terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

LEIS DO DESTINO: 2ª FASE Capítulo 22

2.22 Claudite jam rivos, pueri; sat prata biberunt
Fechai agora os riachos, meninos; os prados beberam bastante. Basta, chega, acabemos com isto. 


            Lucas se surpreendeu com a intervenção de Acrisio quando soube da chegada do delegado e de sua equipe na Verdes Canaviais.
           
- Abram os portões para a polícia!

            Acrisio ordenava descendo da caminhonete conduzida por Danilo. Douglas apertou os olhos furioso encarando o irmão, deduzindo que este cumprira o que anunciara revelando a verdade ao pai sobre os atos praticados na fazenda.

- O mandado só autoriza a diligência no alojamento dos empregados papai. Estou orientando o delegado a seguir pela estrada até a entrada que dá acesso ao lugar que ele procura. – Douglas retrucou.

- O delegado tem minha autorização para revirar o que ele quiser, em qualquer lugar dessa fazenda. Guarde esse papel doutor, nas minhas terras a polícia pode cumprir seu dever sem essas burocracias.

            Acrisio falou alto. Lucas não sabia o que pensar. Temeu até mesmo que se tratasse de uma armadilha do velho homem, ou mais uma de suas artimanhas para fingir colaboração com as investigações.

- Obrigada senador Acrisio. – Lucas agradeceu em tom formal.

- Não sou mais senador há muito tempo doutor. Não precisa dessa cerimônia toda. Vamos, entre!

            Os policiais entreolharam-se desconfiados. Com alguma hesitação entraram nos carros e atravessaram os portões da fazenda, e seguiram Acrisio até a sede da Verdes Canaviais. Douglas mantinha a cara de poucos amigos, e ordenou que seus capangas conservassem o estado de alerta.
           
            A convite de Acrisio, Lucas se sentou na sala da casa. Cordialmente o dono da fazenda ofereceu-lhes água, café, como se tratasse de uma visita comum.

- Agradecemos a gentileza senador, ops, desculpe-me, senhor Acrisio, mas estamos a trabalho e não pretendemos demorar além do necessário. Dessa forma se o senhor nos autorizar, gostaríamos de começar essa diligência.

- Antes que vocês comecem o trabalho de vocês, eu quero esclarecer duas coisas.

            O tom de Acrisio chegou a despertar arrepios em Lucas. Douglas cercava a sala com um olhar tenso, especialmente porque seu irmão aparentava uma placidez incomum naquela circunstância.

- Estou escutando senhor. – Lucas disse.

- Primeiro: o contrato com a cooperativa que empregava os trabalhadores dessa fazenda foi cancelado oficialmente há dois dias. Portanto, as denúncias sobre a infração dos direitos desses homens serão devidamente apuradas com meu apoio, mas, esses homens agora trabalham para mim, estão todos legalmente amparados e empregados, todos os registros estão disponíveis se os senhores quiserem verificar.

            Não só Lucas, Douglas também ficou atônito com a revelação. O delegado concluiu mentalmente que a velha raposa astutamente se esquivava das acusações que pudessem recair sobre ele, tentando limpar “a sujeira” escondida nas suas terras.

- Segundo: não há nenhum homem aqui que não esteja trabalhando contra sua vontade. Todos tem seus documentos, suas acomodações, e foram devidamente pagos pelos seus serviços, já que Nilton está preso, sua empresa está sem administração, o pagamento foi feito diretamente aos trabalhadores com o valor retroativo e proporcional ao tempo de serviço para aqueles que continuam a trabalhar aqui.

- Senhor Acrisio, é muito bom saber disso. Mas, acredito que o senhor tenha ciência que isso não apaga os crimes anteriores denunciados não é? Temos outras acusações a serem averiguadas, inclusive de trabalhadores desaparecidos.

- Eu sei disso delegado. Assumo minha responsabilidade nisso. Não autorizei nenhuma morte, nenhuma tortura, nenhuma violência, mas, se aconteceram em minhas terras, tenho minha parcela de culpa e quero que tudo seja esclarecido o quanto antes.

            Lucas tentava decifrar o que estava por trás daquela postura do acusado.

- Senhor Acrisio, as acusações envolvem ocultação de cadáver. O senhor autoriza a utilização de cães farejadores em sua propriedade na busca desses supostos corpos?

            Lucas ousou perguntar, testando a disposição e boa vontade do fazendeiro em colaborar com as investigações.

- O senhor precisa de alguma assinatura minha declarando minha autorização para isso delegado? Eu sou homem de uma palavra só. Autorizo todos os métodos de investigação com a condição de que o senhor corresponda à minha disponibilidade com a justiça, e me mantenha informado. O senhor compreende que é fundamental que eu saiba o que acontece na minha fazenda não é? Passei muito tempo afastado da administração dela envolvido com minha campanha política, e as coisas me parecem ter saído do controle, quero retomá-lo.

- De acordo senhor Acrisio. Faremos a diligência que foi autorizada pela justiça hoje, e retornamos com o aparato necessário para investigar segundo sua autorização explícita o subterrâneo dessa fazenda. Agora, se o senhor nos der licença, precisamos proceder ao mandado.

- Fique à vontade delegado. Meu filho vai acompanhar o senhor e ajudar no necessário.

            Acrisio falou e Douglas imediatamente seguiu Lucas.

- Douglas? Eu me referi ao Danilo. Você fica, preciso conversar com você em particular no meu escritório agora.

- Mas, papai... Eu achei que...

- Douglas? Eu disse agora. Danilo acompanhe o delegado meu filho.

            Acrisio seguiu para o escritório com Douglas que já dava sinais do seu transtorno diante das atitudes surpreendentes do pai.

- Papai o que deu no senhor? Como assim facilitar o trabalho dessa gente? O que o senhor pretende amolecendo desse jeito com esse bando de morto de fome que vive às nossas custas aqui? Eu vou lá impedir que eles falem demais a esse delegado borra-botas, Danilo vai estragar tudo!

- Você não vai a lugar nenhum! Sente-se nessa cadeira agora!

            Acrisio berrou impondo sua autoridade conhecida. Douglas arregalou os olhos um tanto assustado com a veemência do pai, e obedeceu, sentando-se diante do pai.

- Que diabos você acha que está fazendo com sua vida meu filho? Que lambança foi essa nessa fazenda? Você tinha que deixar esse rastro de sangue e morte a troco de que? Onde você estava com a cabeça Douglas? Eu te entrego uma das nossas maiores propriedades e você a transforma num campo de concentração nazista?

- Papai! Eu fiz o que tinha que ser feito! Exatamente o que o senhor faria! O senhor sabe como esses homens são! Alguns tiveram que servir de exemplo para mantermos a ordem por aqui.

- A ordem se mantém com autoridade Douglas, não à custa de mortes! Eu sou um ignorante sem instrução, mas você é estudado, não sabe que desde que o mundo é mundo, não se contem a força de um povo revoltado? Matar um resolveu alguma coisa? Não! Aí você matou dois, três, quatro, cinco e quantos mais que nem sei se quero saber o total, e eles continuaram revoltados, você nem parece um político! Só atraiu mais o olhar da polícia e da justiça para cá, você deu aos urubus o que eles precisavam para nos pegar!

- Papai o senhor que ordenou que contratasse essas pessoas e detivesse os documentos delas, impedindo que elas partissem daqui, fiz o que senhor pediu!

- Douglas eu pensei que você fosse mais inteligente! Essa história da cooperativa seria a solução para tudo, mas você meteu os pés pelas mãos com esse massacre! Poderíamos manter esses homens com baixos salários, dando-lhes corda para se enforcar em dívidas, e ainda sairíamos de patrões bons que oferecem comida, diversão, jogos, mulheres, bebidas, remédios, empréstimos e assim não teríamos a polícia no nosso encalço!

- Eles me desafiaram papai! Não me respeitaram! Tinha que proteger nosso patrimônio e minha vida também.

- Ah meu filho... Eu pensei que tinha te ensinado alguma coisa todos esses anos convivendo comigo. Mas vejo que você ainda tem muito a aprender, especialmente na política. Os tempos são outros, o coronelismo tem ser disfarçado hoje, não pode ser praticado do mesmo jeito que no meu tempo. A era da bala e das tiras de couro dos chicotes está aposentada.

- Foi o Danilo que encheu a cabeça do senhor não foi?

- O Danilo me abriu os olhos para muita coisa. Ele parece ter aprendido mais com a política do que você que já ocupou tantos cargos. Seu irmão está preocupado com você, e agora vejo que ele tem motivos para isso.

- O que ele andou dizendo pro senhor? Ele está é paranoico, ele é fraco papai, não é como nós. Não tem estômago para algumas coisas que sabemos que é preciso fazer para um bem maior. Eu tentei ensinar, mas ele agiu como um bebezão assustado, um maricas.

- Chega Douglas! Eu estou velho e não burro ou louco! Eu fiquei a par de tudo que aconteceu nessa fazenda, e não foi o Danilo quem me contou. Você acha mesmo que eu não deixaria meus olheiros de plantão nas minhas terras? Você está adubando esses canaviais com gente Douglas! Isso é burrice meu filho!

- O senhor fala como se eu tivesse matado por prazer, não foi papai! Eram pessoas perigosas...

- Douglas eu não quero ouvir essas explicações fajutas! Cale-se! Estou retomando o controle dessa fazenda. Já comecei a tentar consertar as coisas, algumas não tem conserto, e nós vamos ter que pagar por isso. Melhor dizendo: eu vou pagar por isso. Você volta hoje para Brasília. O deputado Ferreira Filho pediu afastamento para cuidar de sua saúde, você como primeiro suplente vai assumir a cadeira dele. Apresse sua mulher para fazer a mudança de vocês de Campo Grande para lá, quero que você seja um deputado exemplar! Daqueles que mal existem naquele congresso: trabalhando todos os dias da semana. Quero você ocupado em inventar leis de tudo que é qualidade, participando de todas as CPIs que aparecerem!

- Mas... Papai... E as fazendas de Mato Grosso?

- Não se preocupe, já tenho gente de confiança á frente delas. Vou ajeitar tudo por aqui e vou dar assistência às outras também. Minha vida política acabou, nasci como homem da terra e vou terminar meus dias assim. A carreira política dos Toledo Campos está em suas mãos agora. Conquiste minha confiança em você, me orgulhe!

            Douglas parecia aturdido com as manobras do pai para afastá-lo da Verdes Canaviais. Algo não parecia estar correto naquele contexto, considerando as regras de Acrisio.

- O senhor está esquecendo que tem muitas pontas soltas nessa história, e dando abertura para esse delegado fuçar tudo, vai dar as provas para finalmente conseguirem o que tentaram toda vida: condenar e prender o senhor. E não vai ter juiz e nem advogado que consiga livrar o senhor quando a imprensa souber.

- Meu filho chega uma hora na vida que o homem se depara com o juízo. Pode ser com o juízo dos homens, ou da sociedade, ou até dele mesmo. E se esse encontro não for a terra, não escapará do maior juízo de todos: o divino. Cheguei à fase de vida na qual eu tenho que estar preparado para qualquer um desses ou para todos esses.

            Douglas ficou ainda mais atordoado com a reflexão do pai, que ainda acrescentou:

- Retorne hoje ainda para Brasília, e contrate outros assessores, outros seguranças, não quero esses capangas sanguinários acompanhando você. Ficarão aqui debaixo das minhas vistas. Estarei presente na sua posse, e teremos outra conversa sobre sua saúde, prometi à sua mãe que cuidaria de vocês, e como ela era cardíaca, quero que vocês três sejam avaliados.

            A recomendação de Acrisio não tinha o menor nexo para Douglas. Chegou até a supor que seu pai estaria enlouquecendo, ou como se atribuía a pessoas idosas: caducando. No entanto, Douglas apenas meneou a cabeça e empolgado por assumir o cargo de deputado federal aceitou a imposição do pai e deixou a fazenda imediatamente após comunicar aos seus funcionários pessoais a decisão de Acrisio.

*************

            Natalia boquiaberta desligou o telefone. Não conseguia sequer concatenar seus pensamentos para formar uma única teoria acerca das informações que Lucas acabara de repassar. Carla custou a acreditar no relato da promotora, ficou igualmente perplexa com a reviravolta daquela investigação.

            Apesar do pouco alarde, a imprensa noticiou a regulamentação dos trabalhadores da Verdes Canaviais. Como bom marqueteiro que era, Danilo certamente convocara a mídia para anunciar a mudança de gestão da fazenda alvo de investigação do Ministério Público. Foi registrado inclusive depoimentos de trabalhadores satisfeitos com sua cidadania reconquistada, além de imagens de outros fazendo ligações telefônicas para suas famílias.
           
            Tal fato sem dúvida tinha intenção de mascarar as outras denúncias de tortura e assassinato. Mas, a mudança de postura de Acrisio impediu a rebelião iminente daqueles trabalhadores. A interpretação de Lucas e Natalia sobre isso divergia. O delegado, talvez por ser testemunha ocular daquela revolução, conseguia demonstrar otimismo e até arriscar que Acrisio poderia ser mesmo inocente de muitas acusações. Já Natália conservou a perspectiva de que tudo não passava de uma encenação da velha raposa, manobrando e manipulando as pessoas e o sistema a seu favor.

            Natalia acreditava que a repentina generosidade e integridade de Acrisio era uma farsa para ocultar crimes maiores. O recuo estratégico do ex-senador reservava alguma desagradável surpresa no desenrolar dos fatos. O que a promotora supunha de acordo com a sua experiência era que Acrisio armara para que toda culpa dos crimes identificados na fazenda fossem atribuídos a Nilton Silva, dessa forma, livraria ele e o filho mais velho das acusações.

            A hipótese de Natalia só ganhou força quando Diana compartilhou com ela as informações que Danilo acabara de revelar ao telefone.

- O papai está mesmo se superando em nos surpreender.

- Ah, nisso concordo com você meu amor.

- Então você já sabe sobre o que aconteceu na fazenda hoje?

- Sim, o Lucas me ligou agora pouco.

- O Danilo também. Ele me disse que o papai parece outra pessoa. Acatou todas as sugestões dele. Imagine que constituiu o mesmo escritório de advocacia que Carla indicou para regularizar a situação da fazenda e dos trabalhadores.

- Sério? Ele está mesmo se empenhando hein? – O comentário de Natalia veio carregado de ironia.

- Ele está tentando fazer a coisa certa. Isso é bom não é? – Diana retrucou ressentida.

- Amor você acredita mesmo nessa mudança do seu pai? – Natalia indagou surpresa.

- Acho que ele merece ao menos o benefício da dúvida.

- Di, estamos falando de Acrisio Toledo! O homem que você lutou contra a ditadura dele a vida toda. O mesmo que você testemunhou ordenar a morte de um rival. O mesmo que te surrou te chantageou e nos separou. Que dúvida pode restar sobre a culpa e caráter dele? – Natalia perguntou exasperada.

- Também o mesmo que me amou, me protegeu, salvou sua vida sem nem saber quem você era só porque era um pedido meu.

- Para depois cobrar essa dívida e ter algo contra nós e te chantagear não é?

- Impressão minha, ou você está condenando meu pai sumariamente?

- Sumariamente? Di o retrospecto do seu pai de crimes é mais extenso do que a avenida Bandeirantes!

- Você encarnou mesmo o papel de acusadora não é Natalia?

- E você retrocedeu à inocência da infância e está defendendo esse homem se esquecendo do que ele te fez!

- Esse homem é meu pai Natalia!

            Diana bradou com lágrimas nos olhos. O semblante da loirinha tocou Natalia. Encarando a fotógrafa, a morena percebeu o quão cruel estava sendo com o momento delicado de Diana, confusa com as mudanças repentinas de um pai que ela queria de volta como o tinha na infância.

- Desculpa meu amor. Estou exagerando um pouco não é?

- Natalia eu não me esqueci de nada que meu pai fez. Mas eu não posso ignorar que esses dias tem me abalado, tem algo diferente nele, eu tenho certeza, não estou louca.

- Eu acho que seu pai está jogando. Como sempre.

- Pode ser, mas também pode estar do jeito dele, consertando as coisas, protegendo a família dele, fazendo o que a mamãe pediu especialmente pelo Douglas.

- O Douglas é o braço direito do seu pai, está envolvido até o pescoço nas acusações segundo seu próprio irmão, nunca diria que não é filho legítimo de Acrisio. Como seu pai está protegendo ele?

- O papai o afastou da administração da Verdes Canaviais. O Douglas está se mudando hoje para Brasília para assumir uma cadeira no Congresso Nacional, ele era o primeiro suplente de um deputado que se afastou.

- Ah ótimo! Como não imaginei isso?! Eu sabia que aquela raposa velha estava armando alguma!

- Natalia!

- Diana você não percebe a jogada do seu pai? Agora, o Douglas não pode ser julgado pela justiça comum, pelo menos não na minha jurisdição. Ele tem um negocinho chamado: foro por prerrogativa de função. Nunca mais conseguiremos pegá-lo.

            Diana torceu os lábios, refletindo a conclusão revoltada da promotora.

- Tenho que reconhecer: seu pai é bom no que faz! Uma jogada de mestre. Enquanto nos distraía com essa boa vontade nas investigações, vestia a armadura no filho assassino contra a cadeia!

            Diana não retrucou. Não sabia se o certo era defender o pai, ou se juntar a promotora naquela indignação. Seu coração acenava que a motivação de Acrisio para tais manobras em nada tinham relação com a fuga de punições, Diana enxergava a proteção paterna nos moldes de Acrisio, e mesmo que tentasse não conseguia condená-lo por isso, e por um instante se censurou por tal deslize no seu pensamento ético, totalmente discrepante da postura moral e profissional de Natalia. Por tal paradoxo, a loirinha preferiu o silêncio. Deduziu que expor seu dilema decepcionaria por demais a promotora.

            Naquela noite, pela primeira vez desde que reataram Diana não conseguiu estar inteira ao lado de Natalia. Sentiu falta da imparcialidade e sensatez de Rosana. Não culpava Natalia por aquela postura, uma vez que era coerente, e justa, dados os fatos do inquérito, mas não podia conter o sentimento controverso que tomava seu peito: saudade do pai e vontade de estar perto dele, nem que fosse para ter a certeza de que Natalia estava certa.

            Natalia não ficou imune ao estado da fotógrafa. Reconhecia que digerir aquela mudança de atitude do pai não estava sendo tarefa fácil para Diana, em contrapartida, se via incapaz de aceitar qualquer teoria que diminuísse o nível de maldade de Acrisio. Para não arriscar magoar Diana, a promotora optou por se recolher às suas certezas, uma vez que seu julgamento acerca do seu sogro já estava concluído.

            Experimentando mais uma vez a vulnerabilidade psicológica que aquela sequência de eventos provocou em sua vida, Diana lutou contra a vontade de afundar sua aflição em um copo de uísque, apelando para Rosana mais uma vez. A voz de sono da cantora anunciou que mais uma vez Diana interrompera o descanso da psicóloga.

- Acordei você de novo não é?

- A culpa não é sua minha loira, é desse fuso horário maldito não é? Então, o que você faz acordada essa hora meu bem?

- Acrisio Toledo Campos.

- Acho que esse nome é familiar... – Rosana brincou. – O que meu sogro aprontou dessa vez?

- Abriu os portões da fazenda para a polícia escarafunchar tudo, afastou o Douglas de lá, e arranjou sua vaga na Câmara Federal.

- Han?

- Pois é... É de assustar não?

            Diana compartilhou com Rosana sua angústia, suas dúvidas, escondendo obviamente o agravante de suas questões com Natalia. A fotógrafa reconhecia o quanto o amor e a ciência de Rosana lhe ajudavam nesses momentos de impasse e confusão. Em minutos de conversa, já se sentia mais leve, a ponto de sorrir e brincar com a cantora. Testemunhar tal manifestação de afinidade e intimidade foi mais que doloroso para Natalia.

            A morena se aproximava pelo corredor quando ouviu que Diana conversava com Rosana, à surdina permaneceu sendo tomada pelo ciúme e insegurança despertada pelo tom carinhoso do diálogo no telefonema.

- Di você não tem que se sentir imoral por aceitar a hipótese de acreditar no seu pai. Você é humana, e pura. Isso não é falha de conduta, isso é nobreza.

- Nobreza ou ingenuidade?

- Meu amor você é uma das pessoas mais nobres que conheço. Não é demérito assumir ingenuidade. Se você quer procurar seu pai, e terminar aquela conversa tensa que iniciaram semana passada, faça isso, não perca a oportunidade de um coração aberto.

- Nem considerava mais que meu pai tivesse um coração, quanto mais aberto.

- Estou me referindo ao seu coração meu amor.

- Não sei se quero, não sei se posso Rô...

- Tenho certeza que sim, que você quer e pode. Aceite o que seu coração está pedindo, mas faça isso logo, próxima semana eu te quero aqui ao meu lado!

- Pode contar com isso, já comprei minha passagem.

- Ótimo! Saudades meu amor.

- Também estou honey.
           
            Diana respondeu automaticamente, negligenciando a necessidade de se distanciar de Rosana, considerando o que o reencontro delas representaria: o término da relação.

- É bom ouvir isso. Nos últimos dias tenho te sentido tão distante...

- Rô vou te deixar dormir, também preciso.

            Diana apressou a despedida quando se deu conta do deslize, nesse exato momento ouviu o barulho de um passo lento, na parede da sala, a sombra de Natalia. Com o pesar da consciência duplamente despertado, a loirinha desligou o telefone.

            Natalia se esquivou correndo em silêncio para a cama para não ser pega em flagrante pela fotógrafa. Diana chegou ao quarto na velocidade que a culpa e o medo de que Natalia interpretasse aquela ligação com outro fim permitiram. Encontrou a morena deitada, exatamente como a deixara: dormindo. Não a acordou, especialmente por que sabia que a promotora apenas fingia dormir, como se declarasse nada querer falar sobre o assunto, e como esse era o desejo de Diana, firmaram esse acordo tácito, arcando com as consequências da dúvida instalada.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

LEIS DO DESTINO: 2ª FASE - Capítulo 21

2.21 In dubio pro reo
No Direito: na dúvida, pelo réu. A incerteza sobre a prática de um delito ou sobre alguma circunstância relativa a ele deve favorecer o réu. 


            Natalia se angustiava a cada hora que passava sem notícias de Diana. O celular da loirinha desligado só contribuía para a apreensão da promotora que não calculava as consequências daquela conversa entre pai e filhos. Natalia sabia que se tratando de Acrisio Toledo, tudo de pior podia se esperar.

            A noite chegou e com ela a aflição da morena tomou uma proporção maior, ao entrar no apartamento de Diana ouviu um barulho pouco familiar vindo do estúdio da loirinha.

            Temerosa, Natalia abriu com cuidado a porta, se deparando com Diana sentada no chão, encostada na parede, assistindo a um filme antigo projetado à sua frente.

            Natalia reconheceu o homem nas imagens, Acrisio devia ter por volta de trinta anos e a menininha de cachos dourados, sapeca, deduziu que se tratasse de Diana. O vídeo era comum, um registro de um domingo qualquer em família, nada de diferente de muitos vídeos caseiros, o estranho naquele enredo era o personagem principal. Natalia nunca imaginara Acrisio em uma cena daquelas: rolando na grama brincando com os filhos, o áudio captava a voz de Alice que orientava:

- Diana, ele tem cócegas no pé! Vai lá ajuda seu irmão a se soltar!

            A menininha de pernas curtas com cara de travessa peneirava os dedos na planta do pé do pai, fazendo com que este se contorcesse em meio a risos, a bagunça só mudou de cenário quando Acrisio arrastou os filhos para um salto na piscina.

            “Só podia ser outro homem”. Era o que Natalia pensava. De repente, a promotora se deu conta que Diana nunca falara da sua infância com o pai, era verdade que a loirinha sempre se reservava de alguns assuntos, evitava uns e em outros ela era econômica nos detalhes. Por isso, Natalia se questionava sobre o porquê da sua amada assistir tal vídeo justamente naquele dia tenso. Olhou para Diana imóvel naquele canto com o rosto banhado em lágrimas, e sua face alva denunciava as marcas de um pranto longo.

- Di? Meu amor o que houve?

            Natalia disse se agachando para sentar-se ao lado de Diana.

- Liguei a tarde toda até agora pouco, estava preocupada com você. Faz tempo que chegou?

            Como se não estivesse presente, Diana não respondeu. Parecia transportada para aquele filme, com um semblante que beirava um estado hipnótico.

- Diana? Meu amor?

            Natalia girou o pescoço da loirinha e finalmente encontrando os olhos da morena despertou daquele transe, se entregando aos braços da promotora, permitindo-se desabar em lágrimas carregadas de uma dor inexplicável.

            A morena abraçou forte Diana, como se quisesse puxar para si um pedaço da dor que consumia sua amada. Não sabia o que acontecera, mas, o estado da loirinha intensificou o ódio que Natalia sentia por Acrisio, atribuiu a ele a culpa por encontrar Diana daquela forma.

            Depois de minutos recostada e consolada por Natalia, Diana repetiu o que para a morena parecia completamente sem sentido:

- Eu quero meu pai de volta Nat... Quero-o de volta...

            Natalia mesmo sem entender o comportamento da loirinha, a acolheu ternamente, até senti-la mais calma para pedir:

- Meu amor, você deve estar cansada. Venha, vou te preparar um banho relaxante, e algo para comermos, quem sabe assim você se sinta melhor para me contar o que está acontecendo.

            Diana assentiu. Sob os cuidados afáveis da promotora, a loirinha se deixou ser acalantada naquela banheira de espuma. Com desvelo, Natalia massageava as costas de Diana, espalhando óleo perfumado, tais gestos não se configuraram só em um afago revigorante das forças físicas de Diana, sugadas por aquela tarde dramática, mas era também um abraço na sua alma machucada.

            Natalia não cobrou explicações naquele momento, manteve seu carinho derramado nos gestos suaves, no amor pacificador exposto na delicadeza das suas mãos, e no zelo colocado na escolha dos ingredientes daquela massa que rapidamente preparou para o jantar.

            Refeita das emoções densas que lhe abalaram, Diana se deleitou no colo de Natalia após o jantar, e segundo seu ritmo, narrou o encontro com Acrisio.

- Foi isso. Eu que temia a ira e a crueldade do poderoso Acrisio Toledo foram surpreendidos com a memória dos fatos do homem que um dia amei como pai, que um dia foi meu herói.

- Di, eu entendo que todas essas revelações tenham tocado você profundamente, que tenha te confundido, remexido nas feridas que você se quer deixava que fossem vistas. Compreendo que esse abismo entre vocês não foi construído de um dia para outro, mas isso não apaga os motivos pelos quais Acrisio deixou de ser para você um herói. Você sabe que ninguém é todo bom, ou todo mal. Ele pode ser o pai amoroso, protetor, mas com a condição que você seguisse as regras dele. Foram essas regras que afastaram vocês, você sabe disso não é? Ou você aceitaria as práticas dele, os métodos dele se você continuasse sendo para ele o anjinho perfeito?

- Natalia você não está entendendo. Estou falando do meu pai, não estou falando do mesmo Acrisio Toledo que você está processando. O que narrei nada tem haver com os crimes que ele praticou. Estou falando da minha relação com ele. Pela primeira vez eu me questionei hoje quantas vezes eu me fechei para ele, eu apaguei da minha mente todas as tentativas que ele fez de se aproximar de mim. Eu levei grande parte da minha vida, ou seja, toda minha adolescência, dedicando todas as minhas energias para provoca-lo, irritá-lo, magoá-lo. Inconscientemente eu me comportava como aquela criança que tinha a esperança de matar o monstro que se apossou do meu pai e tê-lo de volta finalmente.

- Ele tentou mesmo se aproximar de você, te entender? Di, um homem que chantageou e usou a filha para seus propósitos políticos, que condenou você por sua homossexualidade é mesmo alguém capaz de te entender?

- Nat, você conheceu o pior lado do meu pai e sofreu com esse lado. Não há defesa para o que ele fez contra nós. Mas, sabe... Analisando meu retrospecto, meu pai não foi um louco preconceituoso ao afirmar que eu me “tornei” lésbica só para atingi-lo.

- Meu amor não o justifique por isso... Ele disse que era mais uma moda sua!

- Nat, eu criei sim muitas “modas” só para provoca-lo. – Diana calou e sorriu – Houve uma época que inventei de ser gótica, andava de roupas pretas, maquiagem pesada, e vivia às noites nos cemitérios com uma turma muito doida.

- Credo Diana!

            Diana gargalhou com a careta de Natalia.

- Meu pai ficava possesso de raiva! Uma das noites ele foi me buscar no cemitério, me mandando parar de atinhar as pobres das almas.

            Foi a vez de Natalia gargalhar.

- Depois disso enjoei do estilo e me tornei vegetariana, e com isso, me associei a um grupo de ecologistas, e liderava manifestações contra a morte dos animais, e adivinha onde eu cismei de fazer um protesto?

- Tenho medo até de supor.

- Em frente ao frigorífico do papai, onde ele abatia o gado de corte.

            Natalia arregalou os olhos.

- Para minha sorte, como eu era menor de idade, não fui presa, e não apanhei na confusão porque os seguranças do meu pai me arrastaram para dentro do frigorífico. Minha onda vegetariana acabou quando inaugurou o Mc Donalds vizinho ao meu colégio.

            Natalia riu meneando a cabeça.

- Foi a vez de arriscar outra estratégia, e resolvi dar uma de budista. Vivia cantando mantras com um incenso na mão, distribuindo flores no aeroporto e nos comícios do papai também, logicamente isso não tinha nada demais, até eu aparecer em uma reunião do meu pai com fazendeiros do estado. Nossa, as veias do rosto do meu pai pareciam saltar quando me viu.

- Sua mãe não tentava te impedir?

- Minha mãe até se divertia com minha criatividade. Vivia repetindo que eu tinha talento para atriz. Acalmava meu pai dizendo que eu fazia tudo isso para chamar a atenção dele. E muitas vezes meu pai me procurou tentando conversar comigo, me propunha até viajarmos juntos, só nós dois, mas isso despertava ainda mais minha revolta, eu berrava que ele não ia conseguir me comprar. E logo eu surgia com outra moda.

- Por que Di?

- Eu não sei Nat. Hoje me dei conta pela primeira vez que eu simplesmente declarei meu pai um inimigo e me fechei para qualquer chance de me entender com ele. Quando eu tinha recaída nessa postura de guerra, especialmente com os conselhos da mamãe, eu ficava sabendo de algum absurdo que meu pai cometera contra algum rival político, ou aliança com um juiz corrupto e aí a barreira crescia de novo e eu inventava uma moda nova. Fui rockeira, hippie e até naturalista tudo isso em um prazo de dois anos.

- E depois gay. – Natalia completou.

- Isso pareceu para meu pai a resposta às preces dele porque foi o período mais tranquilo em minha vida, no qual não me preocupei em bolar formas mirabolantes para afrontá-lo. Tudo que eu queria era estar com Bruna.

- Bruna?

- É, Bruna. A primeira que amei. Ela era novata no colégio, uma patricinha típica. A mais linda de todas. Nossa como ela me irritava! Pelo simples fato de existir! Aquelas roupinhas enfeitadas, tudo muito rosa combinando, até mesmo a maquiagem. Para meu desespero, o pai de Bruna se tornou um dos principais aliados do meu pai, ele era representante de uma multinacional e logo já fechou negócios com o papai, o que aproximou as famílias, consequentemente, nós duas.

- E vocês se apaixonaram perdidamente. – Natalia disse sarcástica.

- Sim. Era aquela coisa adolescente gigantesca! Se o primeiro amor adolescente é um drama de novela mexicana, você imagina o primeiro amor adolescente lésbico! Bruna me deu a paz que eu precisava, direcionei minhas energias para coisas saudáveis, por causa dela me apaixonei por fotografia. Fazíamos tudo juntas, estudávamos, brincávamos nos amávamos... Eu já conseguia até manter um diálogo sem agressões com o papai, que já considerava a ideia de deixar eu fazer intercâmbio na Europa. Esse era meu plano com Bruna, irmos estudar fora do país, morarmos juntas. Tudo estava dando certo...

- Até que...

- Até que meu pai nos flagrou na piscina. Recusei a viagem familiar para curtir um feriadão inteiro brincando de casinha com Bruna. Meu pai voltou antes, e adivinha? Saiu farejando meu “delito” até achar o que procurava.

- Meu Deus!

- A única coisa que ele disse foi: “Bruna volte para sua casa, você não merece ser mais uma arma dessa daí para me atingir”. Coitada, saiu assustada da minha casa, enquanto meu pai pela primeira vez usou de força para me punir. Vi ódio nos olhos dele. Meus irmãos foram castigados pelas estripulias vez por outra na infância, sabiam o que era o peso do cinturão do senador Acrisio, mas em mim ele nunca tocou. Mas nesse dia, ele me surrou como se quisesse compensar por todas as vezes que não me bateu.

            Natalia segurou a mão de Diana compadecida com o relato.

- Aquela surra doeu muito menos do que ficar exilada de Bruna. Acho que meu pai mesmo tomou a iniciativa de ligar para mamãe pedindo que ela retornasse antes quando viu o estrago que ele deixara no meu corpo. Certamente mais pelo meu estado emocional do que pelos machucados, adoeci, tive uma febre tão alta, que delirava chamando pela Bruna. Minha mãe não conseguiu trazer a Bruna para me visitar, nem tampouco convencer meu pai a me deixar voltar para o mesmo colégio. Fiquei incomunicável, isolada no meu quarto por dias. Só consegui falar com Bruna quase um mês depois, quando fui capaz de fugir de casa quando meu pai viajou a Brasília.

- Você foi procura-la na casa dela?

- Não. Fui ao colégio, achei que lá seria mais fácil falar com ela. E foi. Mas foi também uma das maiores decepções da minha vida vê-la aos beijos com um dos garotos mais populares da escola, que sempre deu em cima dela.

- Que vaca! – Natalia deixou escapar.

- Bruna não resistiu ao primeiro obstáculo que se levantou contra nós. Ficou tão assustada com as possíveis consequências de assumirmos nossa relação, que se refugiou aceitando o pedido de namoro do playboy na semana seguinte ao flagrante do papai. No dia que eu a vi com o namorado eu senti meu mundo desabar, meu impulso foi de arrastá-la, tirá-la dos braços dele. Mas, quando ela notou minha presença, seu olhar de pânico me fez recuar. Aquela menina apavorada não enfrentaria nada por mim. Ela não deu um passo em minha direção. Continuou nos braços do cara, pálida, enquanto eu experimentava uma dor excruciante. Ainda tive o impulso de ao menos me aproximar dela para ver a reação, mas minha mãe me impediu, quando notou meu desaparecimento supôs onde eu estaria.

- Depois disso, vocês nunca mais se falaram?

- Não. Ela me mandou uma carta quando soube da minha transferência do colégio. Desejou-me toda felicidade do mundo com alguém que tivesse coragem de me amar como eu merecia, pediu-me perdão pela covardia e finalizou dizendo que sempre ia me amar. Não respondi, eu estava muito magoada com ela. Minha mãe convenceu meu pai a me deixar fazer intercâmbio no exterior, assim, terminei meu ensino médio fora do país. Passei um ano nos Estados Unidos e um ano em Londres, se restava dúvidas na minha sexualidade, lá eu consegui mais algumas. Tive namoradas, namorados, conheci pessoas maravilhosas, lugares incríveis, me apaixonei ainda mais por fotografia, fiz curso de DJ. Amadureci em dois anos o suficiente para traçar minhas metas de vida.

- E por que voltou ao Brasil? Por que não fez faculdade por lá? – Natalia quis saber.

- Adivinha? O senhor Acrisio não deixou! Eu caí na besteira de contar meus planos de fazer faculdade de arte visual, ou cinema, queria algo ligado à fotografia. Meu pai disse que não ia sustentar minhas loucuras, ordenou que eu voltasse ao Brasil, e fizesse faculdade de Direito como sempre planejou para mim. Acatei a decisão dele, não só a pedido de minha mãe que prometeu me ajudar a continuar me especializando em fotografia, mas também, por que eu tinha acabado de conhecer a Julia. Logicamente ela não quis nada comigo, eu era uma adolescente de dezoito anos, mas eu estava completamente fascinada por ela, pela inteligência, pela arte dela. Achei não seria tão ruim voltar ao Brasil, estudar em São Paulo longe dos olhos do meu pai, protegida por minha mãe, teria a chance de conquistar a Julia, o que só aconteceu dois anos depois.

            Diana sorriu ao lembrar.

- Você passou todo esse tempo tentando conquistar a Julia?! – Natalia exclamou enciumada.

- O que você esperava? Julia já era uma mulher madura, com quase trinta anos, uma artista muito bem relacionada, culta, e eu uma universitária que vivia promovendo festas e farras. Nos dois anos que fiquei nesse jogo de conquista com ela, me relacionei com outras pessoas, inclusive no triângulo com Lucas e Pedro. Mas, como sempre era Julia que me chamava à razão, quando defini minha situação com os meninos e comecei a pegar geral as meninas, Julia me deu aquela lição que me arrasou moralmente e me fez cair de quatro de vez por ela.

- E aí você a conquistou?

- Ela me conquistou né Nat? Estava enlouquecendo com a rejeição dela já, até que desabafei dizendo que eu não era mais uma menina, que eu a desejava como mulher, que estava apaixonada e que se ela não me expulsasse da casa dela eu iria agarrá-la e provar isso. Ela não se moveu, sorriu pra mim e eu a beijei. E aí começamos a namorar.

- É você era mesmo apaixonada por ela.

            O comentário de Natalia veio carregado de ciúme, fato que não passou despercebido por Diana.

- Você se lembra de que eu a deixei por sua causa não lembra?

            Natalia acenou em acordo.

- Então desafaça esse bico doutora.

- Meu amor, como seu pai reagiu à conversa quando seu irmão falou das denúncias?

- Imaginei que a reação ia ser pior. Ele acusou o Danilo de estar louco claro. Mas o pano de fundo de nossa discussão familiar deixou isso em segundo plano.

- O que acha que ele vai fazer agora?

- Não faço a menor ideia Nat. Eu sinto ao tentar entender aquele homem como duas pessoas distintas: o meu pai que eu nem sabia que ainda existia em Acrisio Toledo e um escroque da pior qualidade, doente pelo poder.

- Di você considerou a possibilidade dele ter apelado para essas lembranças para amolecer você? Não acha que ele pode estar usando isso para dissuadir vocês a não prosseguirem com essas denúncias?

- Natalia você se esqueceu de quem estamos falando? Acrisio Toledo não precisa apelar para sentimentalismo para conseguir o que quer. O método dele inclui ameaça, intimidação e violência. Ele nunca se faria de coitado para despertar nossa compaixão. A empáfia dele não permitiria isso. Além do mais, Danilo revelou que já havia entregado as provas, ele tentou me chantagear voltando a ameaçar você e sua família um ano atrás e nada conseguiu, ele não tinha motivos para apelar à nossa sensibilidade.

- É muito surreal para mim tudo isso. Imaginar algum traço de humanidade e generosidade em Acrisio Toledo é completamente o oposto do que vejo nele.

            Diana baixou os olhos, voltando às suas reflexões acerca daquele dia. Natalia se policiava para não deixar seu julgamento acerca do pai da sua amada não ferir o amor de filha que se aflorava surpreendentemente em Diana.

- Meu amor, vamos tentar descansar um pouco. Foi um dia intenso, ontem você não dormiu bem e isso tudo é só o começo de dias tensos que enfrentaremos.

- Minha cabeça não para Nat. Tudo que estava submerso no meu subconsciente das minhas memórias com ele está vindo à tona sem que eu busque. Quanto eu tenho de culpa por ter expulsado meu pai da minha vida, e ter deixado só o monstro se relacionar comigo?

- Meu amor não há culpados nisso. Você era só uma criança e depois uma adolescente carente de um amor que se acostumou a ter e de uma hora pra outra teve que achar uma justificativa para não tê-lo mais.

- Nat, se eu tivesse ouvido meu pai em pelo menos uma das vezes que ele me procurou? Será que até mesmo essas atrocidades que ele cometeu a vida toda não seriam evitadas se eu estivesse do lado dele, com a confiança dele, apontando os erros dele?

- Diana não faça isso com você mesma! Não carregue essa culpa absurda, não tem sentido nisso.

            Natalia abraçou Diana e a fez repousar em seu colo. Talvez pelo cansaço ou pelo carinho demasiado da promotora, a loirinha deixou o sono lhe tomar. Os acontecimentos que estavam por vir trariam as respostas que ela precisava, acreditou nisso para conseguir dormir.