quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Aconteceu você

Capítulo 2: Meu mundo caiu

Eu mal tinha forças para me levantar daquela poltrona, de repente me senti uma anã que mal alcançava o chão, afundada naquela cadeira, de tão pequena que me sentia pela dupla humilhação. Lentamente fui tateando minhas coisas, a ponto de pedir que a própria Cuca me beliscasse e me fizesse acordar daquele pesadelo. Saí do escritório da minha ex-editora chefe atônita, meio tonta, ainda assim percebi que cada passo meu era vigiado pelos meus antigos colegas por certo penalizados com minha situação. No fundo do corredor, Marcinha estampando na face um óbvio: “Tadinha...”.

-- Amiga, e aí? Você assistiu? Precisa de ajuda?

-- Eu... Eu... Onde é o departamento de pessoal?

--Ela te deu férias? Enfim alguma bondade nessa bruxa!

--Não... Ela me demitiu.

-- Meu Deus!

-- Eu... Preciso ir Marcinha.

Eu nem ao menos sabia que caminho seguir pelo prédio, que dirá pra minha vida dali por diante. Entrei no elevador deixando cair pastas, e ignorando-as no chão. Caminhando pela calçada mais parecia um zumbi, ironicamente, eu só conseguia ver as pessoas folheando as revistas de fofoca com minha humilhação estampada.

Minha volta pra casa pareceu nem acontecer, dirigi de uma forma automática, pra minha sorte não ultrapassei nenhum sinal vermelho, e suponho que algumas buzinas insistentes e desaforadas eram para chamar minha atenção, mas eu sequer me incomodei. Subi para meu apartamento pelas escadas, para continuar meu dia de cão, o elevador do meu prédio acabara de emperrar. Fingi não perceber os cochichos do porteiro e de algumas vizinhas fofoqueiras que conheciam meu noivo, a essa altura meu ex-noivo.

A repercussão do meu “chifre” teve proporções de Big Brother. Os meus telefones não pararam de tocar um instante, recebi telefonemas de amigos, de revistas de fofocas, e pra meu constrangimento total, de minha família.

Meus pais depois de aposentados resolveram assumir a condição de turistas profissionais, e mesmo numa excussão de pescadores ao Pantanal, souberam da minha tragédia sentimental, minha mãe famosa por falar pelos cotovelos ao telefone só chorava penalizada com minha situação, e meu pai berrava do outro lado xingando o meu ex-noivo Fernando.

Não me faltava nada pior acontecer, ao menos era isso que eu pensava. Afundada entre os travesseiros e o edredom, gastei uma caixa de lenços chorando minha decepção. Exausta acabei dormindo, acordei no susto com a campainha sendo tocada insistentemente. Aos tropeços levantei, e eis que abro a porta pras luluzinhas... O trio das meninas super-poderosas, as minhas melhores amigas desesperadas por notícias minhas:

-- Alex! Menina pensei que você estivesse morta! Imaginei o pior! Que você tinha se afogado no chuveiro, eletrocutada pelo secador, se intoxicado com coca-cola... -- Disse Marcinha enxugando o suor do rosto.

-- Ai falou a exagerada! Amiga como você está? -- Perguntou Renatinha preocupada, me abraçando.

-- Como vocês acham que estou? -- Perguntei já me deitando no sofá.

-- Ai tadinha da minha amiga...

Eveline já se aproximou do sofá me dando colo, as três ficaram levantando possibilidades, variaram do xingamento ao Fernando, até o escracho com a Izabel. Acomodaram-se pelo meu apartamento e naquela noite dormiram comigo. Naquela noite eu precisava mais do que nunca da loucura adorável das minhas amigas para acreditar que o dia enfim precedia outro melhor.

Os dias seguintes ainda me reservaram outra desagradável surpresa. A dona do apartamento que eu morava me ligou comunicando que não renovaria meu contrato de locação, uma vez que precisava do apartamento para seu filho que estava se mudando para a cidade com a mulher. ”timo: traída, sem noivo, sem emprego e sem teto.

Era hora de sair do casulo que se transformou meu apartamento e correr atrás do prejuízo, procurar emprego e agora outro lugar para morar. E quem achava que a notícia de hoje embala o peixe do mercado amanhã quebrou a cara... Descobri que minha humilhação pública ainda era manchete, e minhas entrevistas de emprego se tornaram entrevistas de fofocas, suspeitei também que minha credibilidade como jornalista fora abalada pela demissão do jornal o Dia.

Um mês se passou, e nada na minha vida mudou, exceto a minha despensa, que agora estava vazia, meu estoque de chocolates estava agora depositado na minha cintura, e as caixas de valium, pondera, e todos mais de tarja preta que eu guardava no meu armário não bastavam para devolver meu bem estar.

Até que, recebi um telefonema inesperado:

-- Alexandra?

-- Sim.

-- Não está reconhecendo minha voz?

-- Desculpe-me, mas não, e vou adiantando, se for algum colega de faculdade querendo entrevista, não tenho nada a declarar.

-- Ei sardenta! Calma aí!

O apelido de infância me chamou a atenção.

-- Quem está falando?

-- Pensei que eu fosse mais marcante... Não lembra mesmo Alex?

-- Ai... Não...

-- Sardenta, sardentinha, onde mais você tem essas pintinhas?

O refrãozinho infame me reportou à minha infância no interior, não podia ser outra pessoa que não o meu amigo Daniel.

-- Dandan?

-- Ai finalmente! Eu mesmo Alex! Como vai minha amiga?

-- Se eu te contasse você não acreditaria Dan...

-- Não precisa me contar, sua mãe me falou tudo...

-- Por que não herdei esse talento jornalístico de minha mãe? Ela te achou e ainda atualizou você sobre minha desgraça?

-- Não seja tão maldosa com sua mãe sardenta! Ela está preocupada com você, normal, e nos encontramos num cruzeiro pelo nordeste, só por isso eu estou sabendo do que aconteceu.

-- Ah entendi... Mas então Dandan, por isso você me ligou?

-- Na verdade amiga, estou ligando pra te fazer uma proposta.

-- Que proposta?

-- De trabalho... Não sei se você sabe, mas atualmente sou o secretário de cultura da cidade, e estou com um projeto de abrir um jornal local, e gostaria que você fosse minha editora chefe. O que acha?

A proposta era estranha, mas não poderia ter chegado à melhor hora. Mas mudar-me para o interior nem de longe estava nos meus planos. O interior fora cenário de minha infância, onde meus avós tinham um belo sítio. Daniel era um dos maiores motivos das boas lembranças de lá. Um amigo divertido e leal, não mantivemos contato nos últimos cinco anos, desde o final da minha faculdade, quando visitei o interior para o enterro de minha avó. Entretanto, nada me prendia aquela cidade, e a oportunidade de fugir do escândalo e começar uma vida nova. Meio que de supetão respondi:

-- Acho ótimo! Quando começo?

-- Assim que se fala sardenta!

Leis do destino

CAPÍTULO 2: A REPÚBLICA (LEX LOCI CELEBRATINIS)

* lei do lugar da celebração – Quando da celebração de algum ato, as suas formalidades são regidas pelas leis vigentes no lugar da celebração.


Por Têmis

Diana era a popularidade em pessoa. Não só pela função que desempenhava nas festas do curso como organizadora e DJ, mas pela simpatia e liderança que exibia. Era veterana do curso de direito, mas nem um pouco compromissada com os estudos. Pagava disciplinas em praticamente todos os períodos do curso, não fosse isso, se formaria em um ano como seus maiores amigos.

Entre seus amigos, estavam os gêmeos, Pedro e Lucas, moravam na república Álibi, no início da faculdade, viveram uma espécie de triângulo amoroso com Diana, mas atualmente, eram apenas os melhores amigos. Pedro e Lucas como a maioria dos gêmeos univitelinos, eram opostos. Pedro era mais centrado, considerado um dos melhores alunos da universidade, era bolsista de pesquisa, monitor de disciplinas, estava sempre envolvido com atividades de extensão, exatamente por isso, vivia ás voltas com Diana cobrando mais aplicação nos estudos da amiga, esforço inútil, Diana queria protelar o quanto pudesse o término do curso, na esperança de ganhar tempo para que ela conseguisse se sustentar fazendo aquilo que gostava: fotografia. Lucas não era um aluno relapso, até por conta da influência do irmão, que era também seu melhor amigo, mas, tinha outras prioridades na vida, entre elas, curtir sua fase de farras tão próprias da faculdade, assim, se tornara um das principais companhias de Diana.

Na república, junto com Pedro e Lucas, moravam mais seis rapazes, todos do curso de direito. As festas de lá eram tradicionais no campus, eram as mais concorridas, as mais animadas e logicamente as mais loucas. Existia até uma série de relatos que se transformaram em lendas no campus de fatos ocorridos na república. Falava-se em orgias, em uso de drogas, em rituais, mas, a maioria desses relatos, não passavam de boatos, de mitos que os moradores da república alimentavam, mantendo a fama da república.

Os trotes semestrais eram atração à parte na Álibi. Esse semestre não seria diferente. Diana comandou o som da festa com sua animação típica e estilo peculiar, mas, seu trabalho na festa não a impedia de prestar atenção nas caras novas, no comportamento dos bichos e veteranos, e obviamente de lançar seu charme para quem a observava.

Natália era uma das que observava a DJ com atenção, mesmo sem saber o direito o porquê. Talvez por que o jeito estiloso da moça era a representação das pessoas que Natália esperava conviver, pessoas “da capital”, bem diferentes do estereótipo provinciano o qual ela estava acostumada toda sua vida ou talvez por que, a energia de Diana exercia uma atração diferente em Natália, sensação que a moça do interior não sabia explicar.

-- Ela é uma figura não é?

Pedro se aproximou de Natália olhando na mesma direção da moça.

-- A DJ? – Natália perguntou.

-- É Diana o nome dela.

-- Ela é muito boa.

Pedro sorriu acenando em acordo, mesmo entendendo o adjetivo com uma conotação diferente da que Natália usou.

-- Está bebendo o quê? – O rapaz perguntou.

-- Já bebi tanta coisa diferente que não sei te responder essa pergunta.

-- Sendo assim, quer uma cerveja?

-- Aceito.

Pedro voltou com uma latinha na mão e serviu a moça.

-- Pedro, morador desse hospício.

-- Natália, caloura querendo enlouquecer.

Nesse momento, a conversa casual, tomou ares de paquera. Pedro apesar da aparência do “politicamente correto” tinha seu charme. Sua beleza não passaria despercebida por nenhuma mulher, especialmente por Natália, mais desinibida pelo álcool. A pele morena daquele rapaz alto de olhos castanhos de barba rala agradou a caloura. Os dois emendaram o clima de flerte, em meio ao barulho dos estudantes protagonizando coreografias sensuais ou bizarras sobre a mesa da sala e aos muitos gritos de incentivo dos que assistiam.

Pedro não saiu do lado de Natália, de certa forma, a desinibição da moça ajudaria a contrabalancear sua timidez, assim, continuou a lhe oferecer bebidas, as quais a caloura não recusou. A proximidade dos dois chamou a atenção de Lucas, que não hesitou em fazer a brincadeira tão recorrente entre eles. Aproximou-se de Natália quando Pedro se afastou, fingindo já conhecê-la, se passando assim pelo irmão gêmeo.

-- Vamos dançar?

Obviamente Natália não notaria a diferença das roupas dos irmãos, aceitou o convite acreditando estar dançando com Pedro, sua companhia na noite. Lucas, bem mais ousado que o irmão colou seu corpo na cintura da moça, ensaiando passos sensuais, dominando a moça até roubar-lhe um beijo na pista. Natália não resistiu, o beijo arrancou aplausos, e o casal atraiu não só a atenção de Pedro que voltava inocente da cozinha, como também de Diana.

Pedro andou a passos rápidos até a pista de dança, afastando abruptamente o irmão de Natália:

-- Pow Lucas! De novo essa brincadeira sem graça?! Deixa de ser mané!

-- Calma Pepê!

Natália olhava atônita para os dois.

-- Gente, eu acho que bebi demais, estou vendo tudo em dobro...

Os dois irmãos continuavam se estranhando. Pedro ficou do lado de Natália tentando se desculpar pelo irmão:

-- Natália não liga, esse é meu irmão gêmeo, não é capaz de conquistar uma mulher e fica se aproveitando de nossa aparência idêntica...

-- Ah cala a boca Pedro! Até parece que preciso me passar por você pra conseguir mulher!

A animosidade entre os irmãos se acentuou até Diana largar a pick-up para intervir no desentendimento dos amigos.

-- Ei que porra é essa aqui? Vão brigar por mulher agora? Ficaram malucos?

Diana lançou dois petelecos na cabeça de ambos.

-- Ah Di, para vai! – Pediu Lucas.

-- Não quero um piu de nenhum dos dois agora! Dispersando now! Depois teremos um conselho de família, e as duas figurinhas repetidas vão fazer as pazes nem que seja na marra!

Lucas deu de ombros, deu um beijo no rosto de Diana e se afastou. A loira encarou Natália com faíscas de raiva no olhar, em seguida fez um sinal para Pedro com a cabeça e o rapaz se aproximou dela:

-- Desde quando uma caipira é motivo pra você brigar com seu irmão? Presta atenção seu Mané, olha nosso pacto! Família poxa!

Pedro balançou a cabeça positivamente, enquanto Diana voltava para a sua pick-up, dissipando aparentemente a situação estranha que se instalara. Entretanto, o incidente foi o suficiente para transformar Natália em principal alvo dos olhares e atenção de Diana o resto da noite. A DJ não admitia que nada abalasse a relação dos seus dois melhores amigos, esse foi um dos motivos do triângulo amoroso ter se desfeito, o fato de Natália ter sido o pivô da discussão de Lucas e Pedro, tornou a moça objeto de sua antipatia, e uma coisa era certa: coitada de quem Diana antipatizasse.

Diana observou Pedro e Natália perseverarem na paquera, na troca de carícias, e finalmente, seu amigo beijando a caloura ardentemente.

-- Pedro... Eu beijei seu irmão pensando que fosse você...

Natalia se justificou, colando a sua testa na testa de Pedro depois de afastarem as bocas.

-- Eu sei gatinha...

A raiva de Diana só aumentava à medida que Pedro e Natália pareciam mais íntimos. Cochichou alguma coisa com uma veterana e esta, “acidentalmente” esbarrou em Natália, banhando-a com vinho tinto.

-- Ai que desastre! Desculpa!

A moça se desculpou cinicamente.

-- Não tem problema...

Natalia minimizou o estrago.

-- Ai, mas, sujou tudo... Venha comigo, vamos tentar dar um jeito nisso.

A garota arrastou Natalia pela mão, subindo pelas escadas da república, e entraram em um dos quartos.

-- Tira o vestido, vou lavar essa mancha rapidinho e passo o ferro quente, vai dá pra você usar.

-- Não precisa... Está tudo bem...

-- Ai, eu não vou me perdoar se você perder esse vestido tão fofinho por causa dessa mancha!

Natalia cedeu, mais para não parecer antipática, do que pelo incomodo de ficar com a roupa suja. Enquanto a moça saiu com seu vestido para lavá-lo, Natalia ficou no quarto, trajando apenas um conjunto de calcinha e sutiã de algodão, com estampas infantilizadas.

De repente, um blecaute parou a festa. Escuridão. Natalia sozinha naquele quarto, só de roupas íntimas nada podia fazer que não fosse esperar, entretanto, a algazarra que se fez, em meio a passos apressados correndo pela casa e gritos:

-- É fogoooooooooooooo, salve-se quem puder!

A moça do interior se desesperou, e saiu correndo do quarto, quando descia às escadas a escuridão se desfez, e a claridade expôs Natália diante de todos, só de calcinha e sutiã, e o sonoro: - Hurruuull! – tomou de conta da república. O macharal em coro berrava elogios ao corpo da caloura completamente desorientada olhando para todos que riam, apontavam, ridicularizaram a menina.

Natalia subiu as escadas apressadamente fugindo do constrangimento, sendo seguida por Pedro. Os risos ecoavam em sua mente, e o olhar de escárnio de Diana tirou a paz e a alegria do momento da sua entrada na faculdade.


CAPÍTULO 3: A POSTERIORI

A posteriori: Depois. Método que conclui pelos efeitos e conseqüências. Que vem depois. Segundo os acontecimentos previstos. É a etapa do conhecimento que advém da experiência, verificado através de percepções sensoriais só alcançadas na prática.

Por Têmis



Como aparecer na faculdade depois do escândalo que protagonizou? Era o que Natália pensou quando o despertador tocou. Na noite anterior Natália fugiu do alarde causado sob a proteção de Pedro, que como cavalheiro que era, providenciou roupas para Natália vir para casa, e a acompanhou até o táxi.

Não conseguiu dormir relembrando os risos, os olhares, as gargalhadas, a imagem de uma pessoa em especial lhe incomodava: o rosto de Diana.

Pensou no seu sonho, lembrou-se do quanto se esforçara para estar ali, na confiança que os pais depositaram nela, e levantou-se da cama. Impôs a si mesma a obrigação de comer algo antes de enfrentar a maratona de duas conduções para chegar à faculdade. O táxi da noite anterior lhe custaria algumas semanas sem lanche.

Na faculdade, andou apressada, evitando olhar para os veteranos, não sabia ao certo quem estaria na república na festa do trote. Mas sua atitude não impediu os cochichos dos calouros quando a moça entrou na sala do primeiro semestre.

O pesadelo não podia ser pior. Maldita tecnologia e os serviços 24horas das grandes cidades. Algum desocupado fotografou a exibição forçada da caloura no trote em trajes íntimos e revelou o filme a tempo de fazer fotocópias e distribuí-las pelos corredores do curso de direito.

Natália olhou para a foto pasma, pálida, trêmula.

Seu primeiro impulso foi de levantar-se e correr, precisou reunir todas as forças para não fazê-lo, torcendo para que o professor logo chegasse encerrando os buchichos que ecoavam pela sala junto com os risos. Mas, Natália descobrira precocemente e no pior momento que na faculdade ninguém chega na hora, inclusive os professores.

Suportou o quanto pode, mas, a piada de um colega mais engraçadinho foi a gota dágua:

-- Aí coleguinha, a calcinha de ursinho foi feita à mão pela mamãe?


Natália ergueu-se repentinamente e saiu correndo da sala, e caminhou atordoada pelos corredores. Quando ouviu um grito:

-- Sai da frenteeeeeeee!

O aviso não chegou a tempo de Natalia se desviar da menina que berrava de cima do seu skate. Choque, desastre e as duas se espatifaram no chão. Enquanto se recompunha da queda ainda no chão, Natália indagou a skatista sem lhe olhar:

-- O que deu em você pra andar com isso em plena faculdade?

Natália só ouviu um sorriso sarcástico, ao fitar a skatista constatou de quem se tratava:

-- “Isso” é um meio de transporte não poluente, que além de implicar em atividade física, é também divertido! Se “isso” não existe no cafundó de onde você veio, “isso” se chama skate.

Diana se refestelava no chão usando seu tom mais esnobe olhando para Natalia.

-- Ah! Você não só é imprudente e mal educada andando com “isso” por aí, como também tem outro defeito que eu detesto: sarcasmo.

-- Escuta aqui sua caipira, você estragou a festa que passei semanas preparando, e acabou de acabar com minha manhã perfeita! Sabe de uma coisa: não gosto de você!

-- Nossa, você acabou de salvar meu dia! Você imagina que ontem, no meu primeiro contato com os alunos do curso o qual eu passei meu último ano ralando pra conseguir entrar, mudei minha vida, deixei minha casa, minha família, pra morar numa quitinete fedida menor que a dispensa da casa dos meus pais em nome desse sonho, e imagina só: na festa de comemoração com meus colegas, alguém resolve me fazer de palhaça, atração de circo ou seja lá o que, me expondo de calcinha e sutiã, e ainda fotografam isso e espalham pela faculdade, na minha primeira aula, eu dispensei minha ansiedade para fugir das piadas e risos, e sou atropelada por uma menininha petulante e irritante, mas veja só que maravilha de notícia ela me dá: ela não gosta de mim! Isso mudou minha vida! Salvou meu dia!

Diana bufou. Observou Natália se levantar furiosa. Conteve o riso e perguntou:

-- Posso perguntar uma coisa?

-- O quê?

Natália perguntou irritada, praticamente rosnando.

-- Você sempre acorda com esse bom humor?

Natália apertou as mãos e dessa vez rosnou. Recolheu suas coisas espalhadas, e caminhou em direção às escadas que davam acesso ao térreo. Parou quando ouviu Diana berrar mais uma vez:

-- Ei, ow caipira!

Natália bateu a mão na perna, expressando sua irritação.

-- Fala!

-- Onde você está indo? O primeiro semestre é nesse andar!

-- Não tenho a menor condição de assistir aula ouvindo as piadinhas e aquelas fotos percorrendo a sala, já pensou se o professor pegar uma delas?

-- Você estava falando sério com esse lance das fotos?

-- Por que eu inventaria isso ow gênio? – Natalia revirou os olhos.

-- Mas eu não... – Calou-se antes de confessar sua participação no episódio da noite anterior – Se eu fosse você, eu não perderia a primeira aula da Mandimbú.

-- Han?

-- É... Aquele personagem de desenho animado... De Dragon Ball Z, não tem TV na cidade que você veio?

-- Garota deixa de ser ridícula! Minha cidade fica a poucas horas daqui!

-- Então, conhece o personagem? Esse é o nome que batizei a professora de Introdução ao Estudo do Direito.

-- Vou ter que conter minha curiosidade para conhecer essa figura dantesca que você está me descrevendo. Não conseguiria ficar naquela sala hoje.

-- Nunca ouviu falar que notícia de hoje embala o peixe amanhã? Você não é tão importante assim, já deu tempo esquecerem você. Venha assistir aula, assim você começa logo a se decepcionar com esse mundo de leis sem noção.

Natália estranhou o empenho de Diana em dissuadi-la da idéia de não assistir aula.

-- Por que você continua fazendo direito se acredita que as leis são sem noção?

-- Você acabou de entrar nessa faculdade, acha que vai ter respostas pra dilemas tão complexos como esse? Você ainda é bicho! Primeiro passo para entender é assistir meu duelo com a Mandimbú, vamos?

-- Espera aí... Você faz aula no primeiro período? – Natália perguntou surpresa.

-- Sou uma pessoa de coração enorme, permeio todos os semestres do curso com minha energia superior, com a luz do meu conhecimento... Aproveite essa generosidade em compartilhar minha sabedoria com vocês, meros bichos, e vamos logo antes que cheguemos depois de Mandimbú, você não ia querer atrair a atenção dela, acredite!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Novo Conto: Leis do Destino


Esse romance é dividido em duas fases.


1º CAPÍTULO

Fumus Bonis Juris

** Fumus Boni Iuris – a fumaça do bom direito, um dos requisitos a ser preenchido quando se busca a antecipação de tutela – decisão de caráter provisório – a fim de se evitar danos irreparáveis até o julgamento final da lide. … a presença de fortes indícios de que se tem um determinado direito alegado, mas cuja situação de fato ainda precisa ser comprovada.

Por: Têmis



Finalmente Natalia viu seu nome no listão da FUVEST. Foram dois anos de dedicação exclusiva a maratonas exaustivas de cursinhos pré-vestibulares de matérias específicas, inúmeros simulados, horas infindáveis de mergulho em apostilas, livros, provas e bizus de vestibulares, o desafio de decorar fórmulas indecifráveis e inúteis fora vencido e o grande sonho da menina do interior finalmente se iniciara: cursar direito na Universidade de São Paulo.

Natalia não se conformaria com nada menos do que um dos melhores cursos de Direito do país, por isso, não iniciara antes sua graduação quando conseguiu aprovação em outras faculdades do Brasil. Para alcançar seu objetivo, abdicou a vida social, até mesmo de qualquer diversão por mais inocente que fosse, e isso não foi tarefa fácil. Nunca fora a mais popular da escola, mas seu jeito descontraído atraiu boas amizades as quais foram responsáveis pelas maiores aventuras na vida da jovem morena de olhos verdes.

Também nunca aceitou a condição de certinha, de CDF. O que lhe definia melhor era a palavra determinação. Nisso ela exibia orgulho. Até aquela fase de sua vida comemorava satisfeita o mérito de sempre ter conseguido tudo o que queria. Suas conquistas nunca vieram fáceis, mas sim, à custa de muito esforço o que lhe dava ainda mais garra para continuar na sua obstinação. Assim foi para conseguir a bolsa de estudos no melhor colégio da cidade, nos cursinhos particulares, nas premiações das olimpíadas escolares. Quando seus pais não dispunham de recursos para lhe patrocinar uma viagem, uma festa, a menina não tinha medo de encarar o batente depois das aulas e conseguir o dinheiro para o que precisava. Foi assim também que conseguiu luxos para uma menina como ela: computador, celular moderno, essas coisas que adolescentes classificam como fundamentais eram sempre oferecidos em concursos de redação, olimpíadas de matemática, as quais Natalia participava com a certeza que conseguiria arrematar os prêmios.

O jeito firme de encarar a vida era motivo de orgulho para os pais da moça. Era a segunda filha de uma família simples de três filhos. O irmão mais velho casara precocemente depois de engravidar a namorada, no interior ainda se preserva o costume de honrar as moças de família com o casamento quando “defloradas”. A irmã mais nova era a caçula tipicamente mimada, nasceu em uma fase mais branda da vida financeira apertada da família, talvez por isso não se sentisse na obrigação de lutar tanto por algo como Natalia estava habituada.

Os pais, o senhor Álvaro e dona Fátima eram comerciantes conhecidos na cidade. Proprietários de uma loja de material de construção viram sua vida financeira melhorar com os incentivos do governo no setor habitacional nos últimos dois anos, fato que pode proporcionar a condição para manter sua filha estudando na capital em condições razoáveis.

Depois das comemorações pelo ingresso na USP, as energias de Natalia se concentraram em achar um bom lugar para morar, de preferência perto do campus, já que não conhecia a maior metrópole do país e aquele medinho de menina do interior dos perigos das grandes cidades por mais escondido que estivesse, residia nela. Seu pai acompanhou-a até São Paulo quando Natalia foi matricular-se, aproveitaram para procurar um apartamento, perto do campus os preços absurdos por uma quitinete simples alarmaram o modesto comerciante.

-- Minha querida, eu não imaginei que fosse tão caro! Não posso arcar com esse valor só de aluguel, ainda tem taxa de condomínio e o dinheiro que preciso enviar para você se manter aqui!

No fundo Natalia concordava com o pai, mas se ressentia pelo fato de não ter dado despesas nos últimos anos e por quase nunca pedir dinheiro, uma vez que até os estudos em colégios particulares, conseguira bolsa de estudos, e quando dependia exclusivamente do dinheiro dos pais para continuar seu sonho, seu pai lhe mostrara o limite.

-- Vou procurar vaga na casa de estudantes pai, não se preocupe.

Com o olhar condoído o senhor Álvaro acompanhou a filha para conhecer as acomodações da casa de estudante, e não gostou do que viu. Por mais simples que fosse nunca deixara faltar nada para sua filha, e deixar que ela residisse naquela casa sem o menor conforto e privacidade nem de longe era o que ele desejava para sua querida Natália.

-- Não minha filha, aqui você não fica! Vamos procurar outro lugar para você, nem que seja mais longe daqui.



E assim, pai e filha peregrinaram pela cidade até encontrar um quarto e sala mobiliados, com um preço acessível, superior aos planos do senhor Álvaro, mas acabou cedendo diante da expressão angustiada da filha.

Dois meses depois Natalia chegava de mala e cuia em São Paulo. Primeiro passo de uma longa trajetória, minuciosamente planejada. Não que fosse uma apaixonada por leis e tribunais, bem verdade que isso também lhe atraía, entretanto, a vontade obstinada de sair daquela cidadezinha do interior e batalhar sua independência era o sonho de Natália desde que se deu conta que aquele marasmo não cabia no seu futuro.

Arrumou tudo do seu jeito caprichado. As dezenas de “tuppeware” amontoados em caixas que dona Fátima fez questão de comprar para o novo cantinho da filha até pareciam charmosos nos armários enferrujados da cozinha. Natalia era pura ansiedade, tinha as melhores expectativas, os planos mais extraordinários para sua nova vida. A ansiedade era tanta que dormir foi tarefa difícil para a caloura.

******

O campus estava lotado, certamente na maioria eram calouros, veterano nunca aparece no primeiro dia de aula, exceto aqueles que desejavam aplicar trote nos “bichos”.

Medo, euforia, desorientação, ansiedade.

Tudo misturado.

Natália experimentou aquele turbilhão de emoções enquanto adentrava pelos portões da universidade à procura do prédio do curso de direito. Encontrar alguém disposto a lhe dar uma informação ali foi difícil, mas arriscou se orientar pelas placas do campus.

O salão de atos estava lotado, o curso de direito era um dos poucos que mantinha a tradição de reunir os discentes na aula inaugural de cada semestre. O desembargador aposentado Jorge Campos proferiu a aula inaugural, depois de se afastar das atividades de desembargador, dedicava-se à docência na universidade que o formou.

Natalia escutou atenta, se lamentando por não poder copiar no caderno tudo que o famoso jurista relatava. Estava realizada, experimentou a sensação de ter escolhido o curso certo, sim seu esforço valeu à pena.

Na saída do salão de atos estranhou a disposição dos alunos encostados lateralmente fazendo um corredor humano, quando associou o que poderia ser aquilo, não tinha como escapar, os veteranos pegaram os calouros para o famoso trote.

O amontoado de alunos espremidos e amarrados por um cordão se transformou em alvo para bexigas cheias de água e tintas, depois de ser coberta por tintas de todas as cores, Natalia relaxou e entrou na brincadeira, o que foi fundamental para se enturmar com calouros e veteranos.

-- Ok bicharada! Segunda parte do trote na república Álibi! – Berrou um estudante mais animado.

Natalia já estava empolgada o suficiente para aceitar convite até pra beber em bar no morro em meio a um tiroteio. Não permitiu que seus receios de menina do interior a impedissem de se envolver nesse mundo novo.

A república Álibi era um sobrado, localizado a poucos quarteirões do campus. Estava lotado como era de se esperar num dia de trote. Natalia se entregou à farra, aceitando todo tipo de bebida que lhe oferecessem. De repente o batido de uma colher no fundo de uma panela convocou o silêncio:

-- Aí galera, aí bicharada, a nossa DJ chegou!

Todos dirigiram os olhares à moça estilosa que exibia pose de estrela acenando para a platéia: loira de cabelos curtos, magra, cheia de estilo com calças folgadas e camiseta colada mostrando sua barriguinha bem definida, na cabeça um chapéu branco Panamá era um charme a mais no seu visual. Diana era seu nome, a DJ distribuiu simpatia montando sua pick-up improvisada, encantando veteranos e calouros, uma em especial: Natália.

Sociedade Secreta Lesbos: Capítulo 32

Capítulo 32



-- Boa tarde Sra. Anderson.

-- Você? O que está fazendo aqui?

-- Acho que temos assuntos a tratar... Posso entrar?

Ao ouvir a voz de Esther, Ellen escondeu-se no banheiro da suíte deixando a porta entreaberta, uma vez que ouvir aquela conversa, era do interesse dela.

Esther entrou no quarto, enquanto Sandra a acompanhava com os olhos, avaliando-a em cada minúcia:

-- Não posso imaginar o que você quer conversar comigo, menina!

-- Notei que não aprovou a vida de Amy aqui, e como conheço pessoas como a senhora, achei justo comunicar que não vou permitir que mesmo sendo sua mãe, estrague a felicidade dela.

-- Mas que petulância! Você não pode se meter assim da vida de minha filha sua...

-- O quê?

-- Ora, menina... Você não tem nada o que fazer aqui... Por favor, retire-se!

-- Sra. Anderson, não pense que a senhora pode pisar em mim como fez com minha mãe...

-- Sua mãe? Do que você está falando?

- Minha mãe, que a senhora conheceu tão bem: Carmem Gonzalez.

Sandra Anderson pareceu ouvir um nome amaldiçoado. A cor sumiu de seu rosto, os olhos verdes arregalaram-se numa expressão de espanto. Com a voz trêmula, Sandra indagou:

-- Mas... Não sabia que você ainda estava viva... Depois do acidente... As informações que tive é que não houve sobreviventes...

-- Meu pai me tirou do carro, quando voltou para tentar salvar o tio Joseph, o carro explodiu e...

-- Wiliam morreu...

-- É... Assisti tudo... Não pude fazer nada... Caminhei pela estrada, fui resgatada por um padre de uma capela próxima, como não tinha mais ninguém para cuidar de mim, fiquei no orfanato que o mesmo padre administrava. Por muito tempo ninguém me procurou, só 5 anos depois meu avô Antonio me encontrou e me tirou do orfanato.

Sandra Anderson sentou-se com os olhos marejados, chocada com o que estava ouvindo. Olhou para Esther dessa vez com mais atenção e menos raiva, e comentou:

-- Olhando bem pra você... Não há como negar... Lembra muito sua mãe, mas seus olhos são iguais aos de Wiliam... Mas, por que você não procurou nossa família... Você tem direitos...

-- Não quero nada da sua família... Você e os Anderson já fizeram mal o suficiente para minha mãe e para mim também.

-- Esther... Eu... Não sei o que dizer, mas... Sua mãe também me fez muito mal... Apenas me defendi...

-- Sra. Anderson, não vai falar da minha mãe... Ela está morta! Agora sim não temos mais nada a dizer, já avisei, respeite as decisões de sua filha...

Esther saiu segurando o choro, não permitiria que Sandra Anderson a visse desabar. Esta, por sua vez, sentia suas carnes tremerem, tamanho o abalo por ter encontrado um pedaço do seu passado na filha de Carmem Gonzalez, filha a qual Sandra julgava ter morrido no acidente de carro no qual Wiliam e Joseph Anderson morreram há mais de dez anos.

Ellen ainda digeria o que acabara de ouvir, maquinando como aquela informação seria útil para seus planos. Saiu do banheiro encontrando Sandra atônita, trouxe-lhe um copo de água e perguntou:

-- A senhora está bem?

-- Sim... Só um pouco surpresa... Ellen, peço que espere um pouco para colocar em ação esse seu plano... Entrarei em contato, agora, por favor, me deixe sozinha.

Na mansão gama-tau, Amy subiu as escadas às pressas à procura de Esther, frustrou-se ao não encontrar sua amada em seu quarto. As outras irmãs de fraternidade foram as primeiras a ver seu presente, vibraram junto com Amy, que se impacientava por Esther não chegar logo. Passada quase uma hora, o coração de Amy acelerou ao ouvir o ronco da motocicleta de Esther se aproximar, e correu em direção a morena tão logo ela estacionou:

-- Minha linda, olha o que eu ganhei!

Esther sorriu amarelo sem conseguir disfarçar seu abalo, mas não podia contar o motivo para Amy, respondeu desanimada:

-- Que bom, linda, você merece...

-- Ah, vamos lá, estava te esperando pra dar uma volta comigo... Estrear meu carro novo, vamos?

-- Amy, desculpe-me, não estou me sentindo muito bem, vamos deixar pra outro dia?

-- Mas, Esther, estava só esperando você...

-- Desculpa, Amy...

A morena entrou na mansão sem olhar para trás, subiu direto para o seu estúdio, sentou em frente ao piano e uma canção triste, conhecida das veteranas soou pela casa.

Rachel reconhecia de longe aquela música, era uma composição de Esther para seus pais, logo deduziu que algo despertara as lembranças do seu passado trágico.

Amy perdeu toda empolgação com a frieza de Esther, já estava nas escadas, quando Laurel a chamou:

-- Amy... Quero estrear o seu presente, vamos lá...

-- Ah, irmã... Fica pra outro dia, vou ver o que Esther tem, ela estava estranha.

-- Uma dica: está ouvindo essa música?

-- Sim... Vem do estúdio, deve ser Esther tocando... Vou subir.

-- Amy, a Esther sempre toca quando quer ficar sozinha; essa música, ela fez para seus pais.

-- E o que tem de triste nisso?

-- Amy... Você não sabe? Esther perdeu os pais ainda criança, primeiro a mãe, de a um câncer, depois seu pai em um acidente.

-- Bom... Sabia que ela havia perdido o pai, já que o barco é herança dele... Mas não sabia que havia sido tragicamente assim... Nossa, não sei quase nada dela... E estou assim, tão apaixonada...

O rosto de Lauren parecia encher-se de tristeza ao ouvir isso da loirinha, e retrucou:

-- Apaixonada? Mas... Pensei que fosse tudo apenas uma provocação...

-- No começo sim, Laurel... Mas agora... Até enfrentei minha mãe, e revelei que estou apaixonada por Esther.

A ruiva tentou disfarçar, mas a decepção no seu rosto era evidente. Pediu licença a Amy reiterando o conselho de deixar Esther sozinha, e saiu da mansão caminhando sem destino pelas ruas das fraternidades. Uma cena chamou-lhe a atenção: Ellen conversando intimamente com uma das meninas da fraternidade, uma das muitas que Esther já teve caso... A cena era incomum uma vez que para ambas estarem conversando fora da mansão, deveria ser mesmo algo muito secreto que nem as irmãs de fraternidade poderiam desconfiar.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Aí vem...

Novo conto:

Leis do Desitno


Sinopse: O Direito une as vidas de duas estudantes: Natália e Diana. A tensão que inspirava rivalidade evolui para uma atração irresistível,dando início a uma conturbada e apaixonante história de amor.


Resolvi postar aqui, por que estou pensando seriamente em publicar a segunda fase aqui no blog, tenho esse desejo há tempos...Vamos ver se minhas leitoras me seguirão aqui também.

Sociedade Secreta Lesbos: Capítulo 31

A manhã chegou sem que as meninas quentes de Prescott dessem conta, os efeitos da noite de festa foram unânimes. Amy foi acordada por Liv, uma das novatas de sono leve que atendeu ao telefone da mansão. Era a Sra. Anderson, nem um pouco satisfeita pelo suposto atraso da filha.

-- Amy, desculpa, mas sua mãe está uma fera no telefone dizendo que está esperando você desde as 9 da manhã...

-- Nossa! Que horas são?

-- Acho que quase meio-dia...

-- Oh Deus! Obrigada Liv.

Amy desceu as escadas às pressas, envolta apenas no lençol de Esther. Tomou um banho rápido, vestiu uma roupa qualquer, mesmo sabendo que seria avaliada pela mãe dos pés à cabeça... de sair, subiu até o terceiro andar, a fim de se despedir de sua amada. Encontrou-a completamente nua, ainda dormindo na cama que evidenciava a noite incrível que elas tiveram com algumas pétalas de rosas perdidas...

Pegou uma das pétalas e desceu suavemente pelas costas da morena, beijando com a língua entre os lábios, despertando Esther daquele sono misturado com a ressaca já esperada...

-- Ei... impressão minha ou te deixei nua nessa cama ontem e você já está assim toda vestida? Sonhei, ou minha ressaca está me fazendo ver coisas?

-- Não... -- Amy sorriu e beijou demoradamente os lábios de Esther -- Estou de saída linda... vou encontrar minha mãe no hotel e estou atrasadíssima...

-- Ah... certeza que você tem que ir? A gente pode curar a ressaca de um jeito bem gostoso, o que acha?

-- Esther... não me tenta vai... -- Amy respirava fundo enquanto Esther beijava seu pescoço.

Amy levantou-se rapidamente, saindo às pressas do quarto de Esther, mandando beijos pra morena, mostrando a pulseira que lhe fora presenteada, com um sorriso iluminador, arrancando o riso fácil da morena que lhe olhava numa expressão de fascínio.

Sandra Anderson aguardava Amy na piscina do hotel com seus óculos de sol que cobriam metade de seu rosto mal humorado, protegido por um chapéu de abas largas. A mulher não se deu ao trabalho de sequer responder o bom dia da filha, mandou apenas que Amy se sentasse para almoçar pelo avançado da hora.

-- Mãe, desculpe-me, a festa terminou tarde, não consegui acordar cedo...

-- Definitivamente, essa fraternidade acabou com você Amy... não reconheço mais minha própria filha!
-- Ai mãezinha... para com isso por favor... vim aqui pra passar o dia com a senhora, nos entendermos... acabar com esse clima pesado, poxa mãe, estou tão feliz...

-- Amy, você está fora de si! Não é possível que você sempre tão equilibrada, centrada, um dos melhores partidos de New York, tantos planos que tínhamos pra você... ser uma sócia do escritório de seu pai...

-- Mas mãe nada disso mudou, poxa! Estou em uma das melhores universidades do país, estou me saindo bem em todas as disciplinas, minhas atividades na fraternidade só enriquecem meu currículo, o fato de eu estar apaixonada por uma mulher não muda esses planos que você e papai têm pra mim.

-- Claro que muda Amy! Seu pai não aceitará isso nunca!

-- Será mãe?

-- Amy... você não pode continuar nessa fraternidade e tem que acabar com essa palhaçada com essa latina! Você não é lésbica! Vou conversar com seu pai, para conseguirmos sua transferência para Harward, Princeton ou Yalle, mas aqui você não ficará!

-- Mãe, foi pra isso que eu vim aqui hoje? Pra ouvir essas coisas da senhora?

-- Na verdade, queria entregar seu presente... essa sua situação foi uma surpresa pra mim, mas logo resolvo isso quando retornar a New York.

Empurrou uma caixa pequena e pediu que Amy abrisse. A loirinha obedeceu e se surpreendeu ao ver apenas uma chave. Logo deduziu que se tratava da chave de um carro.

-- É o que estou pensando mãe?

-- Está na garagem do hotel, você logo vai notar qual o seu. Lá não existem muitos carros com um grande laço em cima...

Amy saltou no colo da mãe enchendo-a de beijos e abraços agradecidos. Em seguida, saiu puxando-a para a garagem e lá vibrou sem parar ao ver seu presente: um Jaguar conversível prateado. Sempre foi esse o preferido da loirinha entre os muitos que seu pai colecionava.

A primeira coisa que Amy pensou ao sentar no banco de motorista foi passear com Esther naquele carro até a praia, até o cais onde o barco de Esther ficava atracado... mas convidou a sua mãe para estrear o presente. Sandra deu uma trégua no clima pesado entre elas e aceitou, empolgada com a felicidade da filha com o presente.

Depois de almoçar e se despedir de sua mãe, Amy voltou para a mansão gama-tau por volta das 17H, ansiosa para mostrar seu presente à Esther. Antes de permitir que a filha voltasse, Sandra Anderson deixou bem claro que faria tudo para tirar a garota daquele que pra ela era um “mau caminho”.

Ellen já aguardava na recepção o encontro marcado com a Sra. Anderson. Subiram para a suíte de luxo do hotel para dar início ao plano para separar Esther e Amy.

-- O que você pretende fazer mocinha? -- Indagou Sandra.

-- As regras da fraternidade não permitem agressões físicas entre os membros, quero provocar Esther o suficiente para que ela me agrida...

-- Mas como isso pode separá-la de minha filha? E mais, como fará com que Amy abandone a gama-tau?

-- Amy precisa se decepcionar com Esther e sair do seu domínio... isso não será difícil, porque Esther tem uma fama justa de mulherenga...

-- Insisto, o que você fará?

-- Vou fazer Amy ver quem é a verdadeira Esther e depois deixarei Esther saber que fui a responsável. Explosiva como ela é, não vai se conter e vai partir pra cima de mim... então...

-- Vou esperar alguns dias para que você execute esse plano. Caso contrário, farei as coisas do meu jeito... mas, o que você quer em troca?

-- Para que meus planos funcionem preciso de recursos que não tenho...

-- Estamos falando de quanto?

-- A princípio, 2 mil dólares...

Sandra Anderson apenas preencheu o cheque sem titubear. Quando o entregou à Ellen, ouviu batidas na porta. Emudeceu. Empalideceu ao abri-la esperando algum funcionário do hotel e se deparou com Esther.

Novo conto: Aconteceu você

Capítulo 1: O início do fim

Sabe aqueles dias que você acorda e acredita com todas as forças que tudo vai dar errado? O despertador não toca você levanta atrasada, de ressaca, tropeçando nos sapatos jogados perto da cama, do chuveiro só sai água fria, diante do espelho você percebe uma espinha monstra que parece ter o poder de canalizar seu cérebro no meio da sua bochecha! Aquele terninho de listras que tem o poder mágico de te emagrecer dois quilos parece simplesmente ter evaporado, no lugar dele, aquela calça que antes te deixava gostosa, agora denuncia seus indesejáveis pneuzinhos, que mais lembram as bordas de catupiry de uma pizza...

Foi mais ou menos assim que o dia que até então eu julgava ser o pior da minha vida começou. Uma reunião importantíssima no jornal que eu trabalhava já devia ter iniciado, enquanto eu me estressava em um engarrafamento típico de segunda-feira. As buzinas dos carros misturadas a gritos desaforados de motoristas revoltados com as “barbeiragens” dos motoboys que faziam zig zag entre os carros aumentavam ainda mais minha dor de cabeça resultante de algumas garrafas de vinho ingeridas na noite anterior. Nem atendi mais às chamadas do meu celular, desculpa típica de funcionário atrasado é o engarrafamento de início de semana no principal acesso ao centro da cidade, preferi poupar meus tímpanos dos gritos da minha chefe implorando para a Márcia justificar meu atraso.

Como eu maldizia interiormente minha amiga Renata pela idéia brilhante do clube das luluzinhas numa noite de domingo. Péssima idéia unir quatro mulheres solteiras, todas magoadas com seus respectivos namorados e ex-namorados e garrafas de vinho a disposição delas. Eu que curtia a forsa pelo bolo dado pelo meu noivo, que mais uma vez como que sugado por um buraco negro sumira todo o fim de semana e inexplicavelmente os dois celulares permaneceram desligados, afoguei minhas suposições no Porto trazido pela Eveline.

Uma hora e meia depois, consegui chegar ao prédio do jornal, equilibrando maleta do laptop, bolsa, e uma pilha de pastas com a pesquisa solicitada pelo meu editor para uma série de reportagens a ser desenvolvida pela equipe de política internacional. Nem preciso dizer que a reunião já havia sido encerrada, Marcinha correu em minha direção trincando os dentes dizendo com os olhos esbugalhados:

- - Onde você estava sua louca? Vou logo dizendo, a Cuca está fumando dois cachimbos pelas narinas!

- - Marcinha preciso me esconder! O que vou dizer a ela? Chefinha minhas amigas resolveram me dar um porre depois do bolo que seu querido sobrinho me deu no fim de semana, acordei de ressaca, perdi a hora e a reunião. Dessa vez a Cuca vai me pegar amiga!

Entre os funcionários, Izabel Carvalho de Alcântara, editora chefe do jornal O Dia, tinha o codinome de Cuca. Pois é, a Cuca, do sítio do Pica-Pau Amarelo, tudo isso por causa do seu humor de cão, unido ao avantajado quadril da senhora de cabelos com franja assanhada, lembrando a primeira versão da personagem do programa infantil da Globo.

Enquanto eu me desesperava no desabafo com Marcinha nem percebi os grandes olhos azuis de minha amiga arregalando-se ainda mais como se quisesse me dar algum sinal.

-- Que foi Marcinha? Fala garota!

-- Alexandra Castro! A senhorita pode me explicar por que não estava na reunião de duas horas atrás?

A voz irritante e cheia de fúria de Izabel surgiu me provocando pavor, apertei os olhos provando o amargo de uma bronca que eu receberia logo mais.

Segui a poderosa Cuca até seu escritório, senti os olhares da redação sobre mim no trajeto, nenhum sinal do meu digníssimo noivo, colunista daquele jornal. No escritório fui acomodando minha bagagem pelas poltronas sob o olhar aterrorizador da minha chefe.

-- Muito bem Alexandra, nem quero ouvir suas explicações absurdas, por que delas estou saturada. Vou ser curta e grossa.

O tom daquela mulher horrorosa não me surpreendia em nada, especialmente o fato de ser curta e grossa isso ela era sempre.

-- Esses anos que você trabalhou aqui me esforcei ao máximo para te dar todas as chances possíveis, fechei os olhos para suas mancadas, ignorei suas trapalhadas, como quando você enviou o nosso repórter policial para cobrir o assassinato de Belchior, quando o tal era ao invés do cantor, um touro de exposições.

-- Aquilo foi um terrível engano Izabel. Mas, eu achava que seria um furo jornalístico, já que ninguém se quer sabia que ele havia morrido.

-- Talvez por que ele continuasse vivo não é Alexandra!

-- …... Pode ser...

-- Continuando, eu mudei você de setor, troquei de cargo, mas não adiantou minha filha pra que você fez jornalismo? Você não nasceu para isso!

-- Izabel, já conversamos o que gosto é de escrever, você não me deixou passar da sessão de obituários.

-- Por que até lá você fez confusão Alexandra! Você trocou a folha de obituários pelos classificados de carros usados, a catedral lotou para a missa de corpo presente do Fusca 76!

-- … foi. Mas, o padre até que gostou, esse dia era missa do dizimista, aumentaram muito as ofertas.

-- Alexandra!

--Desculpe-me chefe, pode continuar.

-- O fato é que fiz tudo que estava ao meu alcance, não por sua causa, mas por causa do meu sobrinho Fernando, já que vocês ficaram noivos, fui déspota, e te mantive aqui. Mas dadas as circunstâncias, não vejo por que mantê-la aqui.

-- Que circunstâncias?

-- As circunstâncias que fatalmente farão meu sobrinho terminar o noivado com você, ou você se tiver um pingo de amor próprio fazer isso.

-- Mas por que eu terminaria o meu noivado com Fernando?

-- Como assim? Você não está sabendo? Que tipo de jornalista desinformada é você Alexandra?

-- Sabendo do que Izabel?

Que pergunta infeliz. Duro foi saber do que a Cuca estava falando, aliás, ela não falou, ela jogou na mesa, a revista de fofocas semanais da editora com uma capa escandalosa: meu viril noivo, o jornalista Fernando Alcântara, flagrado com um famoso cantor trocando carinhos no mínimo estranhos numa romântica pousada em Campos de Jordão.

-- Está nessa revista, e em muitas outras, por isso nem pude impedir a publicação, está na internet, até em programa de fofoca na TV isso foi divulgado.

Eu olhava embasbacada, ainda desacreditando no que estava diante dos meus olhos, e afinal, não era só eu a desinformada, minhas amigas eram tão alienadas quanto eu, já que nenhuma soube da fofoca do momento.

-- Quando essa foto foi tirada?

-- No último sábado, Fernando continua viajando, depois do escândalo, preferi dar uns dias de folga a ele... Vai me mandar por e-mail a coluna dele.

-- Mas ele não vai se quer me dar uma satisfação? Explicar essa foto?

-- Querida que explicação você precisa?

Nesse momento, a secretária de Izabel entra na sala, e avisa:

-- Dona Izabel, é melhor a senhora ligar a TV no canal 5, a senhora vai querer ver isso, e acho que Alexandra também.

Pronto, minha humilhação fora oficializada em cadeia nacional. O famoso cantor de Axé Music, Xandão Lemos, assumira sua homossexualidade e seu relacionamento com meu noivo numa entrevista a uma famosa apresentadora de programas de fofocas diário.

Eu apertava os olhos, ajeitando meus óculos de grau, duvidando dos meus sentidos, visão nunca foi meu forte, mas a audição também estava me traindo, escutar aquilo foi surreal para mim. Nem ao menos tive tempo de me apropriar da dor da humilhação, quando fui sugada pela delicada voz aguda de minha chefe:

-- Explicado o suficiente para você Alexandra?

-- Eu... Eu...

-- Bom, como eu estava dizendo antes de ser interrompida, dadas as circunstâncias, não tenho que dar emprego a ex-noiva de meu sobrinho gay, portanto Alexandra, você está demitida.

-- Hã?

-- É… isso Alexandra, passe no departamento de pessoal, recolha suas coisas, e boa sorte para você.