu te conheço muito bem. Pensa que não vi você de combinação com a Morgana? Logo depois ela subiu com Natalia e você coincidentemente autorizou o blecaute, e disparou “está pegando fogo!” e aí a coitada apareceu naqueles trajes.

-- Lucas para de falar besteira não tive nada com isso! Toda festa que toco uma hora a gente faz o blecaute pra galera se pegar na pista, e por isso grito que está pegando fogo, a pegação!


A loirinha descompensada, explicava-se mais para Natalia que certamente estava ouvindo a conversa escondida atrás da banca, do que para o amigo.

-- Diana... Quem não te conhece, que te compre! Fazer esse tipo de coisa com bicho é sua cara, mas você pegou pesado com o lance das fotos...

-- Fotos?! Não fui eu que fiz as fotos, nem muito menos divulguei você sabe o quanto levo a sério o lance de fotografia!

-- A mim você não engana... Encrencou com a menina, por isso, não quer nem que eu, nem que o Pedro fique com ela! Mui amiga você...

-- Lucas você é um idiota!

Diana estava possessa. Apesar de não ser completamente inocente na história, não era assim que pretendia revelar sua participação na brincadeira de mau gosto que Natalia fora vítima no trote.

-- Você é que está se comportando como uma! Egoísta, ainda por cima, ciumenta e infantil!

-- Ah quer saber Lucas? Vá pro inferno!

Diana acelerou a moto, deixando o rapaz falando sozinho na calçada. Precisava encontrar Natalia, que não estava mais atrás da banca de jornal. Deu voltas no quarteirão, passou pelos pontos de ônibus mais próximos, voltou à universidade, ligou repetidas vezes para o celular dela, mas foi inútil, a menina não lhe atendia, e parecia ter evaporado das vistas de Diana.

CAPÍTULO 20: Corrigenda
*Erros que devem ser corrigidos.

Natália sentiu-se como teletransportada para uma realidade paralela, na qual, as pessoas envolvidas naquela conversa entre Diana e Lucas, eram apenas personagens fictícios, e nem tão pouco ela era o assunto chave da discussão.

Antes que pudesse ser descoberta ali, deu meia volta no seu trajeto, seguindo por ruas desconhecidas, andando sem rumo. Ao reconhecer o barulho da motocicleta de Diana, esquivou-se em uma livraria, definitivamente, ela era a última pessoa que Natalia queria ver.

Cansou de percorrer as ruas de São Paulo, se viu sozinha, nem ao menos podia contar com alguém para lhe consolar, ou desabafar, os amigos que fizera naquele pouco tempo, eram Lucas e Pedro, nenhum deles eram os mais adequados a lhe escutar, muito menos Ruth ou alguma das meninas do time de vôlei. Sentindo-se desamparada, parou em um telefone público e ligou para casa de seus pais:

-- Mãe?

-- Minha filha! Acredita que estava pensando em você? Como você está?

-- Oi mãe... Estou bem, só bateu saudades...

A voz embargada de Natalia preocupou sua mãe.

-- Natinha? Minha querida aconteceu alguma coisa?

-- Não mãe... Só estou sentindo falta de vocês... Queria colo... As pessoas aqui são tão cruéis...

-- Ow minha menina... Você está construindo seu sonho, pense em tudo que você lutou para estar aí. Além do mais, tem o feriado do carnaval, vou falar com seu pai, para te mandar as passagens, você vem, mata as saudades, faço tudo que você gosta, e comemoramos seu aniversário, tudo bem?

-- Ahan.

-- Natinha, não deixe que nada te abale, essas pessoas que podem estar te maltratando, não sabem do que você é feita, não conhecem seu valor, você é exatamente do tamanho do seu futuro: grandioso. Não deixe que nada, nem ninguém te convença do contrário, nem muito menos que te desvie do seu caminho.

Dona Fátima não podia imaginar o que se passava com a filha, mas a conhecia muito bem, como toda mãe, era capaz de compadecer-se do sofrimento da filha, mesmo sem saber ao certo a dimensão deste. Entretanto, também sabia que Natalia era uma menina forte, que não se curvaria à primeira dificuldade, o telefonema ainda não era um pedido de socorro, a filha só precisava ser lembrada do que a mantinha longe da segurança de sua família naquela cidade gigantesca e estranha.

Com as palavras de incentivo materno, Natalia acalmou seu coração e seguiu para casa quando caiu a noite. A dor que sentia lhe absorveu até as forças físicas, as escadas do seu prédio pareciam intermináveis, chegando ao seu andar, se surpreendeu com a recepção: Diana sentada à porta do seu apartamento.

-- O que você está fazendo aqui?

-- Eu estava te esperando, pra conversar com você, me explicar.

-- Esperou em vão, não tenho nada a conversar com você Diana.

Natalia abriu a porta, afastando Diana da sua frente.

-- Nat escute, por favor, se depois disso você continuar sem ter nada a conversar comigo, eu vou embora, e te deixo em paz, do contrário ficarei aqui na sua porta o tempo que for, até você me escutar.

Natalia deu de ombros, duvidando da ameaça da outra. Entrou no seu apartamento batendo a porta, deixando Diana do lado de fora. A loirinha, persistente como Natalia não podia supor, voltou à sua posição anterior, sentou-se junto à porta decidida a cumprir a ameaça.

O simples fato de saber que Diana poderia estar ali bem perto desequilibrava Natalia. Naquela noite, a menina odiou como nunca a pequenez de seu apartamento, não podia fugir de ouvir pequenos movimentos de Diana, até sentir seu perfume se espalhar pelo cubículo que lhe abrigava. Andou de um lado para outro, e várias vezes se aproximou da porta, mas desistiu. Ligou a TV em volume alto, na tentativa que isso sufocasse o que seu pensamento insistia em repetir: “ela está aí, a quatro passos de você”.

Cochilou sentada no sofá, acordou abruptamente, sem saber ao certo quanto tempo dormira, mas o silêncio quando desligou a TV a fez acreditar que Diana se rendeu enfim, e não estava mais ali. Abriu a porta para confirmar suas suspeitas, e para seu susto, a loirinha que se apoiava na porta, caíra para dentro do apartamento.

-- Ai meu Deus, Diana não acredito!

Natalia colocou a mão no peito assustada. Do chão Diana olhava a moça, com a mesma expressão de susto por ter sido acordada assim.

-- Levante-se! – Natalia ordenou.

Diana como obedeceu prontamente como se aquilo fosse da sua índole, mesmo não sendo.

-- Você está louca? Que horas são? Daqui a pouco os vizinhos vão reclamar por ter alguém dormindo no corredor do prédio!

-- Eu disse que não sairia.

-- Você já conseguiu o que queria, estamos conversando, fale.

-- O que você ouviu da minha conversa com o Lucas, não é totalmente verdade, ele está enganado.

-- Quem estava enganada era eu...

-- Natália, eu armei sim aquela brincadeira de péssimo gosto com você no trote. A gente sempre apronta com um bicho, de fato uso isso nas festas que animo o lance do blecaute, estava irritada com você, não acreditava que você fosse inocente na história de ter beijado Lucas e Pedro, e armei com a Morgana, dela jogar bebida em você e tudo mais que você sabe. Mas, eu não fotografei, nem muito menos divulguei as fotos.

-- Por que eu acreditaria em você? Você teve todo esse tempo para me contar isso, e não contou!

-- Eu ia contar, só estava esperando o momento certo, a gente se desentendeu tanto, estava curtindo esse momento que estávamos nos conhecendo, dando a oportunidade de você me conhecer e poder confiar em mim. Eu me arrependo sinceramente do que fiz, só posso te pedir perdão pela brincadeira desastrosa.

-- Não te conheço... Não confio em você... Você em menos de um mês me magoou mais que já fui magoada a vida toda.

-- Nat...

-- Diana você já disse o que queria, agora vá embora, me deixe em paz.

-- O que a gente viveu esses dias não significou nada pra você? Você que diz saber me ler, não consegue enxergar o que meus olhos dizem?

-- Não quero te ler, não quero sequer olhar pra você Diana. Não duvido que você use o que aconteceu entre nós para fazer piada depois, me expor ao ridículo.

-- Você não pode estar falando sério!

-- Por que não? Pode ser só mais uma brincadeirinha sua com a caipira aqui!

-- Um dia você vai se arrepender por não acreditar em mim, peço desculpas sinceras por ter exposto você no trote, mas não vou pedir perdão por algo que não fiz, não tirei foto alguma, vou descobrir quem fez isso, e te provar que não estou mentindo, mas aí, não sei se conseguirei te perdoar por não acreditar em mim.

-- Como você ainda ousa se fazer de vítima injustiçada nisso? É muito cinismo!

-- Não tenho mais nada a dizer... Vou embora agora.

-- Espero que para sempre. – Natalia resmungou. – Mas, antes, leve isso.

Natalia entregou o celular presenteado.

-- Não quero isso, comprei para você, se não o quer, arranje um destino para ele.

Diana deixou o apartamento de Natalia amargando a consequência de uma brincadeira estúpida e de uma culpa que não lhe pertencia. Quando chegou à sua casa, se surpreendeu com o seu telefone tocando.

-- Alô?

-- Diana? Sou eu. Pegue o primeiro voo para cá!

-- Está louco Douglas! Você me liga no meio da noite, com uma ordem dessas? Não vou a lugar nenhum.

-- Não complica as coisas Diana, você tem que vir pra cá com urgência!

-- Pra quê? Mais uma reunião inadiável do papai para elaborar a próxima campanha?

-- Diana é sobre a mamãe.

-- O que houve com ela? – Diana perguntou exasperada.

-- Ela sofreu um infarto Diana, está na UTI.

-- Como ela está Douglas? Fala!

-- Diana, nós não sabemos ainda! Venha imediatamente!

-- Vou agora mesmo para o aeroporto.

Diana não pensou duas vezes, jogou duas mudas de roupa em uma mochila, chamou um táxi e seguiu para o aeroporto, todas as suas preocupações com os problemas que lhe angustiavam deram lugar a apreensão que lhe comprimia o peito. Sua mãe era antes de qualquer coisa, sua grande defensora e melhor amiga, tinha verdadeira devoção por ela, grande parte dos motivos que faziam a relação com seu pai conflituosa, era o fato deste, maltratá-la com constantes traições e humilhações.

**********

Natalia chegou à faculdade com os sinais no rosto de uma noite mal dormida depois e muitas lágrimas. Não quis assunto com ninguém, apesar das insistentes tentativas de Ruth. Interiormente vivia o dilema de não querer encontrar Diana pelos corredores, e torcer para o acaso promover tal encontro, como se olhar para ela fosse condição vital para seu dia ser completo.


Entretanto, não foi Diana que o acaso lhe trouxe, ao invés dela, mais uma vez, avistara Pedro, saindo do escritório de prática jurídica. Tentou acelerar os passos, para não ter que ser sociável com o rapaz, mas foi inútil, Pedro lhe viu e a alcançou.

-- Finalmente te encontro! Como vai Natalia?

-- Um pouco apressada, eu estou com muita coisa pra estudar Pedro.

-- Entendo. Então, não vou te atrasar, caminho com você até o ponto de ônibus.

Sem alternativa, Natalia apenas acenou em acordo.

-- O Lucas comentou comigo que você voltou com seu ex-namorado da sua cidade, é verdade?

-- Sim é.

-- É uma pena para mim, mas o que importa é você estar feliz, o que não me parece estar acontecendo, você está bem?

-- Pedro, não gostaria de falar nisso se você não se importa.

-- Tudo bem então.

Andaram alguns metros em silêncio, até o celular do rapaz tocar.

-- Oi Di, tudo bem? Como assim? Você está em Brasília?

Ao ouvir o nome de Diana, Natalia arregalou os olhos e prestou atenção à conversa.

-- Mas o que aconteceu? Infarto? Ai meu Deus! Como ela está agora? Entendo... E você? Não se preocupe, eu justifico sim, com eles vai ser limpeza. Boa sorte, qualquer novidade me ligue, se precisar de qualquer coisa não hesite! Beijos.

Natalia olhou para Pedro como se esperasse uma explicação.

-- Era a Diana. Ela foi hoje de manhã para Brasília, a mãe dela sofreu um infarto ontem. Ligou para pedir que justificasse as faltas com dois professores que são meus preceptores.

-- Como ela está?

-- Está se recuperando, mas a Diana está muito abalada coitada, a mãe dela é o porto seguro dela, nossa...

Natalia sentiu seu peito apertar, não se lembrou de sua mágoa, sentiu uma imensa vontade de oferecer seu colo e apoio. Mas, tentou suprimir tal impulso, impondo racionalmente os motivos que as separavam.

-- Nem sabia que a família dela era de Brasília... – Natalia tentou disfarçar o interesse.

-- Não são de Brasília, são de Mato Grosso do Sul, mas mantém residência lá por causa do pai dela.

-- Por causa do pai?

-- É. Você não sabe quem é o pai da Diana?

-- Não! Por que deveria saber?

Natalia não entendia por que ela deveria saber algo sobre Diana, respondeu ao amigo irritada, como se fugisse de ter que explicar qualquer elo com a loirinha.

-- Meu ônibus chegou, tenho que ir Pedro.

A moça entrou no veículo apressada, na sua mente, a imagem de Diana era constante, não entendia, mas o seu desejo era de estar ao lado dela, emprestar seu ombro, apertar sua mão, dividir sua angústia. O orgulho, entretanto, foi maior, desistiu de ligar para Diana, julgou e a sentenciou: não merece minha compaixão.

LEIS DO DESTINO: 17º e 18º CAPÍTULOS

CAPÍTULO 17 : Cura
* Sob cuidados
Por Têmis


Os corpos colados e a intensificação daquele beijo acenderam ainda mais a libido das duas, as mãos percorreram a pele de ambas aumentando o calor e a excitação. Lentamente Natalia empurrou Diana contra um dos carros estacionados e desceu com sua boca pelo pescoço da loirinha, que fechava os olhos se deliciando com aquela carícia, sentindo o prazer se desenhar em seu corpo, acelerando sua respiração e a vontade de ser inteira de Natalia.

-- Natalia... Vamos sair daqui... – Diana convidou ofegante.

Tão excitada quanto Diana, Natalia respondeu apenas balançando a cabeça rapidamente aceitando a proposta.

Enquanto Lucas procurava Natalia pela festa, esta escapava com Diana em sua motocicleta. No trajeto, o efeito da bebida em excesso que Natalia ingeriu nublou seus sentidos, sentia-se tonta, nauseada, pediu que Diana parasse a moto.

-- O que você está sentindo Nat?

-- Minha cabeça está fora do meu corpo, girando que nem peão...

Diana não segurou o riso.

-- Quanto você bebeu?

-- Quer que eu responda em ml ou em caretas?

-- Pela careta que você está fazendo agora, imagino que foi o suficiente pra você desejar matar o russo maldito que inventou a vodca não é?

-- Ahan...

Natalia mal terminou de falar e já estava vomitando na calçada, foi amparada por Diana.

-- Desculpa Di...

-- Ei! Você acha que eu nunca fiz isso? Relaxa... Vou cuidar de você. Estamos mais perto de sua casa, acha que consegue subir na moto?

Natalia acenou em acordo, segurou firme na cintura de Diana, repousando a cabeça nas costas na loirinha que pilotava devagar. Com cuidado, conduziu Natalia até seu apartamento, lavou seu rosto, lhe serviu água, montou a cama no espaço apertado da sala, e acomodou a caloura sob efeito do primeiro pileque.

-- Estou me sentindo uma idiota... – Natalia disse com dificuldade.

-- Por que afundou o pé na jaca? – Diana brincou deslizando sua mão pelos cabelos de Natalia.

-- Não... Por que estou louca pra te beijar, mas acho que não acerto sua boca se me levantar daqui...

Diana gargalhou.

-- Você não precisa se levantar pra me beijar sua boba...

Diana se aproximou de Natalia beijando seus lábios delicadamente. Trocaram um sorriso, em seguida Natalia falou, contornando os lábios de Diana com seus dedos:

-- Seus lábios são doces, não pararia de te beijar nunca mais...

-- Então por que parou?

Diana avançou na boca de Natalia, que se entregou ao beijo sem reservas. Sem cessar o beijo, Diana deixou seu corpo cair sobre o corpo de Natalia, com suas mãos acariciava as pernas da moça, excitando-se vendo a pele dela eriçar. Os movimentos de Diana despertava em Natalia o que ela sequer sabia que existia. Quando a loirinha posicionou um de suas mãos por baixo da sua saia, Natalia sentiu seu corpo tremer, seu sexo ficar úmido, deixou escapar gemidos, ao mesmo tempo em que ansiava mais dos beijos e das carícias de Diana, Natalia se sentia insegura e despreparada para tais sensações, desconhecia sexo, a ideia de que sua primeira experiência seria com uma mulher, naquelas circunstâncias, lhe apavorou e por um momento, hesitou em se entregar totalmente ao desejo.

-- Diana...

-- O que foi? Eu te machuquei? – Diana perguntou preocupada.

-- Rápido demais... – Natalia respondeu ofegante.

-- Desculpe-me. – Diana pediu com sinceridade.

-- Isso é muito novo pra mim Diana...

Com carinho, Diana fez um afago no rosto de Natalia, e conseguiu ler nos olhos da moça seus receios, enxergou pureza, e tomada de um sentimento tenro confortou Natalia envolvendo-a em um abraço afetuoso.

-- Diana, você deve me julgar agora a caipira virgem bobinha...

-- Nat... Parei de te julgar quando comecei a te admirar... Só não tinha entendido isso ainda...

-- Você é uma caixinha de surpresas... Não quero que você pense que eu não quero... Por que quero e muito!

Diana sorriu, beijou Natalia delicadamente e respondeu:

-- Claro que me quer até eu me quero!

Brincou para encerrar o tema que constrangia Natália. Não era sua intenção banalizar a primeira experiência sexual de Natália, mesmo correndo o risco de expor o traço romântico de sua personalidade, ansiava para que Natalia confiasse na sinceridade do seu sentimento e a visse como a pessoa mais digna de fazer daquele momento o mais especial de sua vida.

Diana nem notou quando Natalia adormeceu nos seus braços, a loirinha demorou a dormir velando o sono dela. Inexplicavelmente, a simples presença de Natalia lhe dava a paz e ao mesmo tempo lhe tirava também. Naquela noite, indo contra todo seu histórico, Diana sentiu um prazer inenarrável de estar na mesma cama com uma mulher que tanto desejava sem conotação sexual, experimentou a satisfação de estar ao lado de quem queria sem implicações subentendidas, de tocar alguém sem necessariamente ser um ato libidinoso, abraçando o corpo de Natalia também se entregou ao sono com um sorriso nos lábios.

************

Natalia acordou com o barulho do liquidificador na cozinha, sem saber ao certo ao menos onde estava, e sentindo sua cabeça ser esmagada, esforçou-se para abrir os olhos como se enfrentasse a resistência da gravidade sobre suas pálpebras.

-- Bom dia, dorminhoca! – Diana disse despejando o conteúdo do liquidificador em um copo.

-- De onde surgiu esse seu bom humor matinal?

-- Nunca dormi às oito da noite em toda minha vida... Acho que deve ser por isso que caipiras despertam cedo sempre com disposição, dorme-se ao escurecer na roça não é?

-- Eu devia mesmo estar muito bêbada...

Natalia disse esfregando os olhos se sentando na cama.

-- Por que você está dizendo isso caipira?

-- Alucinei acreditando que você me chamava pelo nome.

Diana sorriu, sentou-se ao lado de Natalia e para surpresa desta, beijou seus lábios demoradamente.

-- Bom dia Natalia.

Sem saber se foi o beijo, ou o sorriso de Diana, ou ainda, a certeza que não foi devaneio do seu porre a loirinha chamá-la pelo seu nome, mas a dor de cabeça que sentira pela ressaca deu lugar a um sorriso largo com direito a um brilho no olhar que iluminou Diana.

-- Preparei isso aqui pra você.

Diana entregou o copo com conteúdo estranho.

-- Não sabia que você tinha habilidades na cozinha... Que entendia alguma coisa.

-- Habilidades? Se você chama de habilidade jogar tudo no liquidificador e ligar o aparelho... Não entendo nada de cozinha, mal consigo acertar o caminho da minha! Mas, de ressaca eu entendo!

-- Que diabos tem nessa gosma?

-- Segredo... Mas, te garanto que vai te fazer sentir melhor, junto com esse comprimidinho aqui.

-- Ah, você anda com o kit ressaca debaixo do banco de sua moto, acertei?

-- Mal agradecida você heim... Encontrei tudo na geladeira, o remédio, desci pra comprar.

Natália tentava esconder sua perplexidade com os gestos de Diana, mas não conseguiu.

-- Não adianta tentar me seduzir com esse olhar faceiro... Vai ter que tomar isso todinho.

Mesmo que não quisesse tomar, Natalia não ousaria desagradar Diana, encheu-se de coragem, e deu um grande gole daquele liquido de conteúdo desconhecido.

-- Até que não é tão ruim. – Natalia comentou fazendo careta.

Diana sorriu.

-- Pois trate de tomar o resto.

-- Vou ganhar recompensa?

Diana apertou os olhos e ficou pensativa.

-- Posso providenciar uma...

Nem terminou de concluir a sentença e Natália já tinha esvaziado o copo.

-- E agora, o que ganho?

Como criança ansiosa pelo presente Natalia encarou Diana.

-- Que tal um banho?

-- Você vai me dar o banho?

-- Que assanhada! – Diana brincou.

Natalia ruborizou.

-- Você vai tomar banho sozinha, tirar essa cara de ressaca. Depois você ganha a recompensa.

Agindo ainda como criança que cumpre as condições para ganhar um doce, Natalia correu para o banheiro, arrancando a gargalhada de Diana. Voltou meia hora depois, os cabelos ainda molhados, shortinho curto de malha, camiseta de alça, exalando o cheiro de lírios.

Por segundos Diana ficou sem ar, disfarçou com um sorriso cheio de malícia, foi inevitável evidenciar o desejo.

-- E agora? Minha recompensa?

Diana segurou Natalia pela cintura que envolveu seus braços no pescoço da loirinha, e se entregaram a um beijo sôfrego. Sem se desvencilharem uma da outra, Diana empurrou Natalia contra o balcão da cozinha, suspendeu a moça que intensificou o beijo, entrelaçando seus dedos nos cabelos de Diana, puxando-a para mais perto ainda, movida pelo tesão, retirou a blusa da loirinha que retribuiu o gesto. Diana contemplou os seios de Natalia, deslizou o dorso de sua mão por eles e pelo colo da moça que sentia seu sexo ficar úmido, seus mamilos eriçarem e uma onda de calor tomar conta de toda sua pele.

As mãos de Diana percorreram as pernas de Natalia, enquanto sugava seus seios. Sentindo que seu corpo reagia sozinho, Natalia não conseguia frear nenhum movimento. Prosseguiu com as carícias, Diana ousou aproximar suas mãos para desabotoar o short de Natalia quando se impôs um limite, não era assim que ela agiria na primeira vez da garota.

Antes que Natalia interrogasse a outra sobre sua hesitação, a campainha as interrompeu. Completamente atordoada, ruborizada e ofegante, Natalia espiou pelo olho mágico, não soube afirmar de quem se tratava com certeza, se Pedro ou Lucas.


CAPÍTULO 18 Pacta sunt servanda
*Os pactos devem ser respeitados. Refere-se aos contratos privados, enfatizando que as cláusulas e pactos ali contidos são um direito entre as partes.
Por Têmis


Natalia fez careta, demonstrando que não era uma visita benvinda. Curiosa Diana conferiu no olho mágico de quem se tratava, balbuciou:

-- Lucas.

Ficaram no impasse sobre abrir ou não a porta, cochichando, quando Lucas falou do outro lado da porta:

-- Natalia? Sou eu, Lucas, você está aí?

Natalia hesitou em responder, não queria interromper o momento com Diana, mas a loirinha lhe beliscou, franzindo a testa obrigou a responder:

-- Só um momento Lucas.

Abriu metade da porta apenas, se colocando no pequeno espaço, Diana permaneceu atrás da porta escondida.

-- Oi Lucas.

-- Oi gatinha! Como prometido, vim ajudar na faxina!

-- Ah, a faxina...

Diana arqueou uma das sobrancelhas mostrando a sua desaprovação com o plano do rapaz.

-- Então, você foi comigo à festa do Ricardo, estou cumprindo minha palavra de te ajudar na faxina hoje!

-- Eu... Esqueci completamente.

-- Você sumiu da festa ontem, fiquei te procurando por quase uma hora dando voltas nas redondezas, onde você se meteu?

-- Ah, eu peguei um táxi, não estava me sentindo bem.

-- Não vai me convidar para entrar?

Natalia completamente nervosa gaguejava enquanto criava alguma desculpa para se livrar de Lucas educadamente.

-- Lucas... Eu não estou me sentindo bem, desculpe-me... Acho que bebi demais ontem...

-- Você quer ir ao hospital? Levo você lá.

-- Não é necessário, obrigada de qualquer forma.

-- Você não quer que eu te faça companhia?

-- Você é um fofo sabia? Mas, a casa está uma bagunça, morreria de vergonha se você entrasse aqui.

-- Ah fala sério gatinha! Moro numa zona com mais seis marmanjos, você acha que me assusto com uma baguncinha?

Lucas fez menção de afastar Natalia da porta para entrar, mas a moça tratou de impedir:

-- Lucas! Não... Eu não estou sozinha!

-- Como? Não entendi...

Diana arregalou os olhos, desesperada gesticulava negativamente com o dedo para que não denunciasse sua presença ali.

-- Lucas, meu namorado, na verdade ex-namorado, chegou de surpresa ontem, e enfim, nos entendemos e acho que ele não entenderia sua presença aqui, ele é muito ciumento.

-- Ah, não podia imaginar, desculpe-me. – O rapaz disse decepcionado.

-- Eu é que te devo desculpas, estou tão envergonhada por ter te preocupado ontem e hoje te fazer vir aqui...

-- Ah Natalia relaxa! O importante é que você está bem. Ele está aí, então vou indo pra não causar problema, mal entendidos...

-- Ele está no banho agora...

-- Então, boa sorte na reconciliação de vocês, até mais Natalia.

Natalia fechou a porta com uma expressão de culpa, olhou para Diana que de braços cruzados lhe encarava:

-- Estou impressionada e assustada com você! – Exclamou a loirinha.

-- Han? Por quê?

-- Você será uma excelente advogada, nunca vi alguém mentir assim com tanta facilidade!

-- Está me chamando de mentirosa?

-- O que vi agora foi o que?

-- Apenas manipulei a verdade, isso se chama presença de espírito.

Diana meneou a cabeça em seguida aplaudiu.

-- Bravo doutora! Vejo que terá um futuro brilhante no direito, por que você mente e ainda acredita na mentira a ponto de igualá-la com a verdade, felizes serão seus clientes!

Natalia estreitou os olhos, tentando decifrar se recebera de Diana uma crítica ou um elogio.

-- Agora vamos a outro ponto importante senhorita Natalia: como assim o Lucas acordou depois de uma festa antes do meio dia, atravessou a cidade pra vir te ajudar numa faxina?

-- Você vem perguntar isso a mim? É a ele que você tem que perguntar!

Natalia parecia atordoada com as observações de Diana.

-- Que fique bem clara uma coisinha ow caipira...

Diana falou com as mãos na cintura, sentindo a irritação de Natalia ao ouvir o apelido mais uma vez.

-- Sou uma pessoa muito generosa com meus amigos, especialmente Lucas e Pedro que são como irmãos para mim, eu faço tudo por eles, mas...

Diana se aproximou de Natalia com expressão enigmática.

-- Não vou dividir você com eles! Trate de acabar com as ilusões deles a seu respeito, ta me entendendo?

Natalia se desarmou, abriu um sorriso largo, e envolveu seus braços no pescoço de Diana e respondeu:

-- E quanto a você? Posso continuar te iludindo?

-- Você acha mesmo que pode me iludir? Acha que não percebo seus olhares, não capto seu desejo?

-- Está aprendendo a me ler é? Essa é minha habilidade! -Natalia brincou.

-- Você é transparente demais Nat, é muito fácil te ler, talvez por isso, seja tão fácil se encantar por você.

Encararam-se por segundos sorrindo, antes de colarem seus lábios, encaixar suas línguas na boca uma da outra, absorvendo o sabor daquele beijo na intensidade que a excitação percorria suas peles, Natalia empurrou Diana para o sofá lançando seu olhar de pura malícia.

Por mais que Diana desejasse seguir os impulsos do seu desejo, imaginava Natalia como uma menina do interior romântica, apesar de sua determinação que lhe dava a aparência de praticidade, tinha certeza de que a primeira vez da moça, não fora sonhada daquela forma, reuniu suas forças e como um balde de água fria, disparou:

-- Nat, precisamos conversar.

-- Teremos tempo para isso Di... – Natalia falou, sentando no colo de Diana. - Agora, não é hora de conversar. – Roçou seus lábios no pescoço de Diana, arrepiando lhe.

-- Mas... Natalia é importante... – Diana falou ofegante.

-- Mais importante do que me beijar? – Natalia sussurrou.

-- Nada é mais importante do que te beijar, mas teremos muito tempo pra isso também.

Diana segurou o rosto de Natalia com delicadeza, intimando-a para uma conversa séria.

-- Tudo bem, fala logo então.

Natalia falou emburrada.

-- Nat, pelo menos por enquanto, temos que manter nossa relação em segredo, pela atitude do Lucas hoje vi que não é só o Pedro que está louco por você, ele também está.

-- Mas, eu não tenho culpa!

-- Nat, eu não estou te acusando de nada, só estou querendo te dizer, que eu não posso de repente aparecer e dizer que estamos juntas, até ontem, eu estava fazendo campanha contra você, dizendo que você era uma sonsa.

-- Você disse isso?

-- Olha isso foi o insulto mais ameno que dirigi a você. – Diana apertou os olhos, envergonhada.

-- Acho que não quero saber os outros então... Mas, eu mereci pelo que disse à Ruth.

-- Eu sei que você só falou aquilo por que ficou acuada, assustada, apesar de ter doído muito ouvir, no fundo eu sabia que era da boca pra fora.

Natalia acenou em acordo, baixando os olhos.

-- Mas, isso passou. Minha preocupação agora é esconder nossa ligação dos meninos, essa paixonite deles por você pode cegá-los, e não quero, não posso perder amizade deles.

-- Você acha que é pra tanto?

-- Nat, o Pedro me pediu pra ajudá-lo a te conquistar, pediu que me aproximasse de você para limpar a barra dele contigo, ele nunca me pediu isso com garota nenhuma, chegou a me dizer que você é a primeira garota que ele está gostando depois de mim.

-- Eu não imaginava isso...

-- Ele vai entender como uma traição, e o Lucas vai achar que fiz isso só para competir com ele, vai acabar com nossa amizade.

Natalia suspirou desanimada. Ainda não tinha calculado o peso que seria na sua vida assumir uma relação amorosa com Diana, sequer sabia que tipo de relação tinham em nenhum momento a loirinha citou a palavra namoro, ignorava como essas relações aconteciam entre mulheres. Esconder o quer que fosse que existia entre elas, no fundo era o que a moça do interior desejava o rótulo de lésbica, ainda era algo surreal para ela.

-- Então a gente continua se odiando pro mundo? – Natalia perguntou.

-- Acho que por enquanto, é o que podemos fazer... – Diana fez uma expressão de insatisfação.

-- Pode ser divertido... Namorar escondido... Fazer teatrinho...

Natalia tentou animar Diana.

-- Mas, não é por causa disso, que a senhorita está liberada pra ficar dando mole pra ninguém não, especialmente pro Lucas e pro Pedro!

Natalia sorriu satisfeita com o ciúme da outra.

-- Acho que minha presença de espírito agora pouco, já me deu uma desculpa perfeita pra escapar das investidas deles.

-- Tem razão...

-- Agora que tivemos a conversa séria que você queria, que tal continuarmos o que paramos?

Natalia voltou a beijar o pescoço de Diana, mordiscando sua orelha, quando o celular da loirinha tocou.

-- Não atende, por favor.

-- Preciso atender, desculpa.

Enfrentando o bico de raiva de Natalia, Diana atendeu o celular.

-- Sim, sou eu. Claro que não esqueci, chego em dez minutos aí!

Diana estapeou a testa assinalando que mentira, havia se esquecido do seu compromisso de domingo.

-- Nat desculpe-me, mas, preciso ir. Fui contratada pra fotografar um Bar Mitzvá, e estou atrasada!

-- Ainda nos vemos hoje?

-- Não sei minha linda...

Deu um beijo rápido nos lábios de Natalia e partiu para seu trabalho.



O dia pareceu não ter fim para Natalia que guardava as esperanças de rever Diana à noite, esta mesmo a contragosto, não pode se livrar cedo de suas obrigações, se tornando inviável retornar à casa de Natalia.

*****

Sem conseguir esconder sua tristeza por passar o dia inteiro sem notícias de Diana, Natalia saía da universidade, atravessando o corredor central na saída da biblioteca, foi puxada ao passar de frente á porta da sala do diretório acadêmico.

Tomada pelo susto, mal teve tempo de se refazer, quando sentiu uma mão tapar sua boca evitando seu grito, fora pressionada contra a porta, quando encarou quem lhe sequestrara seu coração foi tomado de uma satisfação inesperada.

-- Oi minha linda, saudades.

Diana disse lhe sorrindo, liberou a boca de Natalia presa por sua mão, para em seguida beijá-la vorazmente.

-- Você é louca? Se alguém entrar aqui?

-- Não vamos demorar o Ché Guevara genérico, presidente do DCE que estava aqui volta logo, só queria te entregar isso aqui.

Diana entregou um embrulho a Natalia.

-- O que é isso?

-- Não dá tempo você abrir aqui... Guarda depois você me diz se gostou. Preciso ir, tenho um trabalho de equipe chato para fazer.

-- Mas...

-- Confie em mim, nos falamos amanhã.

Diana roubou outro beijo de Natalia.

-- Vai você primeiro... – Diana disse.

Foi a vez de Natalia roubar um beijo da loirinha.

-- Eu também estava morrendo de saudades.

Trocaram um sorriso de encantamento antes de se despedirem. Natalia saiu ansiosa para abrir o pacote entregue por Diana, sentou-se em um dos bancos na recepção da universidade e se surpreendeu com o conteúdo que estava embrulhado: um celular com um cartão escrito “leia as instruções”. Natalia não conseguiu esconder o sorriso, pouco se importando com o aparelho, tratou de ler as tais instruções escritas:

-- “Você acaba de receber um exemplar de uma moderna invenção chamada telefone celular. Não se assuste se ao colocá-lo perto de seu ouvido, você escutar vozes, elas não são do além, se trata apenas de um meio de comunicação na cidade grande. Antes de me xingar mentalmente, por eu te chamar mais uma vez de caipira, preciso que você leia atentamente as instruções: Primeiro, ligue o aparelho, na memória dele, existe apenas o número do meu celular. Segundo, ligue para o único número da memória do seu aparelho, para escutar uma mensagem especial para você. Terceiro, quando ligar, não cite meu nome. Quarto tire esse sorriso bobo da cara, se não vão pensar que você está apaixonada”.

Sorriu sozinha, segurando o aparelho, realizando a cena de Diana lhe dizendo isso pessoalmente, ansiosa, ligou o aparelho, fazendo o primeiro telefonema como fora instruída.

-- Gostou do presente? – Diana atendeu do outro lado da linha.

-- Você é louca! Esse aparelho deve ter custado caro! Nem é meu aniversário ainda, não mereço esse presente!

-- Regra de boa educação, apenas agradeça o presente, sem fazer menção do valor material dele.

-- Claro que eu adorei o presente, nem tenho palavras para agradecer! Muito obrigada, eu precisava mesmo de um, mas estava esperando pedi-lo aos meus pais no meu aniversário...

-- Não precisa tanto... O presente foi meio egoísta, no fundo foi para meu benefício.

-- Como assim?

-- Não quero mais passar o que passei ontem... E hoje o dia todo.

-- O que aconteceu?

-- Perder o sono, perder a paz, por estar longe de você e não poder ao menos escutar sua voz.

Segundos de silêncio no telefone, até Natalia se refazer da declaração que escutara. Parecia flutuar ouvindo isso de Diana, demorou até concatenar uma sentença lógica.

-- Você ainda está aí? – Diana perguntou.

-- Sim estou.

-- Se você precisar dar esse número para seus pais está anotado na caixa.

-- Ahan...

-- Preciso desligar agora, o pessoal está me esperando pra fazer o trabalho...

-- Di... Desculpa, espera.

-- Oi, pode falar.

-- Eu também não consegui dormir ontem, esperando você, estava sufocada de saudades, te procurando hoje aqui...

-- Pelo menos nosso sono está garantido hoje não é? – Diana brincou.

-- E o que faço com a saudade? – Natalia mordeu os lábios disfarçando a timidez.

-- Vamos ter que dar um jeito nela... E na minha também, é questão prioritária. – Diana respondeu com um sorriso nos lábios.

-- Ligo mais tarde então... Bom trabalho e...

-- O quê?

-- Tire esse sorriso bobo dos lábios, podem pensar que você está apaixonada.

Ambas não conseguiam esconder aquele sentimento que crescia: doce, tenro, leve e ao mesmo tempo, a atração intensa, avassaladora, descomunal que invadia os sentidos, tornando o encontro das duas uma necessidade vital.

O presente dado por Diana, naquela noite teve sua utilidade comprovada. Passaram horas ao telefone compartilhando os acontecimentos do dia, evidenciando uma intimidade que por ser precoce parecia irreal, mas não era. O que antes parecia aversão demonstrada por elas, era afinidade que se confirmava nos risos, na unidade de pensamento, no reconhecimento de qualidades uma da outra.

-- Está tarde Nat, precisamos dormir.

-- É verdade... Pelo menos hoje vou dormir com a lembrança de sua voz no meu pensamento.

-- Eu também, e a vontade de que amanheça logo, pra eu te encontrar.

-- Isso me faz lembrar que amanhã teremos novo round: Diana versus Madimbú.

Diana gargalhou.

-- Ao menos dessa vez, não estarei sozinha.

-- Se depender de mim, você não estará nunca mais sozinha Di.

Foi a vez de Diana ser surpreendida com a declaração da outra, ficando sem palavras.

-- É muito bom saber disso Natalia.

-- Então, boa noite, até amanhã Di.

Pensamentos e sentimentos unidos em corpos separados naquela noite anunciavam o nascimento de uma paixão improvável, se foi destino o responsável por isso, elas não sabiam, mas algo se configurava como previsível: aquele encontro, aquela paixão, mudaria a vida de Diana e Natalia para sempre.